“A Páginas Tantas”: Viagens, de Olga Tokarczuk

A páginas tantas

 

 

 

Filipa Matias Magalhães*

 

 

Esta semana, gostaria de vos falar sobre um livro que tem muito de Verão e de tudo aquilo que esta altura do ano, normalmente, nos proporciona… as viagens, a agitação constante, o conhecer pessoas e culturas novas, experiências e a oportunidade que isso nos dá de nos conhecermos melhor, pondo algumas certezas em perspetiva e mudarmos para melhor. Este tema da mudança, não só física e espacial mas sobretudo interior, é um tema que nunca se esgota mas nesta altura do ano, talvez faça mais sentido do que noutras, por estarmos mais predispostos à novidade e à mudança. “Debruçada no topo do dique, fitando a corrente, dei-me conta de que, apesar de todos os perigos, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está em repouso, que a mudança é mais nobre do que a estabilidade, que tudo o que estagna acabará por sofrer de composição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente”.

 

“Viagens” não se enquadra em nenhum género literário muito específico, tendo a originalidade de nos surpreender com uma tela muito interessante de vários géneros e estilos literários. Não é só um livro sobre viagens, locais, e mapas e sítios a visitar, embora o elemento espaço e local estejam presentes no livro, nem é uma biografia ou romance, mas sim um bocadinho de todos estes géneros e assuntos.

 

Numa escrita verdadeiramente disruptiva e nada convencional, Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura em 2018, conta-nos neste livro um bocadinho de si, desde a infância à vida universitária, mas também sobre outras personagens que aqui são “lançadas” dando a ideia de que nada as une: a irmã de Chopin que traz secretamente o seu coração de volta para Varsóvia para que este repouse apos a sua morte; uma mulher que regressa à Polónia para envenenar o seu primeiro amor, um moribundo numa cama, ex-amante de um monarca que tenta desesperadamente recuperar o cadáver do pai, e um homem começa a enlouquecer quando a mulher e o filho desaparecem misteriosamente.

 

A autora empresta-nos estas pequenas histórias de vida para que possamos, através delas, questionar alguns dados que dados como adquiridos: o nosso lar, a importância de Deus na nossa vida, o papel e a força da mulher na história, a importância dos outros na nossa vida, a nossa alma e corpo, a importância do meio ambiente e da sua preservação, entre outros. Sem a menor preocupação de nos poupar a descrições menos bonitas, a autora descreve de forma muito realista tudo o que vê, o belo e o macabro, o bom e o mau, para nos permitir refletir sobre os aspetos mais diversos da nossa vida, como a morte, a crueldade, o sexo, ética, a evolução da ciência e a importância de Deus.

 

De comum a todas estas pequenas e tão originais historias, está o facto de as referências aos locais onde se desenrolam – e à forma como os locais nos definem e nos moldam – está também o facto de todas estas personagens terem um passado do qual se querem distanciar, e é este caminho de mudança – mudança de tempo e espaço – que Olga Tokarczuk nos conta de forma tão original e intimista, que nos faz colocar a nós próprios as perguntas para as quais as personagens buscam respostas. Este é um livro de passados e de uma mudança para o futuro… o movimento que está sempre presente no livro… no espaço e no tempo.

 

Cada personagem tem, tal como nós, uma história de vida única e singular e essa é a riqueza da Humanidade, riqueza com a qual devemos aprender, ao invés de tentarmos igualar, “o facto de cada um de nós possuir a sua história, uma historia única e irrepetível, e de se movimentar no tempo, deixando vestígios”.

 

A forma como a autora se serve destas várias pequenas histórias e personagens para nos colocar a fazer esta viagem interior e entrar na nossa essência, é um dos traços essenciais deste livro em que a autora polaca, formada em Psicologia, utiliza os seus conhecimentos sobre o desenvolvimento pessoal para nos falar sobre a grande viagem que é a vida de cada um de nós individualmente e como Humanidade. Para mim, este livro fez muito sentido, pois sinto que nunca regresso de nenhuma viagem – por mais pequena que seja – igual, porque ter a oportunidade de conhecer outros espaços, outras culturas e outra forma de viver a vida, tem necessariamente este efeito transformador e de crescimento pessoal.

