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Miguel Bastos: “A rádio não ocupa espaço, nem ocupa tempo”

 

No próximo domingo, dia 13 de fevereiro, assinala-se o Dia Mundial da Rádio, uma oportunidade para recordar a relevância histórica deste meio de comunicação, para sublinhar a sua importância junto das comunidades que dele continuam a depender para se manterem ligadas ao resto do mundo e, na Aveiro Mag, para darmos destaque um aveirense que faz da rádio a sua vida.

 

Miguel Bastos sempre foi um ávido consumidor de rádio. Aos 14 anos, entusiasmado pelo fenómeno das rádios pirata – projetos locais, de caráter experimental e espírito comunitário, que iam ocupando território e frequências um pouco por todo o país –, decidiu apresentar à RIA – Rádio Independente de Aveiro – uma proposta para a criação de um programa de autor juntamente com dois amigos de infância. A emissora aprovaria o projeto poucos dias depois, disponibilizando-lhes três horas na grelha – duas ao domingo e uma segunda-feira. “Era um programa sobre música, em direto, ao qual, inspirados pela Pizzarte (emblemática pizzaria aveirense), chamámos Musicarte. Foi a minha primeira experiência em rádio”, conta Miguel que, em dia de estreia, recorda, “estava a tremer por todos os lados”. “Tinha a garganta seca, engasguei-me várias vezes e falei muito baixinho. Ainda tentaram subir o volume do meu microfone, mas aquilo não subia mais… estava a falar para dentro”, lembra.

 

Três anos depois, já Miguel acumulava estes conteúdos autorais com a apresentação de programas-âncora da estação, surge a possibilidade de migrar para a rádio Moliceiro, “um projeto mais profissional e bem-pensado”. O jovem não hesita. “Algumas pessoas dedicam-se ao judo, outras à natação… [a rádio] foi o meu hobbie, muito embora, sempre o tenha levado muito a sério. Desde o início que senti que era aquilo que eu queria fazer para o resto da vida”, assegura, em entrevista à Aveiro Mag.

 

Naquele momento, Miguel não só estava convicto do futuro que queria traçar como, em certa medida, já exercia a profissão com que sonhara. “Para quê, então, ir para a universidade?”, ter-se-á perguntado. “Entretanto, lá percebi que ainda era muito novo e não me ia fazer mal nenhum estudar um bocadinho”, sendo que, para poder continuar a alimentar a paixão pela rádio, garantindo não só as rúbricas de que era autor, mas também as restantes funções que já tinha à sua responsabilidade, a opção quanto a um percurso académico teria de passar pela cidade de Aveiro. Decide, então, apostar no curso de Novas Tecnologias da Comunicação, na Universidade de Aveiro, naquilo que descreve como uma “opção semiconsciente”. Por um lado, sabia que não estava a ingressar exatamente num curso de jornalismo ou comunicação social, por outro, acalentava a esperança de que NTC tivesse suficientes pontos em comum com essas áreas para poder servir de suporte àquela que – isso tinha a certeza! – seria a sua profissão: a rádio. Todavia, não foi bem assim.

 

“À medida que íamos avançando no curso, os meus colegas estavam cada vez mais entusiasmados por serem capazes de fazer coisas dentro do universo da multimédia e da internet e eu ia descobrindo que aquilo não era para mim”. Em plenos anos de 1990, não era fácil dar uma resposta clara a quem perguntava para que é que aquele curso servia: “Multimédia”, “internet” ou “CD-ROMs interativos” eram realidades desconhecidas pela maioria e a recorrente pergunta “Para que é que o teu curso serve?” facilmente evoluía para “Então e tu o que é que vais querer fazer?”. Aí, a resposta era clara: “Rádio”.

 

Miguel acabou por concluir a licenciatura sem nunca abandonar a Moliceiro, onde esteve até ao ano 2000. Com o virar de milénio, porém, acaba mesmo por deixar Aveiro e a rádio para abraçar o desafio de trabalhar numa editora discográfica. A mudança para Lisboa marca o início de um período profissional – que, mais tarde, passaria também pelo Instituto Politécnico de Leiria e, de volta a Aveiro, pela Orquestra Filarmonia das Beiras – em que o aveirense esteve desligado dos universos da rádio e do jornalismo. Mas se, nessa fase, o corpo desabitou os estúdios, a voz repousou longe dos microfones e os auscultadores deixaram de lhe cobrir os ouvidos, o coração, esse, nunca esqueceu a rádio. Há duas convicções que este hiato ajudou a cimentar: “a primeira, é a de que posso fazer outras coisas, que posso fazê-las bem e que o meu trabalho pode ser apreciado ao fazer outras coisas. Ao mesmo tempo, [a convicção de que] a minha casa é esta, a da rádio e do jornalismo”, reitera Miguel.

 

Em 2006, regressa à rádio, numa primeira fase, no serviço público, depois, em projetos do grupo Media Capital e, novamente, na Antena 1, onde ainda hoje se mantém.

