Em Sarrazola, na freguesia de Cacia, em Aveiro, há um velho celeiro transformado em museu que guarda três séculos de histórias, memórias e evoluções técnicas dos telefones – dos dispositivos de manivela à era móvel. Serão, de acordo com as contas de Agostinho Pinto – colecionador, conservador, guia e guardião do Museu dos Telefones –, mais de 250 aparelhos, um acervo que começou a reunir em 1971.
O Museu dos Telefones abriu ao público a 11 de novembro de 2006 e, desde o início, o propósito de Agostinho Pinto é claro: ensinar. “O primeiro e principal objetivo do Museu dos Telefones é dar a conhecer às crianças e jovens o mundo fascinante da história das telecomunicações em Portugal”, explica, em entrevista à Aveiro Mag. O espaço foi concebido como um lugar pedagógico onde os mais novos, habituados a aparelhos leves e ecrãs táteis, sentem o peso dos velhos auscultadores, aprendem a marcar um número no disco, ouvem o estalo das campainhas mecânicas e percebem o salto tecnológico que abriu caminho até aos smartphones.
Um percurso ligado às comunicações
A intimidade de Agostinho Pinto com os aparelhos começa cedo. Numa visita oficial à Escola Industrial de Estarreja integrada nos cursos da Mocidade Portuguesa, o então ministro Veiga Simão apercebeu-se da inclinação do jovem para a área e sugeriu-lhe uma carreira ligada à rádio ou às telecomunicações – uma indicação que acabaria por marcar o resto da sua vida.
Em 1971, ingressa no curso eletrotécnico do então Centro de Formação dos CTT, na Calçada da Boa-Hora, em Lisboa, e nesse mesmo ano compra, por 150 escudos, o primeiro casal de telefones que considera peça inaugural da coleção: um “E” AC 650 de manivela. A carreira nas telecomunicações evoluiu, e a coleção cresceu com ela.
Entre os objetos mais emblemáticos contam-se um telefone de mesa Ericsson AG 110 (1892), um Siemens tipo coluna – ligado à primeira chamada internacional feita a partir de Portugal, em 1928, pelo Presidente Óscar Carmona para o rei de Espanha –, comutadores ATEA (década de 1950) e Ericsson DBH (1955), e um ATM 332, de 1961.
Hoje, a apresentação do museu é deliberadamente viva: “Tudo o que aqui tem suporte para funcionar, funciona”, afirma. Para isso, criou soluções e montagens próprias que permitem às crianças interagir com os aparelhos. Há demonstrações práticas que explicam processos hoje arcaicos, simulações de conversas de época e réplicas que ajudam os mais novos a perceber como se marcava um número, como soavam as campainhas antigas ou como operavam os primeiros telexes e faxes – tecnologias obsoletas que revelam profissões e rotinas de um passado não tão distante quanto possa parecer.
Ao longo dos anos, a visibilidade do museu cresceu graças a iniciativas como os TechDays – onde, em 2017, Agostinho Pinto conheceu Martin Cooper, considerado o “pai do telemóvel”. As reportagens e visitas de órgãos de comunicação ajudaram a trazer público, histórias e reconhecimento. Essas interações alimentam a convicção do colecionador: um museu, mesmo pequeno, só existe se houver quem o visite.
Ao longo dos anos, o Museu dos Telefones já recebeu “várias centenas” de visitantes – escolas, jardins de infância, grupos de seniores, emigrantes, turistas e até peregrinos. A 27 de junho de 2023, o museu acolheu cerca de duas centenas de participantes da Jornada Mundial da Juventude, sobretudo cubanos e italianos. A logística desse dia ilustra tanto a popularidade do espaço como as suas limitações físicas. Ainda assim, são as visitas escolares que mais orgulham Agostinho Pinto: são as crianças a primeira razão de ser do museu; é a elas que mais gosta de transmitir o ruído do marcador, o gesto de girar um disco e a sensação de uma chamada que, há um século, era tecnologia de ponta.