Tiago Matias

Tiago Matias, especialista em música antiga, grava o que nunca ninguém gravou

Tiago Matias

 

 

Tiago Matias cresceu na freguesia de Vilar, numa altura em que Aveiro ainda estava longe do pulsar artístico, do movimento criativo e da oferta cultural que hoje se lhe associa. Na cidade até “já existiam alguns grupos e equipamentos culturais como o [Teatro] Aveirense, o CETA – Círculo Experimental de Teatro de Aveiro ou o Estaleiro [Teatral de Aveiro]”, assim como “boas escolas de dança”, mas “a dinâmica dessas estruturas era muito inferior”, garante o músico aveirense, em entrevista à Aveiro Mag.

 

O que, naquela Aveiro dos anos 90, florescia com irredutível efervescência, eram as bandas de garagem. “Havia muitas [bandas] e tenho ideia de que, genericamente, o nível de qualidade era muito bom”, recorda Tiago que, apesar de, mais tarde, ter vindo a enveredar por sonoridades mais eruditas, chegou a integrar alguns dos conjuntos jovens mais icónicos daquela época, nomeadamente, os Drool Sniper, os Sem e os Alter-ego.

 

Não foi, no entanto, por via destas bandas de liceu que o jovem aveirense chegou à música. Desde cedo, aprendera a tocar guitarra numa escola privada, em São Bernardo, e habituara-se a integrar os coros da Sé de Aveiro. É por isso que, no que à música diz respeito, pode dizer-se que, até certo momento da sua vida, Tiago Matias percorreu dois caminhos paralelos: de um lado, a vivência das bandas de garagem, a guitarra elétrica e a vertigem do punk rock, sempre mordaz e empolgante; do outro, a “música de igreja”, a responsabilidade de direção dos coros da Sé Catedral (tarefa que, mais tarde, viria a assumir) e, claro, todo o percurso na guitarra clássica no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, com a seriedade que a música erudita, tão bela quanto rigorosa, a todos exige.

 

Enquanto entendeu percorrer paralelamente estes dois caminhos – o rock e o clássico –, Tiago nunca descurou um relativamente ao outro. Contudo, também nunca permitiu que se tocassem. “Nos dias de hoje, os miúdos já não veem esta divisão da forma como eu a via. Para mim – eventualmente, de forma errada – sempre foram dois campos muito diferentes, em igual medida apaixonantes, mas sempre intocáveis. Dois mundos separados”. “Hoje já não os encararia assim”, reconhece o músico.

 

Tiago Matias

 

Desse período fundador, há que referir dois discos que Tiago destaca como “referências”, não só por terem assinalado o seu despertar para o universo da música, mas também porque cada um deles simboliza um desses caminhos – o rock e o clássico – percorridos lado a lado no trajeto musical de vias colaterais que lhe marcou a infância e a adolescência. “Não devia ter mais de 8 ou 9 anos quando ouvi o The Wall, dos Pink Floyd, muito por influência de tios e primos mais velhos. Não era muito comum os miúdos da minha idade ouvirem aquele tipo de música, mas esse disco, assim como os álbuns seguintes da banda, marcou-me bastante”, recorda. Pela mesma altura, um disco de música clássica com os “noturnos” (composições que evocam a noite e nela se inspiram) de Chopin tê-lo-á fascinado de tal forma que a questão “Será que, um dia, poderei fazer disto, vida?” passa a ocupar-lhe a mente.

 

A resposta só chegaria uns anos mais tarde, ainda Tiago não tinha concluído o Conservatório, mas já depois de ingressar na licenciatura em engenharia mecânica, em Aveiro. No âmbito de um curso livre de guitarra clássica, em Vila do Conde, o seu talento, técnica e agilidade não passaram ao lado do professor Paulo Vaz de Carvalho que lhe atribuiu rasgados elogios. “Um discurso inspirador” que me “deixou nos píncaros”, confessa o aveirense. “Palavras certas, na altura certa, vindas da pessoa certa” que lhe trouxeram as certezas que faltavam. Então, e a engenharia? Era um “curso de família”, justifica Tiago. “Tenho vários familiares ligados a este ramo e, apesar de eu já na altura saber que queria ser músico, passou-me pela cabeça que [a engenharia] era o caminho certo”.

 

É preciso uma boa dose de coragem e, essencialmente, uma forte convicção quanto à sua vocação para um jovem de 19 anos decidir abandonar um curso com o qual “teria a vida feita” e seguir o caminho da música. “Eu sabia bem o que queria”, assegura Tiago. No seu seio familiar, “não houve dramas”, ainda que, no início, não tenha sido fácil para os pais compreenderem aquela opção. “Foi importante para eles perceberem que a minha vontade era pela música erudita e que, neste ramo, rapidamente estaria a dar aulas”. “O facto de verem que eu podia ter uma vida minimamente estável ajudou-os a aceitarem a minha escolha”, partilha. Em 2002, Tiago Matias completa o curso complementar em guitarra clássica no Conservatório de Música de Aveiro (no exame final, obteve a nota máxima de 20 valores) e, três anos mais tarde, conclui igualmente os estudos na Escola Superior de Música de Lisboa.

