Vai ficar tudo bem

Ivar Corceiro

 

 

Num dia desta semana aconteceu-me querer vir a pé para casa depois do trabalho mas não podia por estar preso ao automóvel. É pouco mais de uma hora a pé e eu precisava desse tempo a caminhar mesmo sem saber muito bem porquê. Então, pela primeira vez fui eu quem trouxe o carro a casa em vez do carro me trazer a mim.

 

Deixei-o ali no pátio da entrada a fumegar e fui dar uma volta mais ou menos equivalente ao que seria ter vindo a andar. No ar dançava uma estranha mistura entre a poluição dos canos de escape dos automóveis apressados, do ar mais que puro das muitas árvores que se juntam na beira da estrada para conversar e do frio cortante da manhã.

 

Acho que nunca tinha dito isto a ninguém, nem sequer a mim mesmo, mas uma sensação de alívio pode pousar em nós tão devagar quanto um segredo de Amor demora a sair do nosso peito. É algo parecido com isso.

 

Depois meti-me na conversa das árvores e disse isso a uma delas. Acrescentei depois, em tom de desculpa por me estar a meter com ela com uma conversa de bêbado, que tive um ano lixado.

 

Que um dia volto para lhe explicar o que é viver com uma pessoa doente, com um cancro qualquer do qual já esqueci o nome e não me ter sentido sequer no direito de me queixar da vida porque esse tinha que ser o seu único privilégio. Queixar-se da vida.

 

Mas nunca o fez. Manteve-se ali tão forte quanto o pouso duma borboleta primaveril, às vezes a fingir que a vida era normal, outras vezes a perceber que estávamos só os dois. Nós e uma série de sorrisos anónimos num hospital vestidos com batas cansadas.

 

Que um dia volto para lhe explicar que me lembro de todas as dores que senti sem as ter, do seu braço quase morto na minha perna e dos dedos magros que não se conseguiam mexer. E vídeos e mais vídeos do YouTube para aprender a dar injecções e a matar a desesperança num pequeno copo de uísque e numa frase feita. Vai ficar tudo bem.

 

Que um dia volto para lhe dizer que todas as semanas imaginava, quando a ia buscar ao hospital, que ela ia sair pela porta a sorrir e a dizer que estava bem. E depois nunca estava.

 

Que um dia volto para lhe contar que sei de cor o sabor do vinho e da carne e da sobremesa do primeiro almoço quando finalmente isso aconteceu.

 

Houve um dia que parei numa praça movimentada da cidade. Dali podia ver os semáforos a mudar de cor mecanicamente, as nuvens a esconder os traços dos aviões e as pessoas a caminhar como formigas desalinhadas. Havia um louco que cantava sozinho uma música qualquer que naquele momento me pareceu a única pessoa normal. Para onde é que iam os outros?

 

O mundo funcionava sem querer saber de nada nem de ninguém. Nem de mim nem dela, afinal. E então percebi que era um erro meu. O mundo queria saber, sim, mas o mundo éramos só nós.

 

Voltei para casa despido de medos mais uma vez e disse-lhe: Vai ficar tudo bem.

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