A Utopia de Goldfrapp Zhi e o TEDxAveiro

 

Virgílio António Nogueira

 

 

 

Quando acordou tinha ainda bem presente o sonho na memória e tudo lhe parecia vívido; precisou de ouvir a canção da mesma forma ansiosa que o viciado procura a droga, precipita-a para a seringa que pica no olho. Vogará, então, no flash, a sorrir para Deus, no degrau de baixo da escadaria de acesso ao paraíso suposto. Tinha, nesse despertar, a idêntica pressa do peregrino, sedento no deserto, em avistar o oásis e ali levar a água à boca com as próprias mãos, dispostas em concha a servir de copo.

 

No fim do sono, no princípio da cantiga que almejara escutar, o passado ficara para trás e ele encontrava-se no futuro, em que não havia gente, os edifícios eram largos e pelos seus enormes vidros olhava para o céu com nuvens muito brancas, espumas ali plantadas, como que pintadas, pois elas estavam imóveis, antevendo, na sua perspetiva, que naquela atmosfera não haveria vento.

 

Caminhou entre os blocos de betão e debaixo dos focos de luz, ultrapassou corredores, passou por portas que abriam automaticamente e sentia-se abandonado numa espécie de mundo de ficção. O silêncio era tão incómodo como o grito da criança sonolenta e irritada, estava tão só que facilmente recordaria as pessoas que sorriam eternamente nos retratos sob a cómoda do quarto da mãe, gente que desde pequeno se habituou a observar, rostos que não envelheciam com o passar dos anos.

 

Teve medo da solidão e de se esquecer de ti. Olvidar a forma arredondada do teu rosto, da acentuação engraçada que davas às palavras, receava que a utopia que criara para os dois fosse uma terra cega. Não fora a ave assustadiça e voaria para descobrir o código em que comunicavas, resolveria o mistério do pingente que pendia no colar que te rodeava o pescoço. Uma pérola redonda, um planeta suspenso. Talvez ele esteja agora aprisionado nessa peça de ourivesaria e não consiga evadir-se da bolinha que ornamenta o topo do peito dela.

 

Junto dela os dias ficaram estranhos, sem cores ou formas, a razão e o bom senso esboroaram-se e essa música levou-o ao fim do verão, já era setembro, mas o calor persistia, as chamas comiam as florestas em redor e o fumo chegava à cidade com o odor de hálito venenoso. Levou-a para a praia e cavalgaram sobre os dorsos brancos dos cavalos enquanto o sol se esforçava para romper a neblina. Perderam-se da vista dos veraneantes que restavam no areal, avançando o oceano rugia sucessivamente com maior brutalidade e a boca do mar impelia para o litoral ondas tão altas que quase encobriam o firmamento.

 

Sentindo os animais cansados, libertaram-nos do peso dos seus corpos e ele pegou na mão dela e sentiu a pele, a carne, os ossos, toda ela mais verdadeira que a réplica de laboratório. Quando se amaram ele não pensou na proeza da ciência genética reproduzir seres humanos que o soubessem interpretar. Seria virtuoso o amor concebido pela inteligência artificial, mesmo inventando discussões para soar razoável, mesmo fingindo depreciar a casta das uvas daquele vinho que ele escolheu e errou o gosto dela? Será o amor menos a perfeição relacional e mais a conquista de um ao outro? Afinal, muita da terra amealhada por Alexandre tinha pouco ou nenhum valor económico, seria dispensável pela condição geoestratégica, mas o herói bateu-se por esses territórios inóspitos. Tivessem-lhe dito que esses países, as cidades, os baldios, as montanhas e as planícies foram criados para satisfazer o seu desejo de provar a bravura e teria chorado pela mentira em que acreditara e que a valentia que o orgulhava provinha da farsa, da encenação, em que o haviam induzido.

 

O balanço dos sintetizadores levou-os a dançar e enquanto rodavam de maneira aleatória, com os passos descontrolados, sem a lógica dos bailarinos de escola, tornavam-se duas estrelas perdidas do equilíbrio matemático do universo. Por instantes, ele lembrava-se menos da fisionomia dela quando a vira nua, mais do momento em que a mulher subia a saia à cintura e o tecido ficava pouco acima do joelho, deixando ver a alvura das pernas e dos pés ainda despidos.

