Serra da Estrela: natureza e sabores em estado puro

 

 

Às voltas pelo Centro de Portugal*

 

 

Longe vão os tempos em que apenas associávamos a Serra da Estrela à imagem da neve que a cada inverno vai cobrindo os seus montes. Os atrativos desta que é a serra mais alta de Portugal Continental (1.993 metros de altitude) – e que em setembro de 2019, recebeu o estatuto de Geopark Mundial pela UNESCO – não se esgotam nessa possibilidade de fazer esqui, snowboard ou de simplesmente brincar com a neve.

 

As suas paisagens, os seus trilhos de natureza, a sua tranquilidade e o seu ar puro, tornam-na apetecível em qualquer altura do ano – inclusive nos dias mais quentes, em que as suas praias fluviais convidam a revigorantes mergulhos. Pode (e deve) programar várias escapadelas, com a certeza de que tem muito território para palmilhar, inúmeras iguarias para degustar e um património ímpar para visitar. Aceita as nossas sugestões?

 

Seguimos viagem guiados pela Célia Gonçalves, que ama a serra e conhece este  território do Centro de Portugal como muito poucos. É responsável pela rede de Aldeias de Montanha, que junta 41 localidades de nove municípios (Fornos de Algodres, Seia, Gouveia, Oliveira do Hospital, Covilhã, Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Fundão). “O que torna a Serra da Estrela tão especial são as pessoas e a sua imponente natureza”, introduz Célia, sem deixar de puxar, como seria de esperar, a brasa à sua sardinha, as Aldeias de Montanha. “É um admirável mundo a descobrir, em termos de natureza, cultura, sabores e também como destino para fugas do quotidiano. A natureza é autêntica. As pessoas são genuínas”, vinca.

 

 

Num território tão vasto e rico, torna-se difícil desenhar apenas um roteiro (se há região onde vale a pena voltar, e em diferentes épocas do ano, este é um deles), mas Célia Gonçalves não vira as costas ao desafio. Começamos pela Aldeia de Montanha de Cortes do Meio, situada na vertente sul da Serra da Estrela, que representa a natureza em estado puro e as águas são o seu tesouro mais precioso. “Para além da semi-glaciar Ribeira das Cortes, que circunda a povoação, a aldeia é uma fonte inesgotável de lagos, poços e cascatas – todos de águas frescas, límpidas e cristalinas. São 12 as piscinas naturais já sinalizadas (outras haverá, por enquanto apenas acessíveis aos caminhantes mais aventureiros), muitas delas adornadas por cascatas naturais, que se transformam em gelo nos invernos mais rigorosos”, desvenda. É por ali que se encontra também “a cascata a maior altitude em Portugal (Poço da Cascata, a 1.400 metros), com uma queda de água de 20 metros. A unir as piscinas, há já várias rotas assinaladas (trilhos para percorrer a pé ou em BTT), dando nova vida aos caminhos que, outrora, as gentes de Cortes do Meio calcorreavam descalças, para abastecer de leite, cabritos, carvão e carqueja a cidade da Covilhã”. Atualmente, as condições de vida dos habitantes da aldeia são menos severas, ainda que a agricultura e a pastorícia continuem bem presentes na economia local e o cabrito se mantenha como ex-líbris gastronómico da freguesia, conta-nos a responsável da rede Aldeias de Montanha.

 

Seguimos até Manteigas – se for no outono não deve falhar a Rota das Faias (PR13MTG) – para uma visita à Burel Factory.  A Burel Factory é mais do que uma fábrica de teares. É um espaço de histórias e memórias, um espaço de design e produção do burel, o tecido de lã mais tradicional na indústria de lanifícios da Serra da Estrela. Tem como valores a sustentabilidade social, ecológica e a conservação da montanha. Aqui poderá observar as máquinas do século XIX que continuam a trabalhar assim como outros equipamentos tradicionais, ouvir o bater dos teares, e ficar encantados com as belíssimas peças que aqui se produzem.

 

 

Oliveira do Hospital é o destino que se segue, para descobrirmos o vale rio Alva, “de uma beleza estonteante pelas suas águas límpidas e frescas, os seus socalcos verdejantes e a sua rica e abundante flora e fauna da zona ribeirinha” – o Rio Alva tem origem na Serra da Estrela. Ao longo do seu curso, encontramos “duas das mais bonitas praias fluviais da serra da Estrela, as praias de São Gião e Avô”, realça Célia Gonçalves.

 

Já no concelho de Seia, mas ainda no vale do Alva, na parte superior, é obrigatória a visita ao Museu da Eletricidade. Neste museu municipal poderá ver a história da eletricidade e conhecer o desenvolvimento tecnológico e industrial na produção de energia elétrica durante o século XX. Ainda nas proximidades, vale a pena ir até à Praia Fluvial Dr. Pedro e fazer uma parte da Rota da Caniça até aos Cornos do Diabo.

 

Os bons sabores da Serra da Estrela

 

Já todos sabemos que a Serra da Estrela é rica em gastronomia. Começando, desde logo, pelo seu produto rei e que carrega toda a região no nome: o Queijo Serra da Estrela DOP. É por causa dele que a nossa anfitriã nos propõe uma ida até Celorico da Beira, mais concretamente à Aldeia de Montanha de Vide entre Vinhas, para conheceremos a Célia Silva, uma das mais jovens queijeiras da serra e que faz um Serra da Estrela DOP maravilhoso. Mas há mais – muitos mais – sabores que nos levam a perder de amores por este território do Centro de Portugal. Exemplo disso é o cogumelo silvestre do Alcaide, aldeia situada perto do Fundão e onde, anualmente, em novembro, população lhe presta uma justa homenagem no Festival dos Míscaros – evento que atrai milhares de forasteiros à aldeia.

 

Na vila de Manteigas, a feijoca é quase uma rainha. “As condições de clima frio, a qualidade do solo e a preservação de variedades antigas de leguminosas fazem da feijoca um ex-libris da agriculta de montanha, e uma boa feijoca serrana ou um doce pastel desta leguminosa são obrigatórios”, destaca Célia, que nos propõe, ainda, um desvio até à Aldeia de Montanha de Valhelhas, onde “o cabrito, o enchido da Guarda, as trutas do Zêzere, o requeijão e o Queijo Serra da estrela, estão tão bem representados na restauração local. O ‘Valeculla’ ou o ‘Soadro do Zêzere’ são sempre uma excelente opção”, destaca. Por falar em restaurantes, “o carácter profundamente serrano da Aldeia de Montanha de Folgosinho, localizada na encosta ocidental da Serra da Estrela, no concelho de Gouveia, justifica a qualidade e a diversidade dos produtos gastronómicos tão bem preservados no famoso restaurante ‘O Albertino’”, acrescenta Célia Gonçalves.

 

E é também por conta dos sabores que incluímos o concelho de Oliveira do Hospital, que é uma das portas de entrada da Serra da Estrela, no nosso roteiro. É lá, mais concretamente na Bobadela, que está situado o Museu do Azeite, que retrata a história e a relevância do tão apreciado “ouro líquido”. Reservamos ainda tempo (e estômago) para viajar até Seia e subir a Loriga, outra das vilas que integra a rede de Aldeias de Montanha e que nos faz cair em tentação com duas iguarias: a Broa de Loriga e o Bolo Negro, “herança da colónia inglesa que, no século XIX se estabeleceu em Loriga”. “O facto é que o bolo logo foi adaptado ao gosto português e acabou por se tornar um produto exclusivo da vila, pelo seu sabor e texturas únicos. Se no passado era consumido sobretudo em épocas festivas como a Páscoa, com o tempo as pessoas passaram a querer disfrutar desse prazer sempre que o desejassem. E por isso o bolo negro é consumido todo o ano”, destaca Célia Gonçalves. No Restaurante o Vicente, além do extraordinário cabrito serrano e do o borrego DOP, estes sabores locais nunca faltam.

 

 

 

 

Outros locais que não pode perder na Serra da Estrela:

 

New Hand Lab

 

A antiga fábrica de lanifícios António Estrela, localizada na Covilhã, está agora transformada numa espécie de “fábrica da cultura” que está sempre pronta a receber visitantes. São cerca de 10.000 metros quadrados de área que passaram a albergar ateliers, salas de exposição, espaços polivalentes e uma pequena área de convívio. Obras em burel, materiais reciclados, instalações de luz, pinturas, entre outras criações, dão nova vida às paredes e salas do edifício.

 

Subida à Torre

 

Estar na Serra da Estrela e não subir ao seu ponto mais alto – e consequentemente ponto mais alto de Portugal Continental – seria um pecado. Aproveite a viagem para aprecias a paisagem pontuada por blocos de granito, charcos, lagoas e uma fauna e flora ímpares. E não se esqueça de parar junto à Senhora da Boa Estrela, escultura em relevo, feita na própria rocha e representativa da padroeira dos pastores e rebanhos, da autoria de António Duarte.

 

Belmonte

 

Terra natal de Pedro Álvares Cabral, Belmonte consegue levar-nos a viajar no tempo. Por entre as ruas e casas desta vila medieval, descobrimos a herança judaica dos últimos judeus sefarditas em Portugal, reservando ainda tempo para visitar o castelo da vila, assim como o Museu dos Descobrimentos, o Ecomuseu do Zêzere e o Museu do Azeite.

 

Barroca e Janeiro de Cima

 

As encantadoras Aldeias do Xisto da Barroca e Janeiro de Cima, no concelho do Fundão, são alguns dos locais mais visitados pelos turistas portugueses e estrangeiros nesta zona do país. O tom castanho e ocre do xisto faz sobressair as flores colocadas em vasos na rua ou penduradas nas varandas.

 

 

 

* Roteiro produzido em parceria com a Turismo do Centro de Portugal

 

 

 

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