 

 

 

A resistência de um meio em constante adaptação

 

Em outubro do ano passado, depois de um período de teletrabalho imposto pelas condicionantes da pandemia, no momento em que se despedia do miniestúdio que improvisara para assegurar a emissão a partir de casa, Miguel partilhou uma pequena reflexão no seu blog pessoal. Começava com estas palavras: “A dada altura, deixei de reconhecer um estúdio de rádio. Primeiro, a digitalização levou as cassetes e os leitores de cassetes; depois, os discos e os gira-discos; de seguida, os CD e os leitores de CD e, finalmente, o papel. Alguns estúdios são tão asséticos, que mais parecem laboratórios ou salas de operação”.

 

Desde o dia em que Miguel entrou nos estúdios da extinta RIA para emitir a edição inaugural do seu primeiro programa de rádio, até aos dias de hoje, em que os estúdios são esses cenários pálidos e estéreis que descreve, muitas coisas mudaram no universo radiofónico. No entanto, talvez até mais do que as mudanças, há que ressalvar a longevidade do meio e a resiliência com que tem lidado com todas as revoluções tecnológicas e sociais que lhe têm sido impostas.

 

Repare-se que, ao longo das últimas décadas, muitos têm vaticinado a aparentemente inevitável extinção da rádio. Primeiro, foi a massificação da televisão – “1979, ‘Video Killed The Radio Star’, The Buggles”, atira Miguel, recorrendo ao seu arquivo mental de música e discos –, depois, foi o advento da internet e, mais recentemente, o aparecimento de plataformas de streaming como o Spotify ou a Apple Music que atraem milhões de subscritores em todo o mundo.

 

No entanto, contrariando as expectativas mais dramáticas, a rádio aí está. Viva. De acordo com a quinta vaga de 2021 do estudo Bareme Rádio da Marktest, do passado mês de dezembro, cerca de 85 por cento dos portugueses residentes em Portugal continental com mais de 15 anos (mais de 7 milhões e meio de pessoas), ouvem rádio regularmente, sendo que mais de 60 por cento ouvem todos os dias. A rádio continua a ser um dos media com maior audiência e maior taxa de penetração no mercado.

 

Mas, então, a que se deverá esta longevidade que contraria inevitabilidades e prenúncios? Será pelo imediatismo difícil de combater até mesmo pela internet? Será pela simplicidade conceptual que lhe confere uma notável capacidade de adaptação a novos pressupostos e tecnologias? Será pelo facto de ser o mais íntimo dos meios de comunicação, aquele que nos fala ao ouvido e melhor serve a função de ser veículo de emoções? Todas estas são, no entender de Miguel Bastos, “boas pistas” para ajudar a explicar a sobrevivência da rádio. “A rádio mantém-se, essencialmente, porque é flexível. Não ocupa espaço, nem ocupa tempo. Qualquer pessoa pode ouvir rádio sem que isso atrapalhe a sua vida. A rádio adapta-se ao dia-a-dia das pessoas como nenhum outro meio e consegue ser omnipresente. Acho que as pessoas não nos ouvem mais porque não têm essa noção de que não é necessário destinarem-nos um tempo e um espaço especial do seu dia. Há lá coisa melhor do que limpar a casa enquanto se ouve rádio?”.

 

O som de uma vida

 

Apropriando-nos de uma pergunta que até já deu origem a um podcast com a assinatura de Rita Colaço – também ela, jornalista da Antena 1 – não quisemos deixar de saber qual o som da vida de Miguel Bastos. Uma voz? Um ruído? Uma vibração? Um trecho de uma música? Um excerto de uma conversa? Nada disso. Para Miguel, o som da sua vida é o som da rádio e, muito particularmente, dos programas de discos pedidos – como o “Quando o telefone toca” – que marcaram a sua juventude.

 

“Lembro-me de passarmos a noite à espera de que alguém pedisse as nossas músicas favoritas na rádio para podermos gravá-las para cassetes. Aquela cantiguinha ainda me está na cabeça: ‘Quando o telefone toca, diga a frase’ e dizia-se uma frase [por norma, um slogan publicitário ou um qualquer bordão associado ao patrocinador do programa] e podia pedir-se uma música. Depois, era só esperar que a música arrancasse para a gravarmos”. “O mais curioso é que, como o aparelho registava o som com um microfone externo, qualquer ruído que se fizesse lá em casa nesse momento ia parar à gravação… subir e descer as escadas, alguém a falar, frequentes ‘xiu!’…”, recorda Miguel Bastos, para quem, ao longo de todos estes anos de paixão e dedicação, a rádio tem sido “um meio para conhecer o outro e para conhecer o mundo”. “A rádio levou-me a sítios e a pessoas aos quais, sem ela, nunca teria conseguido chegar. E isso é maravilhoso”, reconhece.

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