Chefe

Deu a volta ao mundo com a guitarra às costas e voltou chefe da sua própria música

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Depois de se ter apresentado ao mundo com “A Agulha e o Palheiro”, a 21 de março de 2019, o cantautor aveirense Chefe Silva regressou este ano com novo disco e novos temas, em “Os girassóis também têm torcicolos”. Produzido por Joaquim Teles (Quiné) e masterizado por João Veludo, o lançamento deste segundo trabalho coincidiu novamente com o equinócio de primavera.

 

O nome parece perentório, no entanto, desengane-se quem pensar que Chefe Silva vem para dar ordens, exigir compromissos ou emitir comandos. “Não sou chefe de ninguém!”, assegura Pedro Silva, o músico por detrás do dote. “Ao apresentar-me, pela primeira vez, a solo, quis um nome que me recordasse que, desta feita, eu era ‘o chefe de mim mesmo’, que a responsabilidade era minha, que era eu quem tomava as rédeas do meu próprio percurso”. “Este é um projeto meu, que existirá enquanto e onde eu quiser, que tomará a direção que eu desejar e que pode ser interrompido amanhã mesmo se, para mim, isso fizer sentido”, explicava Pedro Silva, ainda com 38 anos – o aveirense conversou com a Aveiro Mag na véspera de comemorar o seu 39.º aniversário.

 

Pedro Silva cresceu em Telhadela, concelho de Albergaria-a-Velha, “uma aldeia pequenina, mas com muita vida”, onde ocupava o tempo a fazer “as poucas coisas que havia para fazer na aldeia”: “Além da escola e das deslocações – quando vives numa aldeia isolada, tens de contar que duas horas do teu dia são só para ir e vir da escola –, ocupávamos o nosso tempo livre com aulas de karaté, futsal, música… tudo promovido pelo Grupo Cultural e Recreativo de Telhadela”, lembra o músico que, em pequeno, chegou também a experimentar as aulas de teatro e a participar nas marchas populares dinamizadas pelo grupo.

 

Terá sido no seio desta coletividade que Pedro Silva teve o primeiro contacto com a música ainda que, no início, não tivesse especial interesse pela matéria. “Ainda corri uns quantos instrumentos, mas acabava sempre por desistir. Quando, aos 13 ou 14 anos comecei a interessar-me pela guitarra, já tinha passado pela flauta, pelo clarinete, pelo piano, etc. Os meus pais já não tinham muita esperança, mas lá me compraram a guitarra mais barata que havia no Feira Nova [atual Pingo Doce]”, à época, o grande hipermercado da região, que motivava excursões mensais das famílias das periferias.

 

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Mas, afinal, o que é que a guitarra tem de tão diferente para ter conseguido cativar o adolescente que, até àquele momento, usava as aulas de música como “uma desculpa para estar com o pessoal e ir jogar umas partidas de matraquilhos”? “O que fez toda a diferença foi descobrir utilidade no instrumento”, entende Pedro. “Com a guitarra, além de começar a animar os cânticos na missa, com os meus amigos, passei a poder acompanhar o meu avô paterno – António Vicente –, que cantava ao desafio”, esclarece. “Ele era o verdadeiro rockstar! Eu limitava-me a estar ali com ele, a tocar repetidamente os mesmos dois acordes, mas as lições de música ganhavam finalmente um propósito, um fim, um desígnio!”, relata, rematando: “E ainda se ganhava uns trocos com as cantigas de improviso…”.

 

Dezoito anos celebrados, maioridade conquistada e Pedro desce da aldeia para estudar na universidade de Aveiro. “O meu primeiro objetivo era sair de casa. Não tinha bem a certeza do que queria [estudar], por isso, acabei por optar por uma área algo genérica – a engenharia de materiais –, que dá para tudo! Vim ver se me safava…”, admite. A música, essa, nunca foi hipótese. Aliás, só muito recentemente é que Pedro Silva começou a ver a música como possível fonte de rendimentos, a esforçar-se por conhecer e interpretar a indústria e a procurar as melhores formas de posicionar o seu produto no mercado. Até então, havia preferido “uma visão muito romântica sobre a música” e o papel que esta desempenhava no seu quotidiano.

 

Se a memória não lhe falha, foi no segundo ano de universidade que, depois de se arrepiar num concerto da Cartola’s Band – a versão “banda” da Magna Tuna Cartola – que Pedro decidiu juntar-se à tuna aveirense. “Durante um período, a engenharia passou para plano secundário. Eu vivia a tuna intensamente. A malta gostava muito de música, de copos e de festa. Uma coisa muito intensa. Chegámos a gravar um álbum e fomos tocar a salas de espetáculos brutais – Coliseu dos Recreios, Coliseu do Porto, Theatro Circo, sítios com os quais, agora, enquanto artista individual, nem me atrevo a sonhar. Mas, realmente, foram os primeiros palcos que eu pisei”.

