Viagens na nossa terra: Cuidado, frágil

 

 

 

A fragilidade das coisas vê-se a cada passo que damos na vida. Duas lojas de brinquedos na avenida povoam as minhas memórias de infância como reminiscências felizes. São pequenos fragmentos, apenas – e como as memórias são traiçoeiras mesmo eles podem ser como velhos pedaços de metal retorcidos. Lembro-me que a uma delas se acedia através de um pequeno corredor a partir da porta do edifício, com vitrinas de vidro dos lados, que o balcão estava de costas para a entrada ou que o chão era de linóleo. Lembro-me que a outra era mais pequena e que por isso parecia mais cheia.

 

Nenhuma delas existe já. Muitas das lojas da minha infância desapareceram: a churrasqueira da Rua do Gravito onde nos íamos abastecer de frango assado, os cinemas Oita e 2002, a Ribasil, a Antoine, a Popshop, o supermercado Pão de Açúcar e outras de que já nem o nome guardo nas gavetas cá de cima. O passado ficou lá atrás e com ele pessoas, hábitos, objectos, edifícios, marcas, lojas.

 

Isto vem a propósito da Adega do Evaristo. Era um dia de outubro ou novembro, era hora de almoço, a fome apertava, eu estava nas redondezas. O Evaristo foi a primeira escolha. Mas o Evaristo estava fechado. Um papel mal amanhado colado ao vidro da porta anunciava aos fiéis famintos que o estabelecimento estava encerrado por tempo indeterminado. Uma pilha grande e desordenada de jornais amontoada no interior mostrava que a coisa era grave. Temi o pior. Voltei a tentar uns dias depois. Tudo na mesma, excepto o monte de jornais, ainda maior. Alguém que escreva o epitáfio, pensei desconsolado. O Evaristo é uma instituição e é triste ver desaparecer uma instituição, com testemunhas a olhar de frente.

 

 

 

 

Falso alarme, porém. Regressei novamente mais tarde, incrédulo e inconformado, mas desta vez a porta estava aberta. Entrei para um belo arroz de polvo ao balcão e fiz as pazes com o mundo. Ao meu lado um cliente pede um café com cheirinho e um dos empregados lembra que a esse suplemento etílico se chamava dantes “uma gosminha”. Outro comensal, já aviado, quer acertar contas e pede “a dolorosa”. Come-se bem e aprende-se sobre a vida, nestes sítios.

 

Outro motivo de alegria é que nada mudou. A Adega do Evaristo continua a Adega do Evaristo. Não reabriu como Adega by Evaristo ou Evaristo’s House. Ninguém nos põem a água no copo. A Vitela à Vouga, o bacalhau com grão e outros clássicos da casa continuam a ser preparados na cozinha. Não há pratos com nomes de dez palavras. Não há refeições frugais. Não há guardanapos de pano para limpar os beiços. Os pósteres do Beira-Mar não foram trocados por fotografias de Nova Iorque ou da Torre Eifel. Os clientes e os empregados têm a língua solta. Pagar a “dolorosa” só com dinheiro, multibanco não há.

 

O Evaristo não quer ser mais do que aquilo que é. Não é um sítio sofisticado e ainda bem, porque a beleza do mundo faz-se dos seus contrastes – o provinciano e o cosmopolita, o velho e o novo, o norte e o sul, o grande e o pequeno. E é uma receita de sucesso, porque sempre que lá vou está cheio, com a fauna de sempre e com os forasteiros que buscam autenticidade.

 

O Evaristo, como tudo, um dia perecerá. O comércio é frágil e sensível e vive de ciclos. A caixa registadora deixará de tilintar porque os clientes se mudarão para a novidade na porta ao lado, os donos ficarão velhos, o edifício será vendido – por qualquer razão, as lojas fecham. Aproveitemo-las enquanto existem.

 

Foi com estes pensamentos na cabeça que, com mais uma Vitela à Vouga no currículo, decidi empreender um pequeno passeio a pé por ruelas do centro de Aveiro para descobrir o que a cidade tem para oferecer fora dos sítios do costume. Há lojas que todos conhecemos e nas quais já entrámos mil vezes. Mas há um roteiro comercial alternativo que merece a nossa visita – e que é também uma forma de conhecermos melhor a nossa própria cidade, percorrendo as suas nervuras secundárias.

