Trinta anos depois de ter nascido à beira do rio Águeda, a d’Orfeu chega a 2025 com a mesma “alma e ação” que lhe serviram de bússola desde o primeiro ensaio improvisado numa casa cheia de instrumentos e de ruído. A associação aguedense assinala o aniversário com um programa que envolve a comunidade, revisita o seu percurso e marca simbolicamente o início de uma nova etapa: novas instalações, um desejo antigo finalmente em concretização.
O ponto alto das comemorações ocorre a 6 de dezembro, data em que o Espaço d’Orfeu se abre à cidade para um dia inteiro de festa. Mas os festejos arrancam já hoje, dia 4 de dezembro, data oficial da fundação da associação, com uma Assembleia Geral Extraordinária.
Nos primeiros anos, a d’Orfeu afirmou-se sobretudo na formação em músicas tradicionais, rurais e urbanas, apresentando “inovadores olhares sobre a tradição” e organizando espólio documental sobre estas práticas musicais. A relação com a tradição moldava a metodologia, a identidade e o vínculo profundo à comunidade. A casa inicial, junto ao rio, depressa se revelou pequena para as ambições em crescimento. Em 1996, quando abriu portas ao público com a participação nos Encontros Musicais da Tradição Europeia, a associação começou a consolidar-se como promotora cultural, trazendo a Águeda eventos raros no panorama nacional.
De pequenos cursos informais, o projeto evoluiu para uma estrutura multifacetada, capaz de concentrar formação, criação, programação e edição. Essa característica – reunir num só organismo uma vasta diversidade artística – viria a tornar-se uma das marcas distintivas da d’Orfeu.
Ao longo dos anos, houve projetos que se tornaram marcos indissociáveis. Ana Flores destaca dois: o Outonalidades, “o nosso evento mais antigo, que existe ao mesmo tempo que nasce a d’Orfeu”, e que hoje coloca dezenas de grupos emergentes a circular pelo país e pelo estrangeiro; e o Festim – Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo, que já soma 17 edições e trouxe a Águeda sonoridades de todos os continentes. Eventos como estes não só ajudaram a ampliar o raio de ação da d’Orfeu como reforçaram a sua relevância na articulação entre tradição e contemporaneidade.
Apesar da projeção nacional e internacional, a ligação à cidade natal mantém-se firme. Na formação, a Escola de Palco trabalha semanalmente com instituições e escolas do concelho, imprimindo uma visão transversal de ensino artístico que alia música, teatro, movimento e expressão performativa. Prepara artistas, técnicos, produtores e espectadores, num entendimento inovador da educação cultural. Na vertente comunitária, o Projeto OCA convida a população a criar um espetáculo coletivo, num processo participado e intergeracional.
Hoje, a d’Orfeu é uma referência nacional e internacional na criação músico-teatral e na programação cultural, reconhecida pela capacidade de inovar e pela consistência do seu trabalho de base comunitária. Mas permanece fiel ao núcleo que esteve na origem do projeto. “A música e as suas raízes” continuam a ser o norte da associação. É essa matriz que assegura coerência à diversidade de projetos: a criação músico-teatral, os eventos transdisciplinares, o repertório reinventado, as edições discográficas e editoriais, a formação contínua e a programação que aproxima o público das tradições locais e das músicas do mundo.