A estátua de João Afonso e a lágrima da cativa

 

Virgílio António Nogueira

 

 

Quando for recolocado o pedestal de calcário talvez a figura de bronze deva estar orientada no sentido sul, o do suposto Reino do Preste João, o das primeiras etapas do caminho marítimo para a Índia, o das rotas lusitanas das especiarias. Assim se faria jus à geografia dos caminhos da vida de João Afonso de Aveiro. No decorrer destes anos a estátua parece ter virado as costas ao Benim, aos vastos territórios da África Ocidental que na época ficaram conhecidos pelo nome do navegador aveirense. Algures no solo dessas paragens longínquas foi sepultado o corpo que o tempo e as larvas consumiriam, no Rossio da urbe ficou a memória sólida da fisionomia do sábio utilizador do astrolábio e das técnicas de marear.

 

Apraz saber, pelas informações colhidas e transmitidas pelos historiadores, que João Afonso de Aveiro prezou o contacto diplomático com as populações que encontrou nas viagens africanas, interessando-se pela realidade local e pelas possibilidades comerciais que serviam ambas as partes envolvidas nos negócios. Da promoção da diplomacia resultou a visita de cortesia do embaixador do rei do Benim a Portugal, reinado por D. João II, momento honroso para fomentar o conhecimento e a amizade entre os povos e para incentivar as trocas comerciais reciprocamente benéficas.

 

O navegador quinhentista aveirense dignificou a história da expansão portuguesa além-mar, a que atendeu à lógica económica, mas também a que consagrou a comunhão de culturas, a miscigenação e a absorção mútua de tradições. Talvez ainda falte contar a História ultramarina dos romances entre pessoas de nações distintas, dos amores inter-raciais, das famílias mistas, para evidenciar um novo ponto de vista, diferente de outros como daquele que, por exemplo, trata e agrega a dimensão trágico-marítima do movimento expedicionário. Ter-se-ia assim a oportunidade de aprofundar a realidade camoniana da “cativa que me tem cativo”, de passar da singularidade para a pluralidade de casos, de ultrapassar a obra pontual ou a figura de estilo e usufruir, finalmente, da situação, do quadro geral que as originaram.

 

Pegando no caso concreto, Camões não ilude a condição social da amada, ainda assim é ela que poeticamente o tem prisioneiro. Como um dos maiores autores da língua portuguesa e personalidade histórica, que todos os portugueses reconhecem como intelectualmente sublime, os da ponta da extrema-esquerda aos do acantonamento ideológico na extrema-direita, é útil recuperar os sentimentos que Camões, no século XVI, exprimiu por uma mulher negra:

 

“Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves molhos,

Que para meus olhos

Fosse mais fermosa.

 

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

 

Uma graça viva,

Que neles lhe mora,

Pera ser senhora

De quem é cativa.

Pretos os cabelos,

Onde o povo vão

Perde opinião

Que os louros são belos.

 

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas bárbara não.

 

Presença serena

Que a tormenta amansa;

Nela, enfim, descansa

Toda a minha pena.

Esta é a cativa

Que me tem cativo;

E pois nela vivo,

É força que viva.”

 

A libidinosa poética, a natureza das palavras aferida pela análise semântica, revela Camões indiferente ao preconceito racial, e fê-lo sentidamente, sem usar a literatura como “insight” sociológico, séculos antes de surgir a Sociologia, como se dissimulasse no texto o desejo de contribuir para o que a ciência social definiria, muito mais tarde, controversamente, no conceito de luso-tropicalismo, habilitando os pressupostos da colonização lusa se não venerável, pelo menos suave, um convívio com bacalhau e calulu de galinha à mesa.

 

Luís Vaz não simula a afeição para provar aos futuros antropólogos que os portugueses possuíam apetência, sadia ou patológica, por mulheres de fenótipo ou genótipo diverso. Na Universidade de Coimbra, os mestres no estudo – ou pseudoestudo – do ser humano, procuraram, em meados do século XX, demonstrar o padrão luso, fixar os traços genéticos identitários como se fosse possível obter a definição do “nariz português”. Consideravam a possibilidade, munidos de apenas uma régua e com a medição de alguns centímetros de uma parte do corpo, de concluir mais sobre o (hipotético) puro corpo e sangue lusitanos do que os quilómetros que fenícios, celtas, visigodos, romanos, árabes, berberes, entre outros fizeram para chegar a este chão e aos leitos e a outros confortos em que os seus espermatozoides e óvulos se uniram e aqui reproduziram a espécie humana. Tempo perdido, o destes sapientes que pretendiam emular os colegas que na Alemanha nazi ansiavam delinear as marcas físicas da superioridade da raça ariana alegada pelo Terceiro Reich. Uma simples experiência de laboratório de escola secundária seria suficiente para ridicularizar o esforço de hierarquizar os povos; o poema que sobreveio dessa singela experiência desfaria a tese hitleriana que fundamentou a Solução Final, a segregação racial ou a sonegação de direitos civis, estribada nessa proposta racista:

 

“Lágrima de preta

Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.

 

Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.

 

Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.

 

Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.

 

Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:

 

Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.”

 

Terá sido a uma negra do Benim que António Gedeão, o autor do poema, recolheu a lágrima? Foi ela que encantou João Afonso, que lhe abriu uma feitoria no coração? Foi ela que o que fez preferir ficar na lonjura, que com ele partilhou as lágrimas das saudades, as da alegria e as da tristeza e que não têm cor nem rancor, apenas a água e o cloreto de sódio que os olhos libertam de acordo com as emoções comuns a todos os humanos?

 

A atitude política de João Afonso de Aveiro e a assunção amorosa de Luís Vaz de Camões conferem condição de igualdade ao outro, não erradicam a alteridade, mas esbatem-na: o outro é um igual, um parceiro de negócios ou uma mulher amada. A aventura expedicionária lusitana não orgulha pelo exercício da força, da submissão das mulheres e dos homens ao trabalho sem compensação, embaraça aqueles que retiraram a dignidade às mães e aos pais, que forçaram os casais escravos a viver paternidades envergonhadas, e assim foi durante séculos, diante do ordenamento legal e económico do esclavagismo.

 

Será mau álibi alegar-se em defesa do sistema que essoutra seria uma era menos sensível ao reconhecimento dos direitos humanos, afinal as velas das naus tinham nelas bordadas a cruz de Cristo, supostamente seguiam a determinação de Jesus para espalhar a Palavra, para difundir a noção cristã da irmandade dos Homens e a católica igualdade dos seres humanos perante o Criador, a de partilhar a liberdade dos seguidores do Nazareno de professar a fé e de ter meios para viver em decência para chegar ao paraíso prometido à gente que praticou os mandamentos cristãos como imperativo moral e pôde e quis fazer o Bem.

 

O amor que temos à comunidade, à pátria, aos heróis da gesta coletiva, significa o respeito que queremos ter por nós mesmos e o que nos seja dado por sermos quem somos, por isso mesmo temos de respeitar as outras comunidades, as outras pátrias e os seus heróis. Esse respeito pelo outro, o diferente, distante e estrangeiro, foi a lição de João Afonso, por isso merece que a estátua da autoria de Euclides Vaz, inaugurada nas celebrações do Milenário da Cidade de Aveiro em 1959, esteja disposta de modo a que o mareante possa olhar de frente para esse mundo que abraçou a partir de Aveiro e onde preferiu esperar a eternidade.

 

 

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