Num tempo que mede tudo em função da utilidade, da produtividade e do retorno imediato, tornou-se quase subversivo defender aquilo que, aparentemente, “não serve para nada”. A cultura, esse território onde a humanidade se revela, interroga e reinventa é, ironicamente, vista muitas vezes como um luxo dispensável. Porém, é precisamente por não caber na lógica do lucro que a cultura se torna indispensável.
A cultura é o espaço onde o ser humano ainda pode existir fora do ruído, da pressa e da pressão do desempenho. É na literatura, na música, no cinema, no teatro, na dança, no património, que encontramos aquilo que não pode ser quantificado: memória, identidade, legado, espanto. A cultura é o que resta quando tudo o resto passa, e é o que permanece quando um país precisa de se reconhecer para não se perder.
É por isso que, em tempos de crise, ela é sempre a primeira a sofrer. Cortam-se subsídios, adiam-se programas, fecham-se salas, fragilizam-se estruturas. Os artistas vivem entre projetos incertos, burocracias intermináveis e a crónica falta de meios. E, no entanto, continuam. Continuam porque criar não é apenas uma profissão; é uma forma de estar no mundo. É um gesto vital. A criação não se suspende por decreto nem por orçamento: resiste.
E essa resistência cultural é, também, uma resistência social.
Um povo sem cultura é um povo sem memória, e um país sem memória é apenas um espaço habitado: sem alma, sem eco, sem voz própria. Sem cultura, a história reduz-se a dados, o presente a ruído e o futuro a inércia. A cultura é a memória sensível de uma comunidade: o que ela conta, o que preserva, o que ousa imaginar. É nela que se aprende a empatia, se exercita a crítica e se alimenta a capacidade de imaginar alternativas.
Num mundo cada vez mais dominado por algoritmos, métricas e tendências que duram minutos, a cultura lembra-nos que há valores que não dependem da utilidade económica. Lembra-nos que o ser humano não é uma linha de produção, mas uma história, e que essa história só sobrevive se for contada, representada, cantada, reinventada.
Defender a cultura é, por isso, defender o essencial.
É continuar a ler quando o ruído pede distração.
É continuar a apoiar artistas quando o pragmatismo pede cortes.
É continuar a criar quando tudo parece conspirar contra o tempo da criação.
Resistir, hoje, é defender aquilo que parece inútil.
Porque é no inútil, no que não serve, no que não rende, no que não se vende, que mora o sentido.
E uma sociedade pode ser rica, eficiente e moderna, mas só será verdadeiramente viva se continuar capaz de imaginar, de criar e de não esquecer quem é.