 

E se, a esta altura, estão a pensar que este é um livro de autoajuda, desenganem-se!! Este é um livro que foge dos preconceitos e estereótipos e um apelo à viagem individual e única de cada um de nós. Aqui não há dicotomias de bom e mau, certo e errado, cada um tem a sua história e deve seguir o caminho que lhe faz mais sentido. “Aquela vida não era para mim. Pelos vistos, não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes quando permanecem muito tempo no mesmo lugar. Já tentei várias vezes, mas as minhas raízes são sempre superficiais e qualquer brisa é capaz de me arrancar à terra.”

 

É este processo que a sociedade opera em nós, que nos formata e cria espartilhos para nos sentirmos pertença de um determinado grupo ou local, que nos impede de sermos autênticos e este é o grande desafio que o livro nos coloca: libertar-nos do espartilho dos papéis sociais, das convenções, esmagados pela prensa da tradição e submetido às exigências. “Precisamos tão-só de esquecer aquela vontade primitiva de julgar as coisas em termos de boas ou más, da mesma maneira que um homem civilizado tem de se esquecer dos seus instintos primitivos – sede de vingança, ganância, desejo de posse.”

 

A par deste universo individual, que é brilhantemente explorado através das várias pequenas e tão diferentes histórias que nos são contadas por esta psicóloga – que sabe melhor do que ninguém como explorar o desenvolvimento pessoal -, a autora conta-nos também a forma como o coletivo e o espaço em que vivemos nos moldam e são responsáveis por tantos traços da nossa personalidade. “Está mais habituado ao modo de convívio dos países do norte, onde a convivência entre os homens é mais reservada. Mas, no sul, onde o sol e o vinho soltam os corpos mais depressa e mais descaradamente, esta dança torna-se uma coisa real”. E se os locais nos definem enquanto pessoas, também nos marcam, pelos acontecimentos a que dão palco, “tudo aquilo que me magoa apago dos meus mapas mentais. Os lugares onde tropecei e caí, onde me bateram e feriram, onde algo me fez mal, deixaram de existir.”

 

Perceber a diferença, a diferença que nos distingue, mas que também nos une enquanto partes de um coletivo que é tanto mais rico quanto recetivo à diferença que une e faz crescer, foi uma das ideias que mais gostei de ler neste livro. “Será que essas leis foram inventadas e criadas somente para pessoas iguais? Como? Se o mundo é feito de diversidade. A muitas milhas daqui, no Sul, vivem pessoas diferentes daquelas que habitam o Norte. E também a Oriente vivem pessoas diferentes daquelas que vivem no Ocidente. Que sentido terá uma lei que estabelece regras apenas para algumas pessoas?”

 

A autora não deixa escapar a oportunidade de fazer uma critica a alguns aspetos da sociedade em que vivemos, como a importância que a internet assume e o impacto que ela tem na forma como nos vemos e como vemos os outros. “A internet é uma impostora – promete muito, executa a tarefa solicitada, encontrar aquilo que procuramos; tarefa, cumprimento, premio. Mas, no fundo, essa promessa é um engodo porque, logo a seguir, entramos em transe e caímos em hipnose.”

 

Como repto final, a autora apela à nossa viagem, no tempo e no espaço, porque essa viagem será, necessariamente, transformadora. “Por isso, mexe-te, balança, agita-te, anda, corre, foge, porque, se te esqueceres disto e parares, as suas mãos gigantescas agarram-te e transformam-te num boneco e o seu hálito malcheiroso envolver-te-á, fedendo a fumo e a gases de tubos de escape às grandes lixeiras da cidade.”

 

Desejo-vos uma boa viagem e boas leituras, porque as ferias são sempre uma boa altura para nos deixarmos embalar nas páginas de um bom livro!

 

Vemo-nos nas próximas páginas.

 

 

* Escreve, quinzenalmente, a crónica literária “A Páginas Tantas”

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