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Arlindo Fagundes: “As ilustrações de ‘Uma Aventura’ não são a melhor coisa que já fiz”

Artes

Em 1945, numa altura em que os pais já moravam em Lisboa, Arlindo Fagundes veio nascer a São Donato, em Ovar, de onde era originária a família materna. Para sempre ficariam as raízes vareiras e as memórias das temporadas passadas na região. “Ovar sempre foi o meu terreno preferido para brincadeiras e tropelias”, afirma, em entrevista à Aveiro Mag.

Como qualquer criança, Arlindo “gostava de fazer uns rabiscos”. A consciência plena da vocação para as artes, contudo, “é difícil de localizar no tempo e no espaço”. Recorda-se, isso sim, de ficar “encantado” com os livros de banda desenhada aos quais ia conseguindo ter acesso. “Lembro-me daquelas personagens mais icónicas – o Tintim, por exemplo –, mas também das tirinhas que apareciam todos os dias em jornais como O Comércio do Porto ou O Primeiro de Janeiro”. “Como é que isto se faz? Quem é que faz isto?”, questionava-se o pequeno Arlindo. “A minha primeira tentação foi tentar reproduzir aquelas tiras”. A prática aperfeiçoou-lhe o traço, desenvolveu-lhe o gosto e aguçou-lhe a visão. Ainda assim, “há que dizer que, ao longo da minha vida, desde logo, na escola, sempre encontrei colegas que desenhavam muitíssimo melhor do que eu. Lembro-me de dois ou três que me deixavam siderado com a qualidade das ilustrações que faziam. Não sei o que foi feito deles, perdi-lhes o rasto, mas suponho que nenhum deles se tenha tornado ilustrador e eram muito melhores do que eu”, ressalva. “Gosto de recordar esta história, principalmente, à gente mais nova, para que não fiquem obcecados com os seus destinos profissionais e para saberem que, mesmo que enveredem por um determinado caminho, não têm de ficar reféns dessa opção para sempre. Há sempre alternativas, talentos novos por descobrir”.

Numa altura em que “não era fácil confrontarmos os nossos pais com a vontade de seguir carreira artística” – “Não sei se não será mais fácil, hoje, dizer-se que se quer ser astronauta”, compara – Arlindo quis dar esse rumo à sua vida. Ao contrário da maioria dos seus colegas, que completara o ensino secundário nas escolas artísticas António Arroio, em Lisboa, ou Soares dos Reis, no Porto, Arlindo entrou para a Escola Superior de Belas Artes sem qualquer formação artística anterior. Paralelamente, associou-se também à Sociedade Nacional de Belas Artes, instituição independente onde, segundo o próprio, o ensino “não tinha nada a ver com o ensino conservador, fastidioso e bolorento da Escola Superior de Belas Artes”. Viria a diplomar-se, mais tarde, como realizador de cinema noConservatoire Libre de Cinéma Français, aquando do seu exílio político em França.

Foi, igualmente, a partir de França – onde chegou a trabalhar numa fábrica de tostas e numa entidade de gestão de bolsas de estudo (primeiro, como estafeta, depois, como intérprete trilíngue) – que viveu de perto os acontecimentos de maio de 1968 e, ao longe, o dia 25 de abril de 1974. Foi também nesse período que aderiu ao Partido Comunista Português, pelo que, quando a revolução despontou, Arlindo “já tinha uma ideia sobre o que podia acontecer”. “A cronologia dos acontecimentos em Portugal, nomeadamente, com a tentativa das Caldas da Rainha, já fazia prever que, mais dia, menos dia, alguma coisa ia acontecer”. “Foi, apesar de tudo, uma surpresa. Acordei com a notícia, liguei o rádio e foi uma alegria. Foi preciso chegar ao emprego para telefonar aos amigos e saber mais pormenores. Não fosse o telefone, estávamos dependentes da televisão e dos jornais e, para quem estava naquela expectativa, as notícias eram insatisfatórias em número e em conteúdo”. “Quis logo regressar”, sublinha Arlindo Fagundes, que teve de permanecer mais um mês em Paris de modo a deixar a sua situação regularizada. “Era o meu objetivo desde o início. Eu fui para poder voltar”

Regressado ao seu país, Arlindo Fagundes vinha “cheio de alegria”, “disposto a arregaçar as mangas” e “dar um contributo para que as coisas melhorassem”. Porém, confrontado com a realidade, não esconde ter sentido a mesma desilusão da personagem queirosiana Carlos da Maia, no derradeiro capítulo de “Os Maias”, quando este voltou a Lisboa depois de uma década em Paris e se deparou com uma cidade triste e apagada, repleta das mesmas pessoas tristes e apagadas de sempre.

