O Marta, projeto e pessoa de letras de confrontação e paisagens de infância

 

Quando ainda não sabia falar Inglês, inventava as suas próprias letras, língua, linguagem. Hoje, numa exploração do “eu”, Guilherme Marta é o jovem músico por trás de O Marta, um projeto musical que celebra os cantos polifónicos e a etnografia, entrançados com outros estilos musicais, numa viagem pelos lugares que compõem a sua infância.

 

Soma apenas 23 anos e uma licenciatura em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações, pela Universidade de Aveiro, curso em que se matriculou por saber que a música é um percurso que só deve ser empreendido quando a certeza é plena e por nutrir, desde cedo, uma inevitável curiosidade também em relação à “parte eletrónica associada aos instrumentos musicais”, desde os pedais das guitarras aos sintetizadores.

 

Não tardou a perceber, no entanto, que “não era aquilo que queria fazer”. “Ia para casa e, muitas vezes, em vez de pegar nos livros, ia tocar guitarra, compor ou produzir música”, partilha, acabando por se tornar inarredável a vontade de se fazer de novo estudante, desta vez ingressando numa licenciatura em Música – Variante de Produção e Tecnologias da Música, na ESMAE.

 

Hoje, tendo procurado redescobrir os cantos e paisagens da sua infância num encontro com outras influências que vieram a habitar as suas páginas e que compõem hoje a sua “bagagem”, continua a procurar a sua voz e quem é – enquanto artista e pessoa –, num projeto que se soma a Bang Avenue, um duo que partilha com Leonardo Patrício.

 

 

Uma linguagem própria

 

Nasceu e cresceu em Viseu, mas foi encontrando casa noutras paisagens, como as de Aveiro, São Pedro do Sul e Arnas, a aldeia em Sernancelhe sobre a qual escreve, no vídeoclipe de ‘Quando o corpo não te convém’: “neste povo das Arnas, encontrei carinho, hospitalidade e, mais que tudo, música nos seus corações”. 

 

Os pais, conta, eram ávidos consumidores de cultura e, por isso, Guilherme foi somando centímetros e vontades enquanto testemunhava diferentes formas de expressão artística. “Não me recordo muito bem, mas a minha mãe diz que estava sempre a cantar”, reflete, acrescentando que os pais sempre procuraram colocar-lhe “vários instrumentos nas mãos”.

 

Por volta dos 8 anos, teve a sua primeira guitarra, tendo sido também incentivado, por um professor, a aventurar-se no piano. Daí, não tardou a ingressar o Conservatório, que, talvez por ser muito novo e por se fazer de muitos outros quereres, lhe pareceu muito rígido. “Se fosse agora”, conta, “provavelmente ia achar muito mais tranquilo e relativo, só que, na altura, tinha outros interesses. Saía muitas vezes da aula [de piano] frustrado. Acabei por começar a associar a música a algo penoso”.

 

Foi então que Pedro Novo surgiu, para voltar a colocar-lhe, nas mãos, a guitarra. “Deu-me novamente este bichinho” e, com ele bem abotoado, Guilherme lançou-se numa primeira banda, de covers. Mas não se ficou por aí. Com vontade de fazer da música algo mais sério, formou uma outra já no Secundário – Blazer Dog –, que chegou a celebrar o lançamento de um single.

 

 

Por saber, porém, que a música exige passos seguros, de quem o faz “por paixão”, decidiu rumar a um curso de Engenharia Eletrónica e Telecomunicações, em Aveiro, dado que poderia permitir saciar a sua curiosidade sobre a forma como é produzido o som. 

 

Foi aí, em terras de moliceiros, que cruzou estrada com Leonardo Patrício, que é hoje uma das metades do duo Bang Avenue e parte ainda deste novo projeto, O Marta.

 

 

A exploração do “eu”

 

Por vezes, a vida faz-se em círculos e, se quando era pequeno, Guilherme procurava inventar a sua própria linguagem, hoje procura-a, consciente de que a sua música deve poder “despertar algo”, poder “confrontar a pessoa quanto ao que se está a passar na sociedade e na vida portuguesa”, construindo O Marta em torno da “letra de confrontação”. 

 

O projeto, que brotou já em tempos de pandemia, resulta de uma necessidade incessante de criar. “Não consigo estar parado. Preciso de compor para, ao fim do dia, me sentir bem comigo próprio”, conta, e, a certa altura, com 400/500 músicas acumuladas no seu disco externo, precisou de encontrar um espaço paralelo ao que encontra com Leonardo Patrício no duo. “Sentia que os Bang Avenue têm o seu espaço para criar, mas é um espaço conjunto”, que se materializa quando se encontram com o propósito de fazer nascer música, numa aldeia chamada Pomares, mas que, no que sobra ao ano, acaba por não ser algo contínuo, capaz de sossegar a criatividade de Guilherme.

 

“Eu, para satisfazer essa necessidade, fui sempre produzindo até que chegou a um ponto em que senti que a minha produção e composição estavam a precisar de ser mostradas ao mundo”, conta. O projeto O Marta é um reflexo disso – da procura da sua voz e de quem é, musicalmente e enquanto pessoa –, sendo marcado, por isso, por muitas memórias de infância, desde os cantares de Manhouce à Festa da Castanha em Sernancelhe. 

 

 

“Tentei fazer uma redescoberta dessa música. Fiz uma fusão entre todo o caminho que fiz até agora, desde rock, indie pop, música alternativa experimental. A minha ideia foi essa: pegar nessa bagagem, nessa mala que eu tinha e juntar ao que é a música popular e tradicional portuguesa”.

 

Hoje, O Marta conta já com um single lançado – ‘Quando o corpo não te convém’ –, que “fala sobre o reconhecimento e a aceitação do corpo”, trazendo à luz o estigma que existe na sociedade em torno do corpo, principalmente o da mulher. “Este álbum”, que será lançado para o ano, explica, “acaba por se focar muito na mulher. Inspirei-me muito na minha mãe, na minha avó, nas mulheres da Beira” e é composto por letras em que o jovem músico procura imprimir crítica e intervenção. “Não quero que sejam superficiais e acabo por ir buscar muitas influências de artistas de intervenção, como José Mário Branco e Zeca Afonso.”

 

“Eu acho que Portugal tem artistas que escrevem muito bem, como o Jorge Cruz, dos Diabo na Cruz, o Manel Cruz, dos Ornatos Violeta, os artistas de intervenção (Zeca Afonso, Sérgio Godinho, por exemplo) (…) e acho que não devíamos perder isso. Acho que devíamos continuar com essa força de intervenção. E é um bocadinho isso que o projeto O Marta quer transmitir: essa vontade de intervir”.

 

E é com gente que faz sentido que O Marta se materializa. No curso da ESMAE, que frequenta atualmente, teve a sorte de conhecer músicos e produtores “excelentes”. Entre quem o acompanha, no projeto, para performances ao vivo, encontram-se Gonçalo Cabral, Sara Machado, Leonardo Patrício (dos Bang Avenue), Francisca Tadeu e Pedro Novo (o amigo que voltou a introduzir em Guilherme a paixão pela música quando o caminho se fazia menos claro). Juntam-se ainda às mãos, pés e coração de O Marta Carolina Hadden e Sara Costeira, cujas vozes foram gravadas para o álbum, João Almeida, trompete, em ‘Quando o corpo não te convém’, e Alexandre Sequeira, responsável pela cinematografia do videoclipe deste primeiro single.

 

O projeto tem sido muito acarinhado, conta Guilherme, destacando o acolhimento feliz d’‘A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria’. 2022 avizinha-se um ano preenchido: de lançamento de novo single – ‘Mulher Beirã’ – e de um álbum que, partindo do tradicional, se faz de inovação e pretende, assim, “fazer com que as pessoas não se esqueçam do património que têm”. Depois, “é tentar fazer concertos, se tudo correr bem, e ir tocar por aí. Correr Portugal”.

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