 

Ela oferecia-lhe paladares, especiarias, frutas de outro hemisfério, talvez imaginário, instigava-lhe os sentidos a irem além do que experimentara antes, e tudo era novo e novo outra vez, e perguntava de onde ela viera, que fragância se libertaria do sangue, seria igual à do verniz rubro que lhe cobria as unhas das mãos? Tomara que o hemograma a distinga de um robô a que facilmente se desligaria o sorriso. Mas, por que razão desvalorizar as curvas dos seus lábios no momento em que anuem à banalidade da chalaça ou respondem à manifestação de afeto? Mesmo que seja programado o que o distingue dos que emudeceram para sempre nas telas das salas dos museus apinhadas de gente para os contemplar? Ainda que esse riso subtil obedeça ao algoritmo, que difere da afeição humana comprada ou simulada?

 

Pranteou quando finalmente se sentou e ficou livre para se confrontar com a ideia do tempo, a de finitude corpórea e daí, contrariando a morte, advir a necessidade de se refazer, deixando o corpo no armário, pendurado na indiferença do fato que a moda desusou. Teria, pois, de migrar a consciência para um outro suporte, que lhe ofereceria a imortalidade. Conseguiria, no entanto, conviver com as memórias de outrora sem dor? Sem a corrida contra a velhice, a que saberiam os morangos silvestres que colhia na orla da estrada que subia depois de nadar no rio? Poderia então, nessa condição, de cérebro sem corpo, fugir de si próprio quando o cansaço lhe chegasse, na época em que a repetição deixasse de o perfumar e de o medicar e ganhasse antes o gosto amargo do veneno?

 

Enquanto apertava os botões da camisa ponderava sobre as máquinas humanizadas e o manequim que o Charles Bukowsky trouxe da montra de uma loja, trocado por poucos dólares, para casa, com intuito de fazer amor com ele. O que não admira visto o autor norte-americano ter o cérebro estragado pelo álcool que consumia, a bebida retorceu-lhe os neurotransmissores com a violência da tempestade e as sinapses estoiraram no choque do raio de trovoada com o ferro.

 

Nascerá em breve, cogitou ele, uma geração que fará a atual Biologia ficar obsoleta, quedar-se descrita nos compêndios que apenas interessarão aos arqueólogos do saber, e com ela despontará uma recém-nascida ordem legal, ética e moral. Serão os seus filhos, os que desmentirão as anquilosadas promessas do fim da história, fosse na sociedade comunista ou na liberalista, ou nos apocalipses que os livros sacralizados previam.

 

Não sentido fome, sem necessidade de repor energia para funcionar, postergando o temor do hospital e denegando o do esgotamento da vida, em que lugar da vivência humana ficariam a ganância, a gula, o pecado, o furto, o egoísmo? A arrogância dos que profetizaram, através das ideologias ou das religiões, os dias que aí vinham não trouxe qualquer benefício, contribuiu apenas para amedrontar e domesticar as células que evoluíram desconhecendo progenitores, súbditas do sol, uma estrela pequena, tão elogiada.

 

Quando ele lhe disse que gostava das camisolas de gola alta, que tocam com calor o tronco e o pescoço e aliviam o frio de inverno, mas também porque lhe relembravam Carl Sagan, ela olhou-o e riu-se, porque o calendário anunciava o regresso do verão. Sairiam de casa para assistir na Baixa de Santo António ao TEDxAveiro, pelo caminho debatiam o tema do encontro e por que motivo o título tinha de ser adversativo, conflituante, Hominem vs Machina, e não conjugado e harmonioso? Ouviriam as respostas no auditório, lugar tão insignificante atendidos os biliões de anos-luz de um outro anfiteatro em que outra espécie debateria a relação com a sua tecnologia, decomporia a substância até à derradeira partícula. Talvez aí, nesse limite ultramicroscópico, encontrasse a substância da origem de tudo. Talvez não. Continuaria, assim, a demanda para achar a ordem teleológica ou por, provisoriamente, aceitar o destino submisso ao caos.

 

 

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