As sementes foram lançadas há uns 40 anos, nos campos agrícolas de Barrô, em Águeda. Uma criança igual a tantas outras passava parte dos seus dias de volta do avô, a vê-lo tratar daquilo que a terra ia dando. Os rituais relativos à produção do vinho ficaram gravados num lugar muito especial da memória. Ficaram a fermentar, a amadurecer e, há cerca de um ano e meio, transformaram-se num projeto muito especial: uma nova marca de vinhos, que carrega tradição e história, tanto no nome como no sabor. São vinhos de talha (ou seja, produzidos em vasilha de barro), feitos a partir de uvas de vinhas centenárias, com o mínimo de intervenção e batizados com o nome de uma variedade de maçã típica da zona, malápio. O rosto por detrás da marca é Romeu Martins, a outrora criança que bebeu a inspiração e o saber fazer do avô.
Hoje com 51 anos, Romeu Martins chega até ao mundo dos vinhos com alguma bagagem de empreendedorismo (já teve um restaurante e, na Dinamarca, foi dono de lojas de pastéis de nata) e uma grande vontade de pegar nas tradições da sua terra e elevá-las a um patamar superior. “O importante é ter orgulho na Bairrada e, um dia, poder estar ao lado de um suíço ou de um italiano que tem uns vinhos mais caros e estar de igual para igual com eles”, aponta, já depois de ter levado a Aveiro Mag a visitar as suas vinhas centenárias. Faz questão de mostrar as cepas de onde vai retirando os cachos que lhe permitem ter um vinho de intervenção mínima. “Queria vinhas velhas. Encontrava muita vinha, mas pequenas. Foi uma luta. Até que encontrei esta e comecei a recuperá-la”, enquadra, argumentando que “vinhas novas não tiram um bom vinho”.
Naquela vinha centenária, de solo argiloso e exposta em declive acentuado a sueste com excelente exposição solar, estão plantadas “todas as castas nativas da Bairrada”. “Bical, Cercial, Maria Gomes, Rabo de Ovelha, Baga, Bastardo, Touriga Nacional, Trincadeira, Tinta Roriz... Portanto, o blend já é feito ali. O vinho é feito na vinha, não é feito no laboratório”, repara o produtor que garante nem sequer ter laboratório.
A vinificação é depois feita em talhas de barro - o vinho é sujeito a curtimenta com as películas, em contacto apenas com cera de abelha/resina de pinheiro -, algumas delas ainda do tempo do seu avô. “Nesta zona, era tradição produzir-se o vinho nas talhas de barro. Repare que era aqui que existiam as maiores jazidas de barro”, refere o produtor que contou com a ajuda de Virgílio Loureiro (enólogo, professor e investigador) para produzir o seu primeiro vinho.
De portas abertas aos turistas
Romeu Martins não só se empenhou em produzir um bom vinho como também recuperou a antiga adega do seu avô, transformando-a num espaço aprazível para receber turistas. Ao centro, uma mesa e bancos corridos de madeira, e as talhas ao fundo. Em cima da toalha, uma tábua de queijos, enchidos, pão (de Barrô, claro está), maçãs malápio e vinho. “A maçã deve ser comida com o pão, como faziam os antigos”, sugere Romeu Martins antes de verter um pouco de vinho no nosso copo. Notas de prova? É bom, dizemos nós que somos pouco entendidos na matéria, ao mesmo tempo que interpretamos as notas de prova dos especialistas, como é o caso da jornalista Ana Isabel Pereira (Público): “Embora de intervenção mínima, este é um tinto bem marcado pelo estilo de vinificação, logo no nariz. Na boca, é rústico, tem boa acidez, taninos angulares, mas suaves, fruta mastigável, tudo embrulhado num perfil antigo e, por isso, singular. Não é um vinho de guarda, mas, como diziam os antigos, ‘pão de hoje, carne de ontem e vinho do outro Verão fazem o homem são’”.