“A Breve Vida das Flores”, um hino à felicidade

A Páginas tantas

 

 

Filipa Matias Magalhães* 

 

 

Porque estamos na primavera mas, sobretudo, porque qualquer mensagem de esperança é sempre bem-vinda, esta semana sugiro-vos o primeiro livro da Valérie Perrin publicado em Portugal, “A Breve Vida das Flores”. Este não é um livro qualquer, é um livro que nos permite cheirar e ver e sentir todas as emoções que a autora nos quer transmitir, e nos transporta para um universo em que nos convida a apreciar as coisas pequenas e boas da vida. “- Veja como está bom tempo, hoje. Inebrio-me todos os dias com a beleza do mundo. É claro que há a morte, o desgosto, o mau tempo, o dia de Todos-os-Santos, mas a vida sai sempre vitoriosa. Há sempre uma manhã em que a luz é bela e a erva renasce nos terrenos queimados.”

 

É a esta capacidade de nos deixarmos inebriar pela vida que a autora nos apela, apresentando-nos relações, sentimentos e emoções que dão sentido à vida, até mesmo quando tudo parece conduzir no sentido oposto. Valéria Perrin, uma das escritoras mais importantes em França, estreou-se em Portugal com este belíssimo romance, já traduzido em mais de 30 línguas e justíssimo vencedor do prémio Maison de la Presse e Prix des Lecteurs. Mais de 400 páginas de uma escrita carregada de poesia e de lições sobre o amor, o casamento, a amizade e a capacidade de nunca nos abandonarmos à dor nem deixarmos que esta nos molde. A autora tem uma capacidade única de, através da sua escrita envolvente, nos emprestar os seus olhos atentos ao detalhe de fotógrafa, para vermos toda a beleza que é possível encontrar nas pequenas coisas da vida, como as flores – que desempenham um papel central no romance –um banho no mar ou até mesmo uma salada de tomate vermelho e maduro.

 

O livro entrelaça duas histórias centrais: a história de vida da protagonista Violette Toussaint – uma história dura, triste e marcada pelo abandono e pela perda; e a história de um amor proibido, entre Irène e Gabriel, que nos é dada a conhecer pelos trechos do diário de Irène que Violette vai lendo enquanto vamos acompanhando a história da sua vida.

 

Violette Toussaint é órfã de pais e vive uma infância entre casas de acolhimento, a sonhar com o conforto e o colo que uma família dá e que ela não teve. “A lotaria da vida às vezes está mal distribuída. Eu gostaria muito mais de ter sido criada por um homem como o padre Cédric do que ter andado a passar de família em família.” Mas esta infância dura não a torna uma jovem amarga e é no auge da sua adolescência que Violette conhece e se apaixona por Phillipe Toussaint com quem acaba por se casar e ter uma filha, Léonine. Mas também Philipe, depois de uma vida de traições, acaba por abandonar Violette, um abandono silencioso e que por vezes mina as relações, aquele abandono em que as pessoas ficam por comodismo quando, na verdade, já nada as une. “Os casais que nunca gritam, que nunca se zangam, que são indiferentes um ao outro vivem por vezes a maior violência de todas. Em nossa casa não havia loiça partida. Nem janelas fechadas para não incomodar os vizinhos. Só silêncio.” Porque “não se deixa uma mulher que já não se vê, que não faz cenas, que não faz barulho, que não bate com as portas – é demasiado prático para se abandonar.”

 

Uma infância e uma juventude marcadas pela perda e pelo abandono consegue piorar quando Violette perde cedo demais a pessoa que mais amou, a sua filha Leonine.  Leonine, tal como as flores, teve uma vida curta, mas foi, como as flores, muito bem cuidada e estimada durante a sua vida. Sem conseguir ir ao funeral da sua filha, Violette opta por não se despedir e manter viva a sua filha, alimentando-se das memórias doces que esta semeou no seu coração e na sua vida.  “A saudade, a dor, o insuportável, podem fazer viver e sentir coisas que ultrapassam a imaginação. Quando alguém partiu, partiu. Exceto no espírito dos que ficam. E o espírito de um homem é certamente maior do que o Universo!” É também curiosa a forma como Violette descreve como as outras pessoas a encaram apos a morte da filha. “As pessoas são estranhas. Não conseguem olhar nos olhos de uma mãe que perdeu o filho, mas espantam-se ainda mais se a virem reerguer-se, arranjar-se, mimar-se.”

 

Os detalhes nesta história são fabulosos, e até a profissão de Violette assume um significado muito especial, quem imaginaria ver beleza na profissão de guarda de cemitério?