Arlindo instalou-se nos arredores de Braga – onde, ainda hoje, reside com a família – e começou a trabalhar como realizador nos estúdios da RTP no Porto. Uma experiência breve, já que, o 25 de Novembro ditaria o seu afastamento do canal público. “Ninguém me bateu, ninguém me chamou nomes, mas à boa maneira portuguesa deixei de ter trabalho”. Arlindo ainda chegaria a concorrer a várias vagas na RTP, mas todos os concursos em que participou acabaram misteriosamente anulados. “É preciso pontaria, não é? Mas já me tinha habituado a este tipo de ‘azares’, concede, ironicamente. O realizador acabaria, então, por deixar o cinema e a televisão de lado – ainda viria a participar em projetos pontuais de menor dimensão – para enveredar pelo mundo da cerâmica e do artesanato, uma arte pela qual se apaixonou, na qual foi bastante feliz, mas que teria de abandonar precocemente. “Fiz um esforço físico de tal maneira violento que fiquei com danos irreversíveis. De um dia para o outro fui forçado a abandonar a atividade. Só fiquei com as peças que estavam na prateleira, nada mais”, conta Arlindo. De forma brusca e imprevista, chegava ao fim uma carreira que não só o realizara pessoalmente, como lhe valera um convite para orientar a oficina de cerâmica tradicional na Conferência Europeia do Artesanato do World Craft Council, em 1987, em Barcelos, e, mais tarde, o 1.º Grande Prémio de Design Artesanal na Bienal de Vila Nova de Cerveira.

Apesar de ter trilhado um percurso notável no que à cerâmica e ao artesanato diz respeito, seria no campo do desenho que Arlindo veria a sua obra mais reconhecida: as incontornáveis ilustrações da série de livros “Uma Aventura”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada.

Quando Zeferino Coelho, da Editorial Caminho, lhe telefonou para lhe dar conta de um projeto de literatura infantojuvenil de duas professoras lisboetas e o desafiou para juntar-se ao projeto, Arlindo “não tinha consciência da responsabilidade que aquele ‘sim’ acarretaria”. “Não me apliquei muito nos primeiros desenhos”, reconhece Arlindo. “Deixei a coisa correr durante demasiado tempo com menos preocupação do que a que devia ter tido. A minha profissão era a cerâmica e eu não estava disposto a trocá-la por nada. Fazia os desenhos fora de horas, por vezes, noite fora”, relata Arlindo. “Hoje, quando olho para algumas daquelas primeiras ilustrações, até tenho vergonha. Mas há que assumir: fui eu que as fiz”, declara, resignado.

A verdade é que, naquela altura, ninguém imaginava o fenómeno em que aqueles livros se iriam tornar. “Talvez o Zeferino Coelho soubesse”, suspeita Arlindo. “Ele tem olho. Deve ter previsto que aquilo poderia ter hipóteses de sucesso”, supõe. Na opinião do ilustrador, o facto de os livros de Enid Blyton – autora das coleções “The Famous Five” (em português, “Os Cinco”) e “The Secret Seven (em português, “Os Sete”) – estarem muito associados às gerações mais velhas e de boa parte daquelas novas aventuras se passarem em locais conhecidos dos jovens leitores portugueses pode ter contribuído para o êxito da série.

Hoje, a coleção já conta com mais de seis dezenas de títulos e não pára de aumentar. E, por falar em locais conhecidos dos jovens leitores, depois de “Uma Aventura na terra e no mar”, que tem como mote uma volta à Ria de Aveiro em bicicleta, em breve, o grupo de eternos jovens aventureiros estará de regresso à região – as autoras estão a preparar uma nova aventura vivida em Santa Maria da Feira.

Prestes a assinalar 41 anos – o primeiro volume, “Uma Aventura na cidade”, data de novembro de 1982 –, é impossível descolar os nomes de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada desta coleção, destas personagens e das suas aventuras. E o mesmo pode dizer-se de Arlindo Fagundes. No final de contas, foi do seu traço expressivo e distinto que nasceram as feições de Chico, Pedro, das gémeas Teresa e Luísa e do pequeno João, já para não falar de Faial e Caracol, os membros caninos do grupo, e de tantas outras personagens que constituem o universo daquela coleção literária. “É, inegavelmente, o trabalho pelo qual sou mais reconhecido”, admite Arlindo, não escondendo que tal o “chateia um bocadinho, tenho de admitir”. “Isto porque, na minha opinião, não são a melhor coisa que já fiz”, entende.

