Nataša Gološin

Nataša Gološin – A mudança está nas pessoas comuns

Nataša Gološin

 

“O jornalismo sempre foi um jogo para mim, uma procura incessante não apenas pela história certa, mas também pela forma certa de a contar.” Ao abrir com esta frase forte e crua, sei que o faço, em parte, pelo princípio errado. Melhor, pelo lado egoísta em que, como entrevistador, me revejo mais. É que todos nós, que escrevemos, temos a utopia de encontrar sempre as palavras certas para o fazer e isso nem sempre é possível.

 

E esta frase também mostra, de certa forma, a nossa fragilidade, porque ao entrevistar a Nataša Gološin sei que encontrei a história certa, mas não sei se conseguirei, por palavras, dar a dimensão certa à história de vida de alguém que, quando veio para Aveiro, por amor, trazia na mala um dos livros mais importantes da sua vida, o Atlas, que lhe dá respostas, mas que, sobretudo, a faz refletir e fazer (muitas) perguntas.

 

 

A primeira janela para o mundo

 

Nataša Gološin é, por isso, uma cidadã do mundo, de vários mundos, conforme explica, de forma simples e assertiva à Aveiro Mag. “Quando vou à Sérvia chamam-me ‘portugalka’, enquanto aqui, provavelmente, serei sempre conhecida como ‘sérvia’, mas não me sinto nem uma coisa nem outra. Acresce ainda que nasci e cresci num país que já não existe – a Jugoslávia – portanto, estas questões da identidade são muito relativas para mim. Sinto-me como uma local em várias geografias e locais culturalmente distantes, sendo Aveiro um desses locais. E isso é algo muito especial, isto é, não sentir a minha identidade limitada por fronteiras políticas ou administrativas”.

 

Mas para todas as coisas há sempre uma razão. Ou várias. E esta dimensão de viajante e cidadã de um espaço ilimitado e sem fronteiras, tem um princípio, e esse configura um pequeno delito, perdoável é certo, até porque se os vizinhos sabiam, nunca lhe disseram nada: “Recordo-me que os meus vizinhos do 4.º andar recebiam a revista National Geographic todos os meses e eu achava isso mágico, era uma das poucas janelas que tinha para descobrir outros mundos. Tinha por hábito ‘roubar’ a revista de manhã da sua caixa de correio, e ao final da tarde, já depois de a ter lido, voltava a colocá-la na caixa como se nada tivesse acontecido. Acho que foi nesta altura que a minha curiosidade pelo mundo nasceu.”

 

 

Das redes sociais de viajantes ao “medo” da mãe

 

Em determinada altura da vida, Nataša descobre novas formas de viajar, mais baratas e acessíveis, através de redes sociais de viajantes, com contactos que lhe permitia encontrar alojamento gratuito em casa de pessoas em diversos países do mundo e, da mesma forma, receber viajantes na sua casa de Belgrado. Esta nova forma de “viver” acabou por “chocar” os seus pais, que não escondiam o medo de que alguma coisa pudesse acontecer. Mas Nataša resolveu de forma simples.

 

“A melhor forma de contrariar esse medo, era vivê-lo. Portanto, levei a minha mãe de comboio até Budapeste e apenas depois de passar a fronteira a informei que íamos ficar em casa de desconhecidos. Quis matar-me. Ficámos num apartamento de um casal húngaro que esperou por nós às 6 da manhã na estação de comboios e que nos fizeram sentir em casa. No fim, a minha mãe adorou a experiência e fez um enorme esforço para comunicar com eles com as 20 palavras em inglês e húngaro que conhecia. Não só nunca mais me criticou, como chegou a receber alguns dos meus amigos ‘desconhecidos’, cozinhou para eles e até fez alguns arranjos de costura nas suas roupas”.

 

 

 

O jornalismo, as pessoas comuns e o “coração aberto”

 

“O jornalismo sempre foi um jogo para mim, uma procura incessante não apenas pela história certa, mas também pela forma certa de a contar.” Chegados aqui e a frase de Nataša Gološin volta a aparecer. A menina que aprendeu a ler aos quatro anos e que aos nove escreveu, em parceria com uma amiga, o primeiro livro, sempre quis ser jornalista. Era a forma, possivelmente, com que pensava que seria possível mudar o mundo.

 

De um curso de verão de jornalismo recebeu o conselho de quem estava na profissão, de que não precisava de estudar jornalismo para o ser. Daí que a opção, no ensino superior, tenha sido Ciências Políticas e Diplomacia. A meio recebeu uma bolsa para um curso de Jornalismo de Investigação e não hesitou em concorrer. No final recebeu uma proposta de emprego e voltou a não hesitar, acumulando, para desespero dos pais, as duas funções, naquilo que vulgarmente se chama de trabalhadora-estudante.

