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Os jovens e a política: o que os une e o que os separa

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Parte I

 

 

“O homem é um animal político”. Quando se fala de política, são raras as ocasiões em que a frase de Aristóteles não surge como epígrafe a exaltações mais ou menos condescendentes sobre a importância da participação e do envolvimento na vida pública. Para o filósofo, fomos feitos para existir em comunidade, foi a natureza que nos concebeu desta forma e, por sermos incapazes de nos bastarmos a nós próprios em situações de isolamento, temos na política um desígnio natural e irrefutável. No entanto, apesar das convicções do antigo pensador, a verdade é que, atualmente, boa parte da sociedade despreza a política, duvida dos políticos e acredita que o tema só é do interesse de quem está no exercício do poder. Mais: a perceção geral é que, nesta corrente de desdém e afastamento da política, são os mais jovens a assumir a dianteira. Será assim?

 

 

Um estudo recente sobre “A participação política da juventude em Portugal”, promovido pelo Fórum Futuro da Fundação Calouste Gulbenkian em parceria com o CESOP – Centro de Estudos e Sondagens de Opinião – da Universidade Católica Portuguesa e em colaboração com as universidades de Aveiro, Porto, Minho e Lisboa, veio demonstrar que a ideia de que há um declínio generalizado da participação política da juventude em Portugal “não é apoiada pelos dados disponíveis”. No que concerne às “formas de participação mais convencionais”, orientadas para o sistema partidário (a participação em comícios ou outras atividades partidárias e, principalmente, o voto), o estudo confirma que os jovens participam sistematicamente menos que os mais velhos. Por outro lado, constata-se que as novas gerações têm adotado formas emergentes de participação política (movimentos cívicos pela proteção do ambiente e o combate às alterações climáticas, pelo acolhimento de refugiados, pela igualdade de género ou pelos direitos LGBTQ+ ou ações individuais como a participação online, o boicote de produtos ou a assinatura de petições). Por comparação à atividade partidária, os jovens veem a participação cívica e associativa como uma forma mais direta e imediata de obter resultados, de fazerem ouvir a sua voz, de garantirem maior proximidade social e territorial e de evitarem burocracias.

 

 

A questão do voto

 

Debrucemo-nos, antes de mais, sobre a questão do voto. Se é verdade que o estudo da Gulbenkian atesta que o “os rumores sobre a morte da política entre os jovens têm sido francamente exagerados”, há que salvaguardar uma exceção “preocupante”: “Há de facto uma importante forma de participação política de que os mais jovens (18 – 34 anos) se encontram comparativamente alheados, seja em comparação com os seus concidadãos mais velhos, seja na comparação internacional: o voto”.

 

No século XVIII, Jean-Jacques Rousseau defendia que, “por menor influência que a minha voz possa ter nos assuntos públicos, o direito que tenho de votar basta para me impor o dever de me instruir a seu respeito”, mas os novos tempos trouxeram perspetivas e noções bem diferentes. Para muitos, o voto deixou de ser “uma experiência participativa marcante e desafiadora”. Não deixando a categoria de direito, tem vindo a perder o estatuto de dever; mantendo-se como “baluarte de preservação da democracia”, vem sendo cada vez mais encarado como um ato por demais “institucionalizado”, inconsequente e inútil.

 

Na opinião de Patrícia Silva, coautora da investigação promovida pela Fundação Gulbenkian, “é, precisamente, por esta nota do voto que se mantém o estereótipo de que os jovens não se interessam por política”. Patrícia é professora auxiliar no departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro e membro da unidade de investigação GOVCOPP – Governação, Competitividade e Políticas Públicas. “Já há algum tempo que me preocupava com a participação política dos jovens, principalmente, desde que tive a oportunidade de começar a dar aulas na universidade”, afirma a docente.

 

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Patrícia Silva, docente da universidade de Aveiro, é uma das investigadoras por trás do estudo “A Participação Política da Juventude em Portugal”

 

 

Na academia aveirense, Patrícia lida com os estudantes da licenciatura em Administração Pública que escolhem o menor em Ciência Política e com os do mestrado em Ciência Política, cursos que, dada a sua natureza, “acabam por atrair indivíduos que já são mais atentos, interessados e politicamente envolvidos”, ressalva. “Por vezes, os jovens com que me cruzo na licenciatura e no mestrado já têm ligações partidárias e a maioria assume-o. Quanto aos restantes, têm a ideia de que ‘eles [os partidos e os políticos] são todos iguais’”, baseando a sua não-participação em sentimentos de descrédito e desconfiança. “Para que é que vou participar se, individualmente, não consigo fazer a diferença?” ou “De que é que serve o meu voto se, no dia seguinte, está tudo na mesma”, são algumas das interrogações (ou frustrações ou desabafos) que os estudantes mais levantam, inquietações que preocupam Carla, Diana, Gonçalo, Joana, Marco, Simão e Tomás, os jovens aveirenses com militância partidária que partilharam as suas visões, experiências e preocupações com a Aveiro Mag.

 

Quando Tomás Pereira, 19 anos, começou a interessar-se por política ainda faltavam vários anos para poder exercer o direito de voto. “A minha visita de estudo favorita foi no 4.º ano quando visitámos a Assembleia da República. Vi-me, pela primeira vez, no local onde sempre quis trabalhar. Foi espetacular! Encantava-me aquela dinâmica de apresentar propostas, discuti-las, votá-las”, recorda. Uma paixão que ganha novo alento quando, já na adolescência, surge o partido Iniciativa Liberal. “Um colega alertou-me para um novo partido que defendia o que eu defendia – menos impostos, menor intervenção do Estado, mais liberdade –, enviou-me o link e comecei a seguir o partido”, conta o jovem liberal.

 

Gonçalo Dias, 22 anos, é natural da ilha de Porto Santo, mas cedo atravessou o Atlântico para se estabelecer em Aveiro. Ao longo do seu percurso escolar, ainda haveria de voltar ao arquipélago da Madeira e de passar algum tempo nos distritos de Viseu e Castelo Branco. Ainda assim, Gonçalo considera-se aveirense, encarando a cidade dos canais – onde reside – como a sua casa. No ano passado, a “vontade de ter um papel mais ativo na sociedade” fez com que se juntasse ao partido PAN – Pessoas Animais Natureza.

 

Para Carla Sousa, também de 22 anos, bastou começar a trabalhar para se aperceber que “a política está presente em cada aspeto da nossa vida” e que esse pressuposto reclama um envolvimento sério e atento. “A minha primeira experiência de trabalho foi na restauração, um dos ramos mais precários em Portugal. Comecei logo a sentir as coisas boas e as coisas más”, partilha a jovem da Murtosa. No que respeita à sua atividade partidária, pode dizer-se que é “uma experiência recente”. “Já há algum tempo que ponderava sobre o assunto”, confessa Carla, mas só na sequência dos resultados eleitorais das últimas eleições legislativas, em que o Partido Comunista Português “perdeu muita força”, é que a jovem entendeu ser “a altura certa” para se envolver no partido. “São ideias e lutas nas quais me revejo desde que me lembro, que já tinha como minhas mesmo antes de saber que estavam associadas ao PCP”. Os horários laborais não lhe permitem uma participação tão assídua quanto gostaria, todavia, enquanto militante de base, e gerindo a sua disponibilidade o melhor que pode, Carla tem contribuído para a vida do partido, ajudando a organizar várias iniciativas.

 

Aos 23 anos, Diana Pimenta é a coordenadora distrital de Aveiro da Juventude Chega. Natural de Vagos, a jovem tem trabalhado para a instalação do partido naquele território, tarefa que lhe traz “um entusiasmo especial”. “Tenho fé que o Chega vai crescer cada vez mais e, se já tenho orgulho do legado do partido hoje, terei ainda mais, no futuro, quando olhar para trás e puder dizer que fiz a minha parte”. Para Diana, o afastamento dos jovens da política partidária e, especificamente, do ato de votar tem relação direta com as prestações dos partidos que têm sido Governo desde o 25 de abril. “Passam aos jovens a imagem de uma política viciada e corrupta, um jogo de interesses que só serve alguns”.

 

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Diana Pimenta encontrou no partido Chega um coletivo no qual se revê

 

 

A catadupa de notícias que, há cerca de 10 anos, descreviam um Portugal mergulhado numa crise económico-financeira que prometia moldar o futuro dos mais jovens impressionou de tal forma Marco Carvalho que o então adolescente, identificando-se com os princípios e valores do CDS-PP, decidiu juntar-se à Juventude Popular de Anadia. Uma década depois, aos 25 anos, é presidente da distrital de Aveiro da JP, cargo que ocupa desde 2020.

 

Joana Sá Pereira, 29 anos, é deputada à Assembleia da República integrando o grupo parlamentar do Partido Socialista, é presidente da federação distrital da Juventude Socialista de Aveiro e membro da Assembleia Municipal da Mealhada. Nutre, desde cedo, a preocupação de acompanhar o que se passa à sua volta e com os seus. “A ideia de pertencermos a um coletivo e, desse ponto de vista, caber-nos trabalhar para o bem desse grupo, sempre me cativou”, conta a jovem que, também durante “os anos difíceis da Troika”, terá percebido que “ser mera espectadora, simples ator passivo da construção da comunidade” não lhe era suficiente. Identificou-se com “os valores da esquerda democrática” e, pouco tempo depois de entrar na universidade, juntou-se ao PS. A abstenção dos jovens é um tema que merece a sua “maior preocupação”, tal como acontece com Simão Santana, de 32 anos. Simão entrou para a Juventude Social Democrata aos 19 anos e, desde aí, no seio da estrutura juvenil, já foi vice-presidente da concelhia de Aveiro, entre 2014 e 2018, secretário da mesa do congresso nacional, em 2014 e 2015, e secretário-geral adjunto, de 2018 a 2020. Desde março passado, é presidente da comissão política da secção de Aveiro do Partido Social Democrata. Entende que o partido “está cá para ajudar as pessoas”, mas “não as deve substituir”, dando-lhe, sim, “ferramentas que lhes permitam construir uma vida melhor”. Apesar de ser uma questão que o preocupa, para Simão, a abstenção pode também ser sintoma de um certo “conforto” dos eleitores para com o sistema. “O sistema político está estável. As pessoas não estão tão preocupadas com as eleições porque, no dia seguinte a cada eleição, a vida continua normalmente. No dia em que tivermos um ato eleitoral que possa mesmo mudar a vida dos portugueses, as pessoas acordarão”, acredita o social-democrata.

 

Patrícia Silva não consegue ficar indiferente à “quota de responsabilidade” que, a seu ver, os partidos têm tido na perpetuação deste flagelo. Sempre que o assunto das elevadas taxas de abstenção emerge, por norma, a cada noite eleitoral, “os políticos lamentam, mas rapidamente o discurso desvanece”. “Para os partidos, ter 100 por cento da população a votar ou ter 20 por cento é exatamente a mesma coisa porque a conversão de votos em mandatos vai fazer-se sempre a partir do número de votos depositados”.

 

 

O que os partidos não conseguem oferecer

 

Avaliar a participação política da juventude em Portugal é uma tarefa com um grau de complexidade superior àquele que, por norma, a opinião pública tende a atribuir-lhe. Não se trata só ir ou não às urnas de quatro em quatro anos, muito menos se limita a ter ou não o nome gravado num cartão de militante com as quotas em dia. Há diversas modalidades de participação política com elevado impacto na sociedade e na vida daqueles que as protagonizam, que devem ser tidas em conta para uma avaliação justa e confiável da atividade juvenil.

 

É neste sentido que a recente investigação da Fundação Gulbenkian sugere que os jovens têm demonstrado cada vez menos interesse pelo ato de votar em eleições e, de certa forma, pela atividade partidária no geral, mas que isso não significa que estejam totalmente alheados da política ou que tenham passado a encarar as comunidades a que pertencem com indiferença ou passividade. Apesar de os partidos não estarem a conseguir canalizar as aspirações e objetivos das novas gerações, continuam a existir temas que movem os jovens, causas que os apaixonam e instituições que conseguem motivar o seu envolvimento.

 

Henrique Sousa, Bruno Pereira e Gonçalo Abreu são três jovens aveirenses que optaram por concretizar a sua participação política através do associativismo e da integração em coletivos ativistas.

 

Foi na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, que Henrique Sousa, 19 anos, conheceu a Academia de Política Apartidária, associação dedicada à promoção da literacia política das gerações mais novas. Interessado na vocação educativa e na natureza apartidária da instituição, o jovem de Estarreja fez-se membro há cerca de um ano. Curiosamente, já na altura do secundário, Henrique ajudara a fundar um “clube de debate” na sua escola. “À sexta-feira à tarde, quando já ninguém tinha aulas, ficávamos a discutir a atualidade e os grandes temas. Designávamos uma fação a favor e uma fação contra – independentemente das posições pessoais de cada um – e isso ajudava-nos a desenvolver o espírito crítico, a capacidade argumentativa e a empatia”.

 

 

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A “vocação educativa” da Academia de Política Apartidária foi o que mais cativou Henrique Sousa

 

 

Bruno Pereira, 24 anos, descobriu o interesse pela participação cívica e política no primeiro ano da licenciatura em Biologia na Universidade de Aveiro. “Senti que, além das aulas, precisava de experimentar coisas diferentes. Para a minha geração, ter trabalho não é suficiente, é preciso ser-se mais, fazer-se mais. Por nós e pelos outros”, sente Bruno. Começou por fazer voluntariado num programa apoiado pelo IPDJ – Instituto Português do Desporto e da Juventude -, mais tarde, aproximou-se dos núcleos da associação académica da UA, até que, finalmente, chegou à Agora Aveiro, “uma associação de jovens para jovens”, focada na intervenção urbana, na ação social, na causa ambiental e na promoção da arte e da cultura em território aveirense. A ânsia de participar foi uma certeza desde o início, mas a militância partidária nunca foi hipótese em cima da mesa.

 

 

 

 

Gonçalo Abreu, 26 anos, também é biólogo de formação. Licenciou-se, tal como Bruno, na Universidade de Aveiro, depois de uma infância e adolescência passadas na ilha da Madeira, de onde é natural. Foi na “pérola do Atlântico” que Gonçalo ingressou no Escutismo, o maior movimento de juventude do planeta, e que tem como dois dos seus pilares fundamentais a vida na natureza e o envolvimento em comunidade. De acordo com o jovem, a vivência escutista ajudou-o a descobrir a sua paixão pela educação ambiental e a conservação das espécies, assim como o seu interesse pela intervenção na comunidade.

 

 

 

 

Já em Aveiro, juntou-se à BioLiving, associação ambiental que lhe tem permitido envolver-se numa série de projetos e iniciativas que lhe têm deixado marcas importantes e através dos quais tem conseguido sentir que a sua ação é útil e consequente. Mais recentemente, Gonçalo assumiu a coordenação do Centro de Interpretação da Pateira de Frossos, onde decorreu a conversa com a Aveiro Mag.

 

Por comparação à perceção que têm sobre a militância partidária, os jovens que preferem intervir politicamente integrando uma associação ou movimento, reconhecem na sua opção uma forma “mais direta e imediata de obter resultados”, assim como um garante de “maior proximidade social e territorial”. A este sentimento de urgência e à ânsia de passar das palavras aos atos, os jovens destacam ainda a maior abertura e menor hierarquização que dizem encontrar nestas plataformas de participação.

 

“Pessoalmente, fujo aos partidos pelas experiências de clubismo fanático que presenciei quando era mais novo”, partilha Gonçalo Abreu, reparando noutro aspeto que crê repelir os jovens: “O nível de burocracia associada aos partidos que faz com que se passem eternidades até se chegar a uma decisão que possa ter verdadeiro impacto nas vidas”. “A questão da lentidão também é algo que vem logo à cabeça”, reflete Bruno Pereira, apontando a “guerra de gerações” como outra das características, a seu ver, própria dos partidos políticos e que contribui para que não queira estar envolvido naquelas estruturas. Este excesso de burocracia nos partidos também perturba Henrique Sousa. “Os jovens são o mais terra a terra possível, precisam de formas mais imediatas de obter resultados”, advoga. O membro da Academia de Política Apartidária está convicto: “não estarmos associados a qualquer ideologia e até termos ‘apartidária’ são trunfos”, não só aquando da abordagem aos jovens nas sessões que organizamos, como no recrutamento de novos membros para a associação.

 

Confrontado com os dados que atestam o crescimento da ação política dos jovens fora dos partidos, o social-democrata Simão Santana assume que tal ilação “devia servir de alerta para os partidos”. “Esta perceção cada vez mais generalizada de que as pessoas não querem o que os partidos têm para oferecer é preocupante”, julga o jovem, advertindo: “Os partidos precisam de se abrir à sociedade”. Também Marco Carvalho reconhece que “é preciso que os partidos se tornem mais sexy”. “A figura do político em Portugal é a de um tecnocrata, engravatado e calculista, que tem sempre o voto na mira”, descreve o jovem centrista. “Gostava que a política fosse menos teatral e mais orgânica. Os jovens não se identificam com esse sentimento de superioridade que os políticos transparecem”, confessa. Ainda assim, Marco não deixa de reforçar a ideia de que “os partidos são a base da democracia” e “não podem transformar-se em movimentos de causas isoladas”, alertando para o perigo de “enveredarmos por um caminho perigoso de achar que os partidos já não servem para nada”.

 

 

 

 

Quanto a Tomás Pereira acha “positivo que os jovens façam as suas marchas e defendam as suas causas”. “Mas se esses jovens não votarem, se não transpuserem das suas vontades para alguém que possa representá-los nos centros de decisão, acaba por valer de pouco”, repreende o jovem liberal, sublinhando que “é necessário que se vote! Sem se votar não se vai a lado nenhum, vamos ter as pessoas com as quais não concordamos a decidir por nós”. Carla Sousa, por seu lado, afiança que “o PCP, mais do que estar preocupado com os votos, está preocupado em estar na rua, à porta das fábricas, das empresas, das universidades, a falar com as pessoas e a perceber o que precisa de ser feito”. Para a jovem comunista, as falhas de comunicação que persistem entre as máquinas partidárias e os jovens que esta diz querer mobilizar podem, igualmente, ajudar a explicar a preferência pelos movimentos informais. “Se, nos seus diversos aspetos – linguagem utilizada, cadência de repetição ou mecanismo de divulgação – não há qualquer correspondência entre a comunicação dos partidos e a dos jovens, a ideia que fica é que nem sequer estão a tentar chegar a eles”, explica Carla Sousa, levantando outra tese interessante: “Alguns partidos estavam habituados a vias de comunicação de um só sentido, falar e não ter resposta imediata. Usando as plataformas de hoje, terão sempre retorno. O microfone está apontado para os dois lados”.

 

No entender de Joana Sá Pereira, “partidos e movimentos cívicos têm papeis distintos na sociedade e há lugar para todos”. “Enquanto os movimentos informais têm causas muito focalizadas, os partidos não se dedicam unicamente a determinadas preocupações conjunturais. Têm um projeto para o país”. Para a jovem socialista, mais do que a ascensão dos movimentos cívicos ou associativos, um dos “principais motivos de preocupação” é “o facto de estarmos a caminhar numa estrada que tende a segmentar todas as causas e preocupações em respostas simples e respostas complexas”. “Para o cidadão, o caminho mais fácil é ir pela resposta simples – é menos exigente em termos de reflexão e, sem ponderar sobre questões estruturais, dá uma resposta mais imediata. Mas a dificuldade da política é mesmo essa! Nós não estamos cá para dar respostas mais fáceis, estamos para dar as respostas mais justas e certas”. Joana Sá Pereira cita o autor Daniel Innerarity, na obra “Uma Teoria da Democracia Complexa”, de janeiro de 2020: “A principal ameaça à democracia não é a violência, nem a corrupção ou a ineficácia, mas sim a simplicidade. Ninguém diria que a simplicidade, com esse ar de inocente descomplicação, pudesse atuar de maneira tão corrosiva sobre a vida política, mas, em certas ocasiões, os inimigos menos evidentes são os mais perigosos”.

 

 

 

 

“Não é simples explicar às pessoas porque é que determinadas opções políticas não podem ser tomadas já amanhã ou porque é que erros do passado fazem com que hoje não possamos evoluir tão depressa”. “É por isso que os partidos têm outra responsabilidade [por comparação às formas de participação política emergentes]”. A este respeito, note-se o que, já há dois anos, no ensaio “Jobs for the boys? Nomeações para administração pública”, Patrícia Silva escrevia: “A ascensão de partidos e movimentos populistas e a sua reivindicação por soluções simples e rápidas, o declínio da confiança nas instituições democráticas, a desconfiança nos partidos políticos tendem a minar aquele que em tempos foi considerado um incontestável modelo de organização política”.

 

Gonçalo Dias identifica-se com a visão mais otimista dos que veem nesta problemática do crescimento da ação política dos jovens fora dos partidos um desafio à renovação da política partidária. Confessa que “algumas críticas fazem sentido”, mas faz questão de reforçar a importância dos partidos no atual sistema político, invocando à militância de mais jovens dispostos a “transformar a sociedade de acordo com os seus ideias”.

 

 

 

 

* Contactadas pela Aveiro Mag, as estruturas distritais de Aveiro do Bloco de Esquerda e do LIVRE não demonstraram disponibilidade para participar nesta reportagem.
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