 

E foi, precisamente, com alguns colegas da Magna Tuna Cartola que, alguns anos depois, Pedro fundou a sua primeira banda, os Smokin’ Bears & Lego Friends, cujo percurso foi tão efémero quanto caótico. “Foi tudo ao contrário”, atira Pedro, com um sorriso de nostalgia a abrir-lhe o rosto. “Tudo partiu do Camilo, um amigo nosso açoriano, que estava a estudar em Aveiro e que nos desafiou a formarmos uma banda para participar nas Festas da Praia da Vitória, nos Açores. Ou seja, nós já tínhamos um concerto marcado antes sequer de a banda existir. Em dois ou três dias, tive de escrever umas sete ou oito canções e, já em território açoriano, estreámo-nos logo num estádio! Imagine-se uma banda formada dois dias antes, que nunca tinha tocado em lado nenhum, tocar logo num estádio. Foi incrível! É claro que não tocámos nada de jeito, mas deu para ir aos Açores. Depois ainda tocámos mais algumas vezes cá por Aveiro, mas o projeto acabou por não ter pernas para andar. Nunca chegámos a gravar nada, mas dávamos um concerto de uma hora só com originais”, conclui, sem esconder uma certa dose de orgulho e saudosismo.

 

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Foi durante uns meses de intercâmbio académico que passou no Brasil que Pedro compôs “Cão”, “Elefante” ou “Rapaz”, temas que viriam a integrar o alinhamento o primeiro disco dos “Quarteto de Bolso”, grupo do qual fizeram parte Mário Figueiredo, Pedro “Cornetas” Costa e Hélder “Dezassete” Cabrita e à qual muitos aveirenses (e não só) ainda associam o nome e a imagem de Pedro Silva.

 

Quanto ao primeiro concerto da banda aveirense, este teria lugar nas ruas de Madrid, numa visita da banda à capital espanhola que Pedro, logo após a gravação do disco, adotara como sua casa, ao mudar-se da indústria cerâmica, em Oiã, para um novo cargo no ramo da aeronáutica. “Quando eles [restantes elementos dos Quarteto de Bolso] voltam para Portugal, tudo o que eu queria era voltar com eles. E tinha de vir, tinha de perseguir o meu sonho. Despedi-me e voltei para Portugal”. “Estávamos cheios de energia, ganhámos uma série de concursos, conseguimos fazer muitos concertos, mas não tínhamos bem noção do que estávamos a fazer. Estávamos à deriva, desorganizados e sem saber se queríamos dirigir-nos à indústria ou se andávamos a fazer aquilo só para passar o tempo. Queríamos vingar de alguma maneira, mas não sabíamos como”. “Gravámos quatro ‘bolsos’ (que é como quem diz, quatro discos), mas o cansaço haveria de ditar o fim da banda. “Foi uma exaustão brutal, nós queríamos que a nossa música vingasse, mas não chegámos a conseguir que ela encontrasse mercado”, lamenta Pedro Silva. Quando o Quarto Bolso é lançado, em 2016, já Pedro tinha abraçado um novo desafio profissional nos arredores de Bruxelas, na Bélgica, onde haveria de permanecer, longe das guitarras que deixara em Portugal, por um período de dois anos.

 

Bem vistas as coisas, este afastamento da guitarra, apesar de abrupto e categórico, nem sequer resultou de uma decisão consciente. Foi consequência da exaustão e, em certa medida, da desilusão. “Quando, de forma ingénua, mas autêntica, te dedicas a um projeto e, mesmo assim, não consegues que ele funcione, ficam marcas difíceis de cicatrizar. Eu estava envolvido naquilo até ao tutano. Era a cara e a voz daquele projeto. Não é fácil admitir o desastre, não é fácil reconhecer que tens de endireitar a tua vida”, releva Pedro Silva.

 

A música, contudo, haveria de levar a melhor. “Chegou um momento em que abri novamente o coração à música e voltei a encontrar na guitarra alguma companhia e inspiração para a vida”. Tanto que, no ano seguinte, quando Pedro se torna embaixador da Volvo Ocean Race, a mais antiga e reconhecida regata do mundo, e abraça o desafio de acompanhar os veleiros em competição naquilo que viria a ser uma autêntica volta ao mundo, já não quis partir sem garantir lugar na bagagem para a sua Baby Taylor (uma guitarra de pequenas dimensões, ideal para levar em viagem). E em boa hora o fez. Afinal, é nesta volta ao mundo que nasce o Chefe Silva.

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