 

Alguns anos depois, e uma vasta experiência acumulada e a forma de mudar o mundo, alterou-se. O foco, a partir dessa altura, passou a estar nas pessoas comuns e Nataša Gološin não hesita em contar a reportagem que propôs fazer num dos momentos de tensão entre a Sérvia e o Kosovo, pouco tempo antes deste país se tornar independente.

 

“Fui ‘clandestina’ passar uma semana como ‘visitante sérvia’ numa família de albaneses a viver em Pristina, através de uma rede social – couchsurfing. Era uma família numerosa e muito tradicional de quatro gerações de albaneses, que, como é evidente, sabiam que era sérvia, que vinha do território ‘inimigo’, mas não sabiam que era jornalista. Receberam-me como ninguém o fizera até então, enquanto na Sérvia muitos pensariam que seria sequestrada para que vendessem os meus rins. A avó de 90 anos de idade deixou-me ficar no seu quarto, enquanto dormia na cozinha. Cozinharam para mim, mostraram-me a cidade e apresentaram-me aos seus amigos. Mais tarde, no meu artigo, consegui demonstrar que as “pessoas comuns” são “pessoas comuns” em todo o lado, mesmo quando os líderes políticos têm outras agendas, e que, se fores de coração aberto, há uma forte probabilidade de também seres recebida de coração aberto”.

 

 

Chocolate: as verdadeiras prioridades da vida

 

“Eu cresci em Zrenjanin, uma cidade linda e multicultural no norte da Jugoslávia onde celebrávamos juntos o Natal católico e ortodoxo. A maior parte das pessoas tinham medo de uma guerra civil, não compreendiam como é que, de um dia para o outro, vizinhos se tornavam inimigos de sangue, e ninguém desejava que tal acontecesse.” Foi assim a infância e, sobretudo, a adolescência de Nataša, que apesar de tudo, assume que foi “feliz”, por muito estranho que possa parecer.

 

“Como adolescente a viver num país envolvido em várias guerras foi horrível, mas também fez de mim uma pessoa mais adaptável, resiliente, forte e com algumas competências de sobrevivência. Tínhamos de ser felizes com o que tínhamos, e não tínhamos muito. Pode parecer difícil de acreditar, mas éramos felizes, mesmo nestas circunstâncias. Era suficiente ter amigos com quem estar e que nenhum dos seus pais fosse enviado para a guerra. E se um dia tínhamos um chocolate meio estranho que um vizinho trazia de uma fábrica de leite, isso era um bónus. Graças a essa experiência aprendi a valorizar as verdadeiras prioridades na vida”.

 

 

 

“Agora Aveiro” e a cidade

 

O amor trouxe Nataša para Aveiro. E a última década tem sido vivida pelas nossas ruas, escrevendo novas páginas numa cidade que, assume, era uma espécie de “cidade-fantasma”, mas que hoje, diz, está “repleta de vida e de atividade”. Para esta mudança, espera ter contribuído com a criação da associação Agora Aveiro, da qual é cofundadora: “O facto de termos a oportunidade de coorganizar o TEDxAveiro permitiu à associação ganhar visibilidade e notoriedade no início. Mais tarde, projetos como o ‘Plantar o Futuro’ ou ‘Precisas Então Leva’, deram a oportunidade a mais jovens de se envolverem nas atividades da associação e de contribuírem para o seu crescimento. Espero que a Agora Aveiro continue este percurso de crescimento lento e sustentado e que se mantenha ativa e impactante por muitos anos, como algo que deixo a Aveiro com amor”.

 

Para finalizar uma conversa que já vai longa, a pergunta que se justifica, até porque vinda de fora, a visão de uma visitante que se converte numa “aveirense” alcança uma perspetiva diferente. – Se pudesses o que mudavas, mesmo, em Aveiro? A resposta foi, como se esperava, sincera. “O que eu mudaria em Aveiro não pode ser mudado. Menos vento e menos humidade que tanto diminuem a minha saúde e qualidade de vida. Mais a sério, o que sinto é que o centro urbano de Aveiro é muito bonito e muito mais bem tratado que as áreas periurbanas. Gostaria que Aveiro fosse uma cidade mais homogénea, mais coesa e equilibrada. Eu sei que é no centro que estão os turistas, mas para mim, com todo o respeito, os locais são mais importantes que os turistas. Uma ciclovia até às praias ou às maravilhas por descobrir nos subúrbios, e mais espaços verdes por todo o lado, seriam muito bem-vindos”.

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