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Zé Miguel Fernandes: “Ainda sonho fazer o meu ‘Bohemian Rhapsody’”

Palcos

Apesar de o seu nome estar associado a projetos musicais como Praia Lusitana, Meninos da Sacristia, Jambalaya ou Tributus, assim como a diversos grupos de baile da região, há já alguns anos que Zé Miguel Fernandes é guitarrista do incontornável José Cid. Dos palcos às transmissões em direto, da produção musical em estúdio à responsabilidade de prestar suporte técnico nas apresentações ao vivo, aos 55 anos, o músico da Gafanha da Nazaré já fez um pouco de tudo. Em entrevista à Aveiro Mag, contudo, admite continuar em busca da sua obra-prima. “Não tenho inveja dos músicos que fazem muito dinheiro ou dos que acumulam muitos sucessos. Tenho é inveja do Freddy Mercury no momento em que compôs a ‘Bohemian Rhapsody’. Aquele instante de glória silenciosa e realização pessoal plena difícil de descrever e o espanto coletivo que se lhe segue. Ainda sonho fazer o meu ‘Bohemian Rhapsody’”.

Zé Miguel Fernandes já estava às portas da adolescência quando, certo dia, deu de caras com uma guitarra esquecida lá por casa. O instrumento não era novo – devia ter pertencido a um dos seus irmãos mais velhos –, estaria levemente desafinado e faltavam-lhe duas cordas. Mantinha, ainda assim, o aquele fascínio intimidante e irresistível próprio dos grandes desafios. Zé Miguel agarrou-a pelo braço e sentou-a no colo. Sentiu-lhe as cordas com a palma da mão, tangeu-as, depois, com os dedos e beliscou-as, logo a seguir, com as unhas ainda tenras. As cordas vibraram. E da boca da guitarra saiu um hálito frágil, mas agradável. Experimentou, então, calcar as cordas com os dedos da outra mão e fez vibrar as cordas novamente. Continuou a explorar as sonoridades da guitarra e, rapidamente, aquela tornou-se a sua brincadeira favorita. Nos escuteiros, viria a aprender os primeiros acordes e, mal ou bem, a animar os acampamentos e fogos de conselho.

A verdade é que o gosto pela música corre-lhe no sangue. O pai, principalmente, sempre foi um amante e entusiasta da música. Tanto que, sempre que regressava do mar terminada mais uma campanha bacalhoeira, fazia questão de reunir família e amigos à volta da mesa, em serões que quase sempre culminavam com música. Tocavam e cantavam todos juntos e ainda aproveitavam para ficar a par das novidades discográficas que o capitão trazia das discotecas de St. John’s da Terra Nova – algumas delas, autênticas preciosidades, difíceis de arranjar num país governado pelo Estado Novo. “Foi à custa dos discos que ele trazia e das patuscadas que organiza cá em casa com toda a gente a cantar e a tocar que fui desenvolvendo ainda mais o gosto pela música”, avança Zé Miguel.

Ainda na adolescência, Zé Miguel Fernandes chega a frequentar algumas aulas de educação musical e, por volta dos 17 anos, já “andava por aí a tocar” na companhia de alguns amigos. Aos 18, porém, vai para a tropa. “Ao entrar na Escola Naval, perguntaram logo se alguém tocava algum instrumento. A princípio ainda hesitei, mas lá levantei a mão. A partir daí, tive de levar sempre a guitarra. A minha praxe passou a ser cantar as alvoradas aos cadetes ao som dos “Jeux Interdits””, conta Zé Miguel. “Na Marinha, ainda hoje os meus camaradas me conhecem como ‘Éfes da Guitarra’” – a alcunha Éfes deve-se aos apelidos aliterados Filipe Fernandes.

Zé Miguel Fernandes sempre viveu às portas do oceano, numa terra com cultura náutica e tradição piscatória; o pai era oficial da marinha mercante, tal como o tio e o avô. Ora, ao ingressar na Marinha tudo levava a crer que lhes fosse seguir as pisadas, que o mar fosse o seu destino. No entanto, ao terminar o primeiro ano da Escola Naval, percebeu que o seu rumo era outro.

