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Dia Europeu Sem Carros: Associações aveirenses de mobilidade defendem mais medidas

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Há já alguns anos que, na Europa, o dia 22 de setembro é assinalado de forma muito especial, sensibilizando a população para a necessidade de reduzir o tráfego rodoviário dentro das cidades. Com ações mais ou menos arrojadas, são muitas as cidades que vão fazendo questão, nesta data, de celebrar o Dia Europeu Sem Carros. A região de Aveiro não é exceção, com vários municípios a assinalarem o dia – vários concelhos vão mais longe, assinalando a Semana Europeia da Mobilidade.

 

Nas vésperas de mais uma comemoração do Dia Europeu Sem Carros, a Aveiro Mag foi ouvir os dirigentes das associações regionais de mobilidade, começando com a pergunta óbvia: ainda faz sentido comemorar este dia?

 

“Faz cada vez mais sentido porque os motivos pelos quais foi criado são cada vez mais evidentes e urgentes. Este Dia Europeu sem Carros existe para sensibilizar as populações para os prejuízos sociais, económicos e ambientais da utilização excessiva do carro e para que todos possam refletir sobre o que poderia ser a sua vida sem o carro e experimentar o que é uma cidade sem carros ou, pelo menos, com uma redução efetiva do número de viagens de automóvel”, destaca Joana Ivónia, da Ciclaveiro. Idêntica opinião tem Rui Igreja, dirigente da MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, que não só defende a celebração deste dia, como até sugere que ele seja “replicado ao longo do ano, abrindo as ruas às pessoas uma vez por mês ou todos os domingos, como recomendam a Comissão Europeia e a Agência Internacional da Energia para reduzirmos rapidamente o consumo de energia e a dependência dos combustíveis fósseis. E também porque só será possível cumprirmos as metas e os compromissos de ação climática nesta década se reduzirmos substancialmente o número de carros em circulação e a sua utilização, principalmente nas zonas urbanas”.

 

Da parte da associação Patrulheiros, mais concretamente pela voz do seu presidente, José Nuno Amaro, fica a opinião de que o dia “não faz sentido se for uma atividade isolada, e criada especificamente para o dia. No entanto, e quando integrada em atividades já existentes nos municípios, e que sirvam para dar a conhecer à população tudo aquilo que podem usufruir e que está disponível dentro dos seus programas municipais da mobilidade sustentável (ciclável e suave), torna-se numa excelente ferramenta. Aqui colocaria as soluções intermodais, com o recurso à utilização de meios alternativos, onde neste dia, eram utilizados como uma experiência para uma futura integração, soluções intermodais, do transporte coletivo ao uso de bicicletas e trotinetes, testando a cidade e as pessoas para o seu uso efetivo, num futuro próximo”, sugere.

 

Em matéria de mobilidade, como em tantas outras coisas, há ainda muito para fazer e mudar. Mais do que um dia sem carros, são precisos vários dias sem carros ou muitos dias com poucos carros. Que medidas gostavam as associações de ver implementadas ao longo de todo o ano na região de Aveiro?

 

“As boas práticas indicam-nos que os carros não desaparecem dos locais onde lhes é permitido entrar e onde é fácil estacionar mesmo que em segunda fila ou em cima dos passeios. Com isto quero dizer que, uma cidade que permite e convida a entrada de carros para o centro urbano, estimulando o uso do automóvel com a criação de mais estacionamento, mesmo que subterrâneo, não está a trabalhar no sentido de desincentivar o seu uso”, começa por reparar Joana Ivónia, que dá o exemplo de Pontevedra, em Espanha, cidade galega premiada pela ONU e com o centro integralmente pedonalizado. “No centro urbano de Aveiro, em pleno século XXI, qualquer turista pode estacionar e passear de carro dentro da cidade. Ora, isto já não faz sentido, nem para os próprios turistas. As pessoas não querem andar de carro, as pessoas querem soluções de mobilidade que as levem de forma fácil e confortável do ponto A para o ponto B. Podem e devem ir a pé, de bicicleta e de transporte público. O carro pode e deve ficar à porta da cidade, da mesma forma que não entra na nossa casa, e a cidade e o espaço público é a nossa casa coletiva”, vinca a dirigente da Ciclaveiro.

 

“Precisamos de passeios cuidados, confortáveis, seguros e desimpedidos de carros. Regulação forte e eficaz ao estacionamento automóvel abusivo em cima de passeios e a ocupar ciclovias. Aumento significativo de floreiras (em vez de pilaretes), bancos, árvores e outros equipamentos urbanos que impeçam o estacionamento abusivo e obriguem a redução das velocidades rodoviárias, obrigando os automobilistas a contornar esses obstáculos e a reduzir velocidades até 20km/h em meio urbano. Precisamos também de investimento sério em transporte público que permita deslocações diárias para os locais de trabalho e para a escola, incentivando verdadeiramente o seu uso pelas pessoas de forma confortável, rápida e mais atrativa do que o uso do automóvel privado. Precisamos de ter uma verdadeira política de mobilidade escolar, permitindo dar às crianças autonomia de se deslocarem para a escola a pé, de bicicleta e de transporte público, eliminando milhares de deslocações diárias nos automóveis dos pais e libertando as envolventes escolares dos riscos para a segurança, saúde e bem-estar das crianças”, acrescenta Joana Ivónia.

 

Baixar as velocidades dentro das localidades

 

Da parte da MUBi, fica o alerta para a necessidade de as autarquias desenvolverem “Planos de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS), como determina a Lei de Bases do Clima, integrando medidas de apoio e estímulo à utilização dos modos ativos e transportes públicos em conjunto com medidas de desincentivo ao uso do automóvel particular, e onde as políticas de estacionamento, com redução sistémica da oferta nos centros urbanos, têm um papel crucial na promoção de uma mobilidade mais saudável e inteligente. É também essencial baixar as velocidades motorizadas dentro das localidades para valores inferiores a 30 km/h, reduzir o excessivo espaço ocupado pela circulação automóvel, devolvendo-o às pessoas, e limitar o tráfego de atravessamento nas envolventes das escolas, zonas habitacionais e centros urbanos, como acontece em tantas localidades europeias”, sustenta Rui Igreja.

 

José Nuno Amaro sugere que sejam criados “suportes de apoio a quem circula em viaturas individuais, tal como parqueamentos fora do perímetro urbano”. “Todos nós já usufruímos de infraestruturas desse tipo quando visitamos cidades noutros países, que, geralmente, depois visitamos a pé, de bicicleta ou utilizando transportes coletivos para chegar aos centros. Era isto que mais gostaria de ver, numa vila ou cidade, pequena ou média, sem o extremismo de banir todos os veículos, mas reduzindo esse estacionamento abusivo, que retira toda a qualidade vida a quem lá vive”. “Somos a única região em Portugal, e quiçá na Europa, que tem uma auto estrada que liga diretamente à praia, com tudo o que isso tem de bom, e também de mau. Quando atingimos quase 10 vezes mais a capacidade de parqueamento de uma zona balnear – este ano, atingiu-se o número máximo de viaturas a entrar num só dia na Praia da Barra, quase 200 mil veículos – sem que haja uma antecipação do que ano após ano começa a tornar-se um terror ambiental na primeira pessoa, vai-se degradando a convivência dos que lá residem e de quem nos visita”, adverte o dirigente da associação Patrulheiros.

 

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