Palhaço e público partilham palco na nova criação de Rui Paixão

Rui Paixão

 

Depois de um ano de suspensões e adiamentos, o LEME, festival de circo contemporâneo de Ílhavo, está de regresso, em edição alargada, entre os dias 2 e 12 de dezembro.

 

Como vem sendo habitual, também este ano, o festival organizado pelo 23 Milhas desafiou um criador português a conceber e apresentar um espetáculo inédito e exclusivo. Em 2018, Ana Jordão trouxe a Ílhavo “Chama do Mar”, recrutando dois músicos da região para trabalharem consigo; em 2019, Daniel Seabra estreou [HOSE], com Miguel De e Maria Trabulo, inspirando-se nos tubos e mangueiras de uma fábrica ilhavense; no ano passado, Rui Paixão estava pronto para a apresentar “Irredutível”, mas o 23 Milhas viu-se obrigado a cancelar o LEME por conta das medidas então decretadas para combate à pandemia de Covid-19 e aquele espetáculo, enquanto espetáculo, nunca veria a luz do dia. Ainda assim, Rui decidiu reestruturar o projeto e usar o material de investigação que tinha recolhido para construir uma conferência performativa em torno da palavra “palhaço”.

 

Em 2021, Rui Paixão mantém-se como o criador convidado do LEME e prepara-se para apresentar o espetáculo “Albano”, criação que deu a conhecer ontem, pela primeira vez, num ensaio aberto nas instalações industriais do Terminal Especializado de Descargas de Pescado, na Gafanha da Nazaré. Uma primeira mostra que acontece a mais de um mês do arranque do LEME, mas que Luís Ferreira, diretor do 23 Milhas, entende como “uma antestreia do próprio festival”.

 

 

 

 

Longe do tradicional palhaço de nariz vermelho e batatudo, Rui Paixão é uma das grandes referências do clown contemporâneo em Portugal. O jovem feirense, que foi o primeiro português a integrar a equipa do Cirque do Soleil, a maior companhia de circo do mundo, gosta de ver a sua arte pelo prisma da liberdade e de cultivar um certo espírito selvagem. Ao atuar, sonha ir à essência do ser, do pensamento, do riso e da comunicação. Despido das etiquetas que o condicionam e dos protocolos que o moderam, abraça o que em si é frágil, esdrúxulo ou ridículo, sempre fiel à premissa de que “ser palhaço é procurar o rosto que tinha antes de o mundo ter nascido”. Mais do vestir um disfarce, aposta no exercício oposto: o de tentar despir-se da máscara que o mundo lhe criou.

 

Em “Albano”, Rui vai convocando aleatoriamente alguns elementos do público para se juntarem a si. Em palco, com uma expressiva (ainda que indecifrável) algaraviada, é o palhaço que os guia: atribui-lhes adereços, orienta-lhes os passos e convence-os a seguir-lhe os gestos de forma que, através desta dinâmica, consigam contar o mito de Perseu e da Medusa.

 

Quando ao lugar inusitado – o Terminal Especializado de Descarga de Pescado, na Gafanha da Nazaré – onde decorreu este ensaio e onde, durante o LEME, vão ter lugar as demais apresentações do espetáculo, Rui Paixão afirma ter encarado o exercício de trabalhar num espaço que não tem por hábito acolher performances artísticas e de se apropriar dele, adulterando-o das suas formas e valências para poder contar uma história, como “um desafio aliciante”.

 

 

Importa, por fim, frisar que este ensaio marcou o início de uma parceria entre o projeto 23 Milhas e a RTP Palco. Esta plataforma digital da estação pública de televisão dedicada às artes performativas esteve no Terminal de Descarga de Pescado para gravar a apresentação de Rui Paixão e, em breve, deverá disponibilizar esse registo.

 

“Albano” estreia a 2 de dezembro, quinta-feira, às 21h30, sendo que, depois desta primeira apresentação, está programada uma conversa com o criador. As restantes sessões do espetáculo estão marcadas para os dias 3, 10, 11 e 12 de dezembro, sempre nas instalações do Terminal Especializado de Descarga de Pescado, na Avenida dos Bacalhoeiros, na Gafanha da Nazaré.

 

 

 

*Fotos: Afonso Ré Lau

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