Do treino à Maratona. Os “impossíveis” de Nuno Tróia

 

 

 

 

A entrevista foi feita em passo de corrida. Como não podia deixar de ser, quando se fala em Nuno Tróia. Entre vinte minutos sentado, mas sempre irrequieto, como na alma e no espírito, e o início de três treinos individuais, todos por motivos distintos e com pessoas de idades díspares, a conversa com este aveirense foi-se alongando, em sprints curtos e respostas de maior distância.

 

Sem querer alongar muito no passado de Nuno Tróia, o importante nesta conversa era perceber qual o caminho que se faz para, por exemplo, do nada, se conseguir fazer uma maratona. Ou duas. Ou, pasme-se, fazer as seis que compõe as míticas “majors”: Nova York, Berlim; Chicago; Londres; Tóquio e Boston.

 

O desafio que mudou tudo

 

“Nunca tinha feito uma maratona até 2013. Nem me passava pela cabeça. Na altura era o responsável pela secção de Triatlo do Clube dos Galitos, modalidade que praticava. E era só nisso que pensava. Mas, um dia, a Maria José Rodrigues desafiou-me a treiná-la para correr uma maratona. E a minha pergunta foi: ‘costumas correr cinco, dez quilómetros?’. E a resposta dela foi ainda mais surpreendente: ‘Não. Nunca corri mais de quatro’. O desafio foi naturalmente aceite, o objetivo delineado, Barcelona daí a 15 meses, e tudo mudou”.

 

A noção do treino existia, principalmente porque, como assume, já o fazia a “pensar nos triatlos longos”. A chave para se conseguir alcançar um objetivo tão ambicioso é simples, pelo menos na teoria: “O segredo é tu estares focado na tarefa, há muitas contrariedades, lesões, cansaço, de tanto treino, até porque isto é apenas um passatempo. Tens de dedicar pelo menos oito horas por semana, ainda que nos últimos momentos antes da competição, os volumes de treino são mais altos e tens de ter mais disponibilidade para isso”, explica.

 

Muito físico, tudo mental

 

Entre um exercício e outro, vou olhando à volta. Numa sala bem equipada, ali mesmo no Pavilhão do Galitos, Nuno Tróia vai dando atenção a com quem ele treina. Nas paredes três frases motivacionais estão em destaque: “90% do sucesso baseia-se simplesmente em não desistir”; “Quanto mais duro trabalhar, mais sorte terá”; e a mais conhecida de todas, dura e crua: ““Aguenta e não chora”.

 

A pergunta surge então: “Este aguenta e não chora… é mesmo assim?”. A resposta é evidente, eu sei, mas tem de ter mais do que senso comum: “Todos conseguem, está acessível a qualquer pessoa. Basta ter foco e perceber qual o caminho. Mas nada se faz sem compromisso. Estou sempre a massacrar a cabeça à malta. Quem está comigo, é no limite. Se se atrasa, telefona. E temos de encontrar solução para repor o treino. É imperioso fazer com quem as pessoas cumpram, que têm um compromisso e que têm de o cumprir. Custa muitas vezes, nem sempre apetece, mas quando se começa, tem de ser até ao fim. E sofre-se, sim, mas quando se corta a meta, tudo vale a pena”.

 

Não basta só correr, é preciso muito mais

 

De um grupo de dez pessoas com quem habitualmente treina, Nuno Tróia garante que até então, nenhum deles era atleta. E todos já fizeram maratonas e alguns, tal como ele, fazem parte do grupo restrito de atletas portugueses, que não chega à meia centena, que já concluíram as míticas “majors” com direito a medalha especial e tudo.

 

 

 

 

À Aveiro Mag, Tróia assume que o sentimento de o fazer é incrível: “O sentimento de terminar é incrível. Sentes-te primeiro como o super-homem, naquele momento és o maior e atingiste o plateau. E pensa-se: qual vai ser a próxima? O objetivo de fazer as tais seis maratonas começou logo após a primeira e por ser um objetivo meu, da Maria, do Artur e do Adriano, numa altura em que apenas vinte e poucos portugueses o tinham feito. Demorou quase dez anos a cumprir esse objetivo, mas agora está feito”.

 

No entanto, Nuno Tróia não deixa nada nas mãos do acaso. Nem diz que este é um caminho sem espinhos. Perseverança e compromisso têm de estar presentes. Mas não só: “Não foi fácil, é certo, porque não é só correr. É preciso muito reforço muscular, flexibilidade e mobilidade. Estes três pontos são fundamentais na base da pirâmide. Porque correr, calçar as sapatilhas e ir lá para fora qualquer um faz. E depois precisas de correr com as pessoas certas. Em Nova York, por exemplo, um de nós teria desistido aos 20 quilómetros se estivesse sozinho. Porque nessas alturas é, sem dúvida, o mais fácil. A cabeça vai dizer que não, e tens de contrariar. Por último, e muito importante, na maratona é fundamental não falhar os abastecimentos, seja de água, bolachas, frutos secos, barras, géis ou isotónicos. Muito importante manter a energia. Caso contrário já foste. E até para isso, tens de ter cabeça”.

 

Então, e agora?

 

Agora é descanso. Se considerarmos descanso “pequenas corridas de cinco e dez quilómetros”, diz, sem problemas em assumir que “o corpo também precisa de pausas”. “As maratonas, no meu caso, ficam em suspenso. Outras corridas certamente surgirão, mas nesta altura, o importante é continuar, também, a pugnar pela minha cidade. Comecei com os Aveiro Night Runners a contribuir para uma vida mais saudável dos aveirenses, agora com a São Silvestre, numa dimensão diferente. Mas não esqueço que durante muitos anos, esta minha ideia da prova foi recusada, não arranjei quem a patrocinasse e podia tê-la abandonado. Mas tal como nas maratonas, na vida os mais resilientes e focados estão mais perto de conseguir alcançar o que desejam. É esse o meu objetivo futuro, criar condições e ajudar os aveirenses a fazer desporto. Mas esta é uma meta que deve de ser de todos, sem exceção”.

 

 

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