 

Violette conseguiu o inimaginável e encarou a sua profissão com uma dedicação e cuidado que diríamos impossível naquele contexto, cuidando dos mortos, mudando a água das flores das suas campas para que aquelas não murchassem, e dos vivos que os visitavam com os mais diferentes rituais e a quem dava espaço para viverem o luto à sua maneira e estas não eram as suas obrigações… permitindo que estes a visitassem e desabafassem com ela. Violette sabia que se nos limitarmos a fazer as nossas obrigações a vida é triste e que todas as pessoas com quem nos cruzamos na vida, têm um propósito.

“- Não sabia que isso fazia parte das suas obrigações.

– Não faz. Mas se fôssemos fazer só o que faz parte das nossas obrigações, a vida seria triste.”

 

Desenganem-se se pensam que vamos encontrar uma personagem sisuda e compenetrada na missão de ser feliz, apesar de tudo o que lhe aconteceu. Violette é uma pessoa divertida que encara tudo na vida com um sentido de humor, até mesmo a morte … “Adoro rir-me da morte, gozar com ela. É o meu modo de a esmagar. Assim, arma-se menos em importante. Ao troçar dela, deixo a vida ocupar a posição cimeira, tomar o poder (…) tenho a certeza de que acabamos por nos rir de tudo. Sorrir, pelo menos. Acabamos por sorrir de tudo.”

 

A riqueza da personagem está, não só nesta capacidade e força interior para lidar com as dificuldades da sua vida, como também na escolha do seu nome Violette – nome de uma flor – Toussaint – que em francês significa Todos os Santos, uma ironia e referencia à sua profissão de guarda de cemitério. Mas a autora revela o seu lado feminino pela importância que o guarda roupa tem nesta história. Violette veste-se de inverno por fora, com cores escuras que escondem a roupa alegre que usa debaixo do casaco, veste-se de primavera e usa cores coloridas, revelando assim a sua vontade de viver de forma alegre, divertida e com a esperança que a primavera representa.

 

Mas não é apenas em Violette que a descrição do vestuário é significativa, também em Irène (a paixão proibida de Gabriel) a referência à roupa bege e sem cor que usa quando está na sua loja de flores e junto do seu marido e filho – o bege é uma metáfora para a ausência de cor e de alegria – contrastam com a roupa colorida e bonita que Gabriel lhe oferece quando estão juntos, a roupa transporta a promessa da cor que o amor traz à nossa vida: “- Amor. Gostaria de lhe tirar o bege e fazê-la ver de todas as cores, Irène Fayolle.”

 

Os jogos de cor são uma constante neste livro que apela ao nosso lado mais sensorial e utiliza as cores como símbolos da mensagem que quer passar. “É preciso que o negro se acentue para que a primeira estrela apareça”.

 

Falando ainda sobre a importância do amor neste livro, depois de o amor a ter desiludido tanto, Violette opta por não se fechar e dar-lhe uma nova oportunidade, acreditando no amor quando conhece Julien que a trata com o cuidado e dedicação que só o amor verdadeiro conhecem e respeita os seus silêncios e necessidade de espaço. “O amor é quando se encontra alguém que nos dá novidades acerca de nós.”

 

Este é também um livro sobre amizades, daquelas amizades inesperadas que nos dão colo e nos ajudam a apanhar os nossos pedaços e colá-los para nos reconstruirmos.

 

A amizade com Sasha é uma amizade de duas pessoas com quem, por motivos distintos, a vida não foi simpática, e que se unem nas duas dores e fragilidades, apoiando-se e cuidando-se mutuamente e ajudando o outro a reconstruir-se. Nesta amizade representa um papel muito especial a ligação à terra, às flores, aos legumes, ao chá e a tantos pormenores simples que revelam um cuidado tão puro e desinteressado.

 

Também a amizade com Célia, surge de forma inesperada e torna-se duradoura. É também uma amizade que cuida e que ajuda a superar os momentos difíceis revelando a força que a amizade entre duas mulheres pode ter.

 

As pequenas coisas, o amor que encontra em Julien e estas duas amizades dão a Violette a força para continuar a viver…. “- Porque a minha vida nunca se refaz. Pegue numa folha de papel e rasgue-a: bem pode colar todos os pedacinhos, que haverá sempre falhas nos sítios rasgados, sobreposições e fita-cola.”

 

Por último, porque este livro tem uma linda mensagem de esperança deixo-vos com o apelo que Violette nos deixa. “Tenho vontade de abrir as janelas e gritar a quem passa: “Reconciliem-se! Pelam desculpa! Façam as pazes com aqueles que amam! Antes que seja demasiado tarde!”

 

Tenho a certeza que este livro vos vai encantar tanto como a mim.

 

Vemo-nos nas próximas páginas!

 

 

* Escreve, quinzenalmente, a crónica literária “A páginas tantas”

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