 

Tiago Matias

 

 

Em quase duas décadas de carreira, Tiago tem colaborado regularmente com diversos grupos – entre os quais, “Sete Lágrimas”, o mais conhecido grupo de música antiga em Portugal e um dos mais conhecidos da Europa, que integra há cerca de 15 anos – com os quais já gravou vários discos e teve a oportunidade de se apresentar em salas de espetáculo e festivais um pouco por toda a Europa. Em 2012, em colaboração com Filipe Faria, fundou o Noa Noa, com o qual editou “Língua”, em 2014, “Língua 2”, em 2015, “En la mar”, em 2016, e “Palavricas d’amor”, em 2017.

 

Em 2018, é convidado a assumir o cargo de diretor do Quartel das Artes Dr. Alípio Sol, em Oliveira do Bairro, com o desafio de “criar uma programação eclética que chegue a todos os públicos, mas que seja audaz em termos de qualidade; que não perca a coerência, nem se deixe cativar pelo facilitismo”. A azáfama da sua carreira artística e dos seus afazeres enquanto programador fizeram com que Tiago deixasse de dar aulas. Ainda assim, esta foi “uma atividade que preencheu mais de vinte anos da minha vida – comecei a dar aulas com 17 anos – e da qual só guardo boas memórias”, garante o músico. “Tenho a sorte de poder afirmar que tenho muitos antigos alunos que são músicos profissionais. Orgulho-me muito de ter sido eu a formá-los. Vê-los crescer foi ótimo”.

 

 

Alaúdes, tiorbas, vihuelas e outros antepassados das guitarras que hoje conhecemos

 

Voltemos um pouco atrás: meses antes de terminar o curso superior em guitarra clássica, Tiago teve a oportunidade de estudar em Madrid, no Real Conservatório Superior de Música, ao abrigo do programa Erasmus. Foi na capital espanhola que o aveirense conheceu José Miguel Moreno, especialista em música antiga e em instrumentos como os alaúdes, as tiorbas, as vihuelas e outros antepassados das guitarras que hoje conhecemos. A experiência foi de tal ordem entusiasmante que, poucos dias depois de terminar o curso em guitarra clássica, Tiago “já tinha cortado as unhas” – para a guitarra clássica é aconselhável usar as unhas da mão direita compridas, ao passo que para estes instrumentos antigos, tal não é necessário. “Não mais voltei à [guitarra] clássica, não mais voltei a ter unhas [compridas] e não tenho vontade disso. Percebi o prazer e o arrebatamento que estes instrumentos me dão e soube que este era o meu caminho”.

 

Em dezembro do ano passado, Tiago Matias lançou o seu primeiro disco a solo: Cifras de Viola, um conjunto de 14 obras provenientes do Manuscrito Musical 97 da Biblioteca da Universidade de Coimbra: “Cifras De Viola por Vários Autores Recolhidas Pelo Licenciado Joseph Carneyro Tavares Lamecense”. “Este manuscrito, que data do início do século XVIII, contém mais de 200 obras para guitarra barroca, sendo a sua maioria música inédita e de autores desconhecidos. A compilação é a maior que se conhece em todo o mundo para guitarra barroca, tendo um grande valor artístico e histórico”, podia ler-se no comunicado de apresentação do disco.

 

“Sempre soube que, quando chegasse a altura de me apresentar a solo, não iria gravar o que já tinha em casa”, vinca Tiago Matias. “Nunca tive interesse em gravar as minhas obras favoritas de Bach, por exemplo, apesar de adorar Bach, é o meu compositor de eleição, a minha maior influência. Mas nunca quis gravar música que já conhecia, que já tinha sido registada por outros”.

 

Quando teve conhecimento deste manuscrito histórico, imediatamente, Tiago demonstrou interesse em transcrever, recriar e gravar algumas peças, mas o ofício exigia tempo e dedicação. “Tenho de admitir que, tal como aconteceu com tantos músicos, foi a pandemia a dar o derradeiro empurrão para que o projeto avançasse”, conta. E agora, nisto dos discos, “como diz o Ronaldo, é como o ketchup. Depois do primeiro é sempre mais fácil surgirem os seguintes”. Aos 43 anos, o músico aveirense garante ter novo trabalho já gravado. “Está em processo de edição, vai ser lançado em 2023”, antecipa-nos. Para este novo registo, “o processo começou pela recolha de música vocal dos séculos XVI e XVII. Passei a música para vihuela – no primeiro disco toquei guitarra barroca, neste segundo vou tocar vihuela -, depois fiz uns arranjos, umas variações e estive a gravar”, resume. “Da porta que ousei abrir, há dois anos, quando avancei para um disco a solo não só chegará mais este disco, como outros. Tenho vontade e ideias para mais”, assegura Tiago Matias.

 

Tiago MatiasTiago Matias e a equipa que acompanhou a gravação do seu segundo disco a solo

* Fotos: Filipe Faria

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