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Pedro Neto: “Que futuro queremos que os nossos tenham?”

Sociedade

A missão de Pedro A. Neto faz com que seja normal ele aparecer (mais) quando há alguma coisa que não está bem. Seja a pandemia, seja o conflito que opõe a Rússia à Ucrânia ou, mais recentemente, o foco de tensão e guerra entre Israel e o Hamas nos Territórios Ocupados da Palestina.

Mas o diretor executivo da Amnistia Internacional – Portugal, com raízes fortes e fecundas entre Santa Catarina e Ponte de Vagos, é muito mais do que isso. E para chegar ao lugar que hoje ocupa, com mérito, teve um percurso de vida pleno de compromissos, de voluntariado e dedicação ao bem-estar do outro.

Da Flórida a Ponte de Vagos. Dos Estados Unidos da América a Portugal. Do seminário à Arqueologia. Da metáfora da vida que é o futebol ao milagre da vida, que é o de ser pai. A história da vida de Pedro A. Neto é feita de muitas “estórias”, mas a mais importante, a da geração vindoura, é a que mais importa.

As duas infâncias de Pedro

Nasceu nos Estados Unidos da América, onde viveu até aos seis anos. É por isso que diz que a sua infância foi dividida em dois momentos distintos. A primeira, na Flórida, num local de urbanidade latente. Tão latente que foi lá que participou na sua primeira greve, divertindo-se e divertindo os que, com o seu pai, pugnavam por melhores condições de trabalho. Desses anos, as recordações são sempre boas.

“A primeira infância nos Estados Unidos foi de encantamento. Tudo era alegria, tudo era deslumbrante. Os passeios ao fim de semana a Washington, a Nova Iorque, a Filadélfia, uma vez, a Toronto, no Canadá. O Estado de Pensilvânia é muito bonito em todas as estações, e por esta altura do ano, no outono, o espetáculo das árvores com folhas de tantas cores é uma imagem que não esqueço”.

Mas aos seis, a primeira grande aventura. Os pais ficaram, mas Pedro e o irmão Vítor voltaram para Portugal, para casa dos avós maternos. A ideia era que se ele começasse a escola na América, criaria laços que, depois, seriam difíceis de quebrar. Pedro recorda esses primeiros momentos que foram de alguma tristeza: “Recordo-me que acordava a meio da noite com o sino da igreja, que era perto, e demorava alguns segundos a tomar consciência de onde estava e quando percebia que não estava na América e que os meus pais estavam longe, começava a chorar sozinho, baixinho, até adormecer de novo”.

Tudo passa na vida. É um facto. E desta vez não foi diferente. Os pais, entretanto, também regressaram. O domínio da língua portuguesa foi alcançado e a adaptação ao meio conseguida. As memórias desses tempos, também felizes, perduram. Até as primeiras lições de vida e de (in)justiça: “Esta segunda infância, rural, foi muito ligada à terra, à natureza, ao trabalho duro das pessoas e a testemunhar uma vida mais pobre e humilde. Lembro-me muito das conversas sobre o preço a que se vendia o litro de leite e, depois, no supermercado o preço era várias vezes mais alto. De um mundo perfeito ao meu olhar pequenino, começava aqui a compreender alguma injustiça”.

Do seminário à ORBIS

O amor pelo futebol foi um dos motivos que levou Pedro Neto ao seminário. Parece contraditório, dois mundos tão distintos e tão díspares. “A ida para o seminário foi uma escolha pessoal, primeiro muito infantil. Em Santa Catarina não tínhamos campos de futebol. As balizas eram as nossas mochilas, ou dois tijolos. Fui ao seminário a primeira vez teria uns dez anos, com uns amigos que andavam lá, passar o fim de semana. Quando chegávamos ao seminário, a primeira coisa a fazer era equipar e ir jogar futebol. Não precisei de ouvir mais nada e disse-lhe para me inscrever. E assim foi. Do sétimo ao nono ano íamos passar um fim de semana por mês no seminário e a partir do décimo ano mudámo-nos para lá”.

Sair de casa, do conforto, de novo, aos 14 anos, foi mais uma mudança de vida. “Difícil”, assume Pedro Neto à Aveiro Mag, mas que se tornou uma experiência para a vida, fruto das vivências e das pessoas com quem se cruzou. Uma delas, que destaca: “Tive a sorte de ter um reitor que se tornou para mim um modelo, quase um segundo pai. O Padre Luís Barbosa que é hoje pároco em São Bernardo. Fazia-nos pensar o mundo, educou-nos para valores, para espírito de serviço. Foi com ele que adquiri o hábito diário de ler o jornal. Foram dele os primeiros livros de teologia que li”.

A saída do seminário, já em idade adulta, foi inevitável. Por um motivo simples, o de querer ser pai. Um outro tipo de desígnio maior. Diferente. Mas o que fica, ou o que ficou, ainda hoje molda o dia a dia: “Do seminário de Aveiro tenho a maior gratidão. Foi naquela casa que aprendi a questionar as coisas, o mundo, foi ali que comecei a interessar-me por política - no seu sentido mais nobre - por intervenção social, por fazer alguma coisa que pudesse fazer a diferença. Ao seminário também devo muito. A disciplina, os horários de estudo, o aprender a mobilizar pessoas, a pensar pela própria cabeça, o ritmo de trabalho, o testemunho da pessoa de Jesus Cristo como uma figura maior de Amor, de intervenção social. O meu diretor espiritual era o Padre João Gonçalves, na altura pároco da Glória. Ele dizia-me que a vocação era escolher de entre duas coisas boas a melhor. Assim fiz. Não sendo possível conciliar, saí do seminário e fui estudar Arqueologia para a universidade”.

Os anos passaram, a missão, no sentido de servir e de se preocupar com outro, continuou. As missões de voluntariado tiveram o primeiro impacto aos 23 anos, num projeto de voluntariado missionário, em Luena, Angola, junto à fronteira com a Zâmbia. Por lá trabalhou com “retornados” angolanos, de regresso a casa após a guerra civil. A falta de tudo, do mais básico, foi um despertar de emoções e de consciência. Pedro Neto garante que veio de lá “transformado” e com a certeza que quando se quer muito, mesmo com pouco, pode “mudar-se o mundo para melhor”.

Esse processo fez com que se concretizasse o desígnio da ORBIS, uma ONG vocacionada a dar seguimento a um projeto de vida: “A minha experiência em Angola fez-me perceber que apesar de se terem conseguido fazer muitas coisas naquele período curto, que é sempre preciso mais tempo. Fazer mais. E isso só seria possível com a ORBIS. A ajuda do bispo António Marcelino foi fundamental. Ele era uma pessoa de resolver problemas, de não perder tempo com minudências.Tenho muito orgulho na ORBIS. