Viagens na nossa terra: Ribeira de Pardelhas, cum caneco

 

 

 

Uma amiga escreveu “cum caneco” numa recente troca de emails. Não me recordava da última vez que ouvira tal expressão e perguntei-lhe se também era costume usar chiça, caramba ou cum raio. Anuiu. Tenho uma amiga de 90 anos e não sabia. Quando ela fizer anos vou-lhe oferecer um gramofone, um telefone de disco ou uma máquina de escrever.

 

Vem isto a (des)propósito da Ribeira de Pardelhas. Fora lá recentemente em trabalho e, sempre a farejar novos temas, decidi que escreveria sobre ela para a AveiroMag.

 

Não pude logo no fim de semana seguinte mas teria disponibilidade no outro imediatamente a seguir. Ficou marcado na agenda. Seria no sábado. Foram dias bonitos, os que antecederam esse sábado. Sol, o azul do céu, temperatura amena, os pássaros a chilrear, as abelhas a zunir. A primavera em todo o seu maravilhoso esplendor.

 

Chegou o sábado. Acordei. Levantei-me. Olhei pela janela. Chovia. Cum caneco. Chiça. Caramba. Cum raio. E, por que não, raios partam, bolas e caraças.

 

Não estava um dia convidativo mas senti-me preso ao compromisso que assumira comigo próprio. Iria mesmo assim. Equipei-me com um impermeável, acomodei a minha bicicleta no carro e fiz-me ao caminho. Parei na chamada Porta da Ria, à entrada da Murtosa, e fiz o percurso até à Ribeira de Pardelhas a pedalar.

 

Sou conhecido na família pela minha incurável falta de sentido de orientação e eu próprio assumo essa característica como uma doença crónica. Comigo, ir do ponto A ao ponto B pode ser uma aventura. Fazendo jus a essa penosa mas merecida condição perdi-me algures a meio do caminho, apesar de antes de sair de Aveiro me ter dedicado afincadamente a estudar o mapa. Não tinha como correr mal. Parecia fácil. E seria certamente para alguém provido de uma elementar capacidade de orientação. Para mim, que tenho a bússola interna avariada, foi o equivalente a enredar-me num complexo novelo de ruas e vielas, como se fosse um labirinto indecifrável.

 

Activei o GPS do telemóvel, que fez esta alma penada finalmente encontrar o seu rumo. Foi quase em êxtase que me cruzei com uma placa a indicar o destino. Estava no caminho certo.

 

Com a chuva miudinha sem dar grandes tréguas, cheguei finalmente, já vagamente desconfortável graças à roupa húmida. Logo à entrada dá-nos as boas-vindas a carcaça do Costa da Luz, uma lancha que outrora fazia travessias na ria e que hoje mais não é do que um velho amontoado de sucata jazendo num terreno da Murtosa.

 

O snack-bar/tasca – é assim que se apresenta – O Farol é um dos chamarizes da Ribeira de Pardelhas. O seu interior está ornamentado com uma enorme profusão de objectos: fotografias, quadros, cachecóis de clubes desportivos, galhardetes, miniaturas de barcos, nós de marinheiros. Quase não há, nas paredes e no tecto, um centímetro quadrado livre. Um menu escrito a giz em dois pequenos quadros de ardósia informa o que se pode comer por lá: moelas, amêijoas, punheta de bacalhau, carapauzinhos, morcela, rissóis e outros petiscos.

 

 

Meti dois bolos de bacalhau no bucho e segui caminho. Passo pelo Centro de Educação Ambiental do município e pela Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro. Numa das paredes anunciam-se cursos de marinheiro, para quem se quiser fazer às águas da ria ou do mar. Noutro edifício fica a empresa Enguias – Cais da Ribeira Lda.

 

Uns metros adiante passo pelo antigo Centro Hípico da Murtosa. O pequeno edifício está hoje completamente votado ao abandono, com as paredes grafitadas e a tinta a descascar, as janelas partidas e o interior desfeito. Um portão de madeira segura ainda uma placa azul onde se lê, entre as manchas de ferrugem, Associação de Criadores de Cavalos de Aveiro – Posto Hípico de Cobrição do Bunheiro, Murtosa.

 

Deixo para trás este triste cartão de visita e prossigo por um trilho de terra batida que faz agora parte da Grande Rota da Ria de Aveiro, devidamente sinalizada. O tempo não dá sinais de melhorar e, embora longe de ser uma tempestade inclemente, decido ao fim de alguns minutos que é hora de voltar atrás.

 

No cais, um pescador no interior do seu barco conserta as redes de pesca. Um homem corta lenha com um machado. Algumas pessoas deambulam a pé e de bicicleta.

 

Numa operação de grande ousadia, arrisco regressar à casa de partida sem ajuda do GPS. Missão bem sucedida. Insuflado de orgulho, guardo a bicicleta no carro e arranco em direcção a Aveiro.

 

O dia seguinte amanhece diferente. Outra vez a primavera em pleno. O clima conspirou contra mim – choveu no dia em que eu precisava de sol. Não faz mal. O passeio fez-se na mesma, e com gosto. Mas no domingo volto a pegar na bicicleta e parto rumo ao Baixo Vouga Lagunar. Desta vez o impermeável ficou em casa e guardo todas as suaves imprecações para quando elas voltarem a ser necessárias.

 

 

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