“Kind” significa “criança”, mas este “conto de fadas perverso” é coisa para adultos

 

 

“Kind” (“criança”, em holandês), uma performance de teatro físico “surreal, delirante e imaginativa”, sobe ao palco do Teatro Aveirense no próximo domingo, dia 30 de janeiro, às 21h30. Depois de “Vader” (“pai”), de 2014, e “Moeder” (“mãe”), de 2016, este espetáculo completa uma trilogia que a conceituada companhia belga Peeping Tom tem dedicado à família.

 

O nome até pode sugerir infância, mas este não é, de todo, um espetáculo para crianças. Desde logo, porque “contém uma boa dose de violência”, avisa Brandon Lagaert, jovem artista que integra o elenco de “Kind”, em conversa com a Aveiro Mag. A performance, concebida por Gabriela Carrizo e Franck Chartier, desenrola-se num ambiente de sonho e fantasia, mas também de sombra, brutalidade e crueza. Exploram-se as fontes da psicose do ponto de vista da criança, transportando o público a um universo distante, um lugar de magia e trevas, inocência e perversão. “Porque, do nosso ponto de vista, é tudo isso que as crianças são, na verdade. Nós não queremos mostrar a visão hollywoodesca de uma criança, uma visão romantizada sobre um ser sempre sincero. Queremos, isso sim, mostrar que há um certo tipo de violência nas crianças, especialmente, quando não há adultos por perto”, explica Brandon.

 

“A performance explora o crescimento e a influência que quem nos rodeia exerce sobre nós nesse processo”, continua. Levanta-se aqui uma antiga questão filosófica: “O Homem é intrinsecamente bom ou mau?”. Se, por um lado, autores como Thomas Hobbes consideram que “o Homem é o lobo do Homem”, isto é, que o ser humano é naturalmente mau, perverso e egoísta, por outro, autores como Jean Jacques Rousseau defendem que a natureza humana é essencialmente boa, que todo o Homem nasce bom e é a sociedade que o corrompe ao longo da vida. Filosofias à parte, e voltando ao relato do jovem belga, “‘Kind’ vai ao centro do debate que opõe “o que nos é inato àquilo que adquirimos através da interação com o ambiente físico, social e cultural que nos rodeia”, uma questão celebrizada pela expressão inglesa “nature vs. nurture” (natureza vs. educação), à qual o artista também faz referência, em entrevista à Aveiro Mag).

 

 

 

“Kind” estreou em 2019 e, desde aí, as reações têm sido tão diversas quanto os públicos que a ela têm assistido. No entender de Brandon, “as pessoas veem os assuntos mais obscuros [como a violência e o trauma] no cinema, mas não estão habituadas a que os mesmos assuntos sejam trazidos para cima do palco. Quando alguém vai assistir a uma performance de teatro e dança – especialmente, quando sabe que inclui dança – está sempre à espera de ver beleza e emoção. Isto faz com que, frequentemente, as pessoas saiam algo chocadas [dos nossos espetáculos], por tocarmos temas mais pesados ou cruéis. Mas é possível encontrar beleza nas trevas e na estranheza da vida, dos corpos, das situações ou das personagens. Aliás, esse é, provavelmente, o ponto comum a todos os trabalhos da Peeping Tom”.

 

De volta a Portugal, depois de já ter trazido as duas primeiras partes desta trilogia de espetáculos ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a Peeping Tom volta a presentear o público português com um cenário impressionante – outra das imagens de marca da companhia belga. Em “Kind”, o palco é ocupado por uma floresta de árvores imponentes, eriçadas e sombrias. Junto a uma clareira, ergue-se a parede rochosa de uma montanha. O cenário é enorme, cheio de detalhes e qualquer recanto pode esconder um perigo. “Para nós, performers, é fantástico porque não temos de depositar energias a imaginar o espaço. Ali, estamos mesmo numa floresta”, partilha Brandon, assegurando que, apesar de gigante, o cenário é “bastante portátil e fácil de transportar”. “[Na Peeping Tom,] os cenários são sempre construídos de forma a caberem num camião. É preciso muita organização e planeamento, mas a máquina está bem oleada. Demora-se, mais ou menos, duas a três horas a descarregar e montar tudo com o apoio dos técnicos locais”.

 

Brandon Lagaert (que até já passou férias em Aveiro e recorda o serpentear dos canais e a curiosidade das salinas) espera que o público aveirense acompanhe os performers nesta viagem delirante e consiga “olhar para a dança, o movimento e as artes performativas com outros olhos”.

 

Os bilhetes estão à disponíveis no Teatro Aveirense e em ticketline.sapo.pt.

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