Aos 20 anos – “mais tarde do que é habitual”, diz Zé Miguel – inscreveu-se na Escola de Jazz do Porto – “Era altura de estudar música a sério” – e ajudou a formar o grupo Praia Lusitana com o qual haveria de gravar o LP “Como Ninguém”. Apesar de já terem improvisado um estúdio rudimentar – “forrámos a garagem da mãe do Michel (outro dos elementos do conjunto) com caixas de ovos e tínhamos ao nosso dispor um gravadorzito a cassetes” – optaram por apresentar o projeto a José Cid e por gravar o disco nos estúdios do artista, em Mogofores, Anadia.

Foi desta forma que conheceu Cid, com quem viria a trabalhar alguns anos depois. “Primeiro comecei por trabalhar em estúdio, mais tarde passei a fazer som. Atualmente, e desde o retomar dos concertos ao vivo depois do confinamento, toco regularmente guitarra ao vivo com ele”, resume Zé Miguel, deixando elogios ao cantor veterano: “Tem 81 anos e está aí para as curvas. Ele sempre se manteve ativo e tem muito cuidado com a voz... O Cid respeita muito o seu público e quer sempre dar o melhor de si em palco”.

Nas últimas semanas, Zé Miguel Fernandes tem tido uma agenda particularmente preenchida. “Por vezes, a vida de um músico é muito romanceada: os palcos, as luzes, as noitadas. Da minha parte, confesso que já tenho dado por mim a ver os trabalhos das nove às cinco com outros olhos. Àquela hora vamos para casa, podemos estar com a família, temos os fins de semana para nós. Na música, não é bem assim”, lamenta.

Quando a música lhe dá alguma folga, gosta de pegar na mota e conduzir horas a fio, de passar tempo a pintar miniaturas de figuras fantásticas na companhia do filho – trabalho de concentração e minúcia que tem, para Zé Miguel, efeitos terapêuticos – ou de apreciar um bom filme. “Nos grupos por onde passei, cheguei a captar vídeo e fazer edição, mas nunca trabalhei em cinema. Tenho é uma cinemateca grande... Nunca fui de piratarias porque gosto de comprar as versões alargadas, ver as cenas eliminadas, os comentários dos realizadores e o que se passa behind the scenes (nos bastidores)”.

Concertos que ficam na memória

Se não é fácil resumir várias décadas de percurso em meia dúzia de parágrafos, tampouco é destacar um ou outro momento como especial ou relevante. Mesmo assim, é esse o desafio que apresentámos a Zé Miguel Fernandes e o músico, apesar de não se ter limitado a um único acontecimento, surpreendeu-nos com uma cuidada lista de episódios que o tempo não conseguiu esquecer.

O concerto mais marcante, porventura, terá tido lugar no pavilhão desportivo da antiga Escola Comercial e Industrial de Aveiro (hoje, Secundária Mário Sacramento) quando Zé Miguel tinha apenas 17 anos. Uma iniciativa da associação de estudantes que, sabendo das aptidões de Zé Miguel para a guitarra, havia-o convidado a atuar. “Foi a primeira vez que senti o que é subir a um palco e tocar para muitas pessoas. Uma energia indiscritível”, descreve.

Ainda dos tempos de escola, há que fazer uma menção ao conjunto “Fruta ou Chocolate”, uma banda de covers que Zé Miguel recorda com saudade e com a qual terá vivido “algumas peripécias”: “Uma vez, começou a sair muito fumo de umas colunas e só me lembro de ouvir a plateia a gritar ‘Olha o chocolate a derreter!’”.

Continuando a percorrer o álbum de recordações, o guitarrista sublinha igualmente os concertos que deu com os finalistas da primeira temporada do Chuva de Estrelas – programa de talentos transmitido pela SIC nos anos de 1990 – por todo o país. “Na altura, o programa foi um fenómeno de sucesso. Toda a gente via, dominava as conversas na rua e aqueles miúdos, que eu tive a oportunidade de acompanhar, eram tratados como verdadeiros rockstars”.

Finalmente, não há como não referir os concertos de reposição do mítico álbum de rock progressivo de José Cida “10 mil anos depois entre Vénus e Marte” com a participação de orquestras filarmónicas. “É um concerto grandioso”, assegura o guitarrista.

*Foto: Afonso Ré Lau

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