Ainda há uma outra personagem que lhe ficará, para sempre, impregnada: Pitanga. Arlindo sempre tivera uma “vaga intenção” de fazer banda desenhada e, embalado pela glória de “Uma Aventura”, finalmente se atreveu a apresentar a Zeferino Coelho a sua ideia. Mas quem é, afinal, o Pitanga? “É um barbeiro de luxo a domicílio que se mete numas alhadas, um tipo excêntrico, com um interminável cachecol às bolinhas e uma costela de Dom Quixote que faz com que esteja sempre do lado dos fracos e oprimidos”, resume o autor.

“Foi o herói que me deu jeito inventar para poder contar histórias que não sejam gratuitas, que tenham sempre problema social em plano de fundo e tragam alguma informação, alguma luz sobre aspetos menos edificantes sobre a vida nacional e internacional”, explica Arlindo, confessando que “já estava farto daqueles heróis bem arranjadinhos, a quem corre sempre tudo bem”. “Precisava de um herói que pudesse conviver com os tais mundos menos idílicos que me interessam”, observa. Repare-se que no primeiro volume – La Chavalita –, a trama está relacionada com a problemática do tráfico humano. No segundo – A Rapariga do Poço da Morte –, aborda-se o tema da doença mental e dos tratamentos psiquiátricos e, no mais recente – O Colega de Sevilha –, o drama da imigração e das trágicas travessias do Mediterrâneo.

Além de Pitanga, o protagonista destas histórias, quem já leu o primeiro volume, certamente, terá reconhecido uma personagem. “Quando estava a desenhar a história, deu-me jeito dar um amigo ao Pitanga, um segundo barbeiro que ajudasse a certificar o meu herói. Lembrei-me do António Variações. Escrevi-lhe e pedi-lhe licença para o incluir naquela ficção”, conta o ilustrador. “Escreveu-me de volta. Estava de acordo e entusiasmado por ver o resultado, mas quando o livro estava mesmo para sair, morreu”. “Não cheguei a conhecê-lo”, lamenta Arlindo que, à data, estava longe de saber que, anos mais tarde, seria das suas mãos que nasceria o busto com que Amares homenageia o artista da terra – António Variações nasceu na freguesia de Fiscal daquele município bracarense. “ foi uma espécie de Euromilhões, uma oportunidade de ouro, dos trabalhos que mais gostei de fazer. E, modéstia à parte, acho que não me saí mal”, afirma.

Com três volumes publicados, por ora, Arlindo não prevê vir a publicar mais aventuras de Pitanga. “Se nunca foi fácil, agora, então, é quase impossível”, considera Arlindo. Talvez por isso, o autor tenha vindo a interessar-se cada vez mais por “edições underground”, como é exemplo o volume “Santa Camarão”, de Xavier Almeida, uma edição da Chili com Carne. “É uma banda desenhada muito interessante sobre um herói de Ovar, o boxeur José Santa, conhecido como Santa Camarão, um dos maiores pugilistas do mundo da sua época e que eu ainda conheci quando era menino”.

Arlindo lembra Santa Camarão como “um gigante”, “um tipo fortíssimo que foi trabalhar para Lisboa com o pai quando ainda era miúdo e, mais tarde, começou a participar em espetáculos de boxe no Coliseu dos Recreios. Deu logo nas vistas. Vieram uns empresários que o levaram os Estados Unidos onde teve uma carreira fulgurante no mundo do boxe”. “Até participou num filme”, acrescenta, referindo-se a “Liebe im Ring” – em português, “Amor no Ringue” – de Reinhold Schünzel. “É claro que, no filme, era o boxeur alemão que ganhava. Mas ele fazia questão de dizer que aquilo era tudo a fingir e que, se fosse num ringue real, dava cabo do outro”. O que é certo é que, por conta da participação do pugilista ovarense, esta longa-metragem alemã de 1930 ficaria para a história do cinema como o primeiro filme em que se falou português. Voltando à banda desenhada de Xavier Almeida, “trata-se de uma história curta e com grafismo agressivo sobre um tipo extraordinário, uma estrela mundial caída no esquecimento”, elogia Arlindo Fagundes.

No que concerne à banda desenhada, importa ainda referir que Arlindo Fagundes recebeu o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho noFestival da Amadora, em 2003, e, no ano seguinte, o Troféu Sobredão, no Salão BDda Sobreda.

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