 

Uma das conclusões é que quem quiser cortar o cabelo, fazer a barba ou arranjar as unhas não tem por onde se queixar – não faltam cabeleireiros, barbeiros e manicures. Um fenómeno que se expandiu foi o das lavandarias self-service, que há uns anos nos pareciam uma bizarria de filme americano mas que hoje abundam por cá. Também se encontram talhos, charcutarias e peixarias, assim como algumas mercearias de bairro. Uma delas, no Bairro do Liceu, anuncia encomendas de folar de Vale de Ílhavo – um ponto a seu favor.

 

Há lojas que exibem a sua antiguidade com orgulho. Augusto’s desde 1980 ou Amizade desde 1989, lê-se nos letreiros ou nas montras. Outras, como um velho café junto ao jardim municipal, de frente para o coreto, parecem ter sucumbido recentemente. É também o caso da Figurino, na Rua Eça de Queirós. O letreiro com letras a preto sobre um fundo cor-de-laranja já desbotado ainda permanece, mas as montras estão já despidas. Quase em frente fica uma das casas comerciais mais antigas ainda em atividade em Aveiro – a Pergentino, fundada em 1976 -, em cuja montra se exibem pijamas ou roupa de cama.

 

A X&Records compra e vende discos de vinil, a Dona Natália faz arranjos de costura, restauração de malhas e decoração de roupa, Mãos Sábias anuncia “retrosaria e manualidades”, o King Doner Kebab serve pizza turca e outras iguarias, o Cubo Doce oferece uma vasta gama de gomas e doces, a Frimáquinas garante a reparação de electrodomésticos, a Sapataria Brasil promete cura para os calcantes doentes pois são “os médicos do calçado”, o Videonorte faz cópias e encadernações, a Antiqualha é uma loja de antiguidades e um alfarrabista. Um espaço comercial não diz que serviço fornece. Numa placa à entrada de um prédio, por baixo de placas de advogados ou sociedades imobiliárias, lê-se “Charme” em vermelho, com a letra A desenhada com a silhueta de uma mulher, sem explicações. Noutra rua mas não muito longe uma bonita placa com pequenos ramos floridos anuncia um espaço dedicado à língua e à cultura japonesas (Cláudia Arakaki, para os interessados). Na montra de uma papelaria observo várias canetas Parker, recordando-me como objetos utilitários podem ser fascinantes. E por aí fora, numa variedade de oferta para a qual estamos muitas vezes pouco despertos.

 

Durante o passeio cruzo-me ainda com estúdios de arte, locais de culto – a Igreja Viva de Aveiro ou a The Redeemed Christian Church of God – e alojamento local. E muitos serviços: advogados, agentes de execução, seguradoras, mediação imobiliária, gestão de condomínios. Os advogados são os campeões da densidade populacional – sobretudo à volta do tribunal há tantos como gente a apanhar cavacas no São Gonçalinho. E, claro, cafés em cada esquina, que isto é Portugal.

 

Quem for atento depara-se com algumas manifestações de criatividade. Na tampa de uma instalação de gás alguém colou vários autocolantes que são uma paródia aos cromos de futebol. Entre os personagens encontram-se o Mo Kada, trinco do Estoril Praia, ou o Toy, capitão do Vitória de Setúbal.

 

 

 

Um passeio a pé pelas ruas e vielas da cidade faz-nos perceber o quão rico é o seu mosaico de lojas, de edifícios, de ruas, de gente. A sua personalidade.

 

Claro que a cidade – nenhuma cidade – é um sítio meramente idílico: há lojas vazias, casas abandonadas, prédios feios, ruas mal remendadas, grafitis onde eles não deviam existir, poucos jardins. São as suas cicatrizes e as suas imperfeições. Mas como cantava Leonard Cohen, há sempre uma fenda por onde entra a luz.

 

Andei pela Rua Direita, pela Rua 31 de Janeiro, pela Rua Capitão Sousa Pizarro, pela Rua do Recreio Artístico, pela Rua Homem Cristo Filho, pela Rua José Joaquim Lopes de Lima, pela Rua de São Martinho e por inúmeras outras, onde descobri pedaços de Aveiro que não conhecia ou dos quais já me tinha esquecido. Saibamos viver a cidade por inteiro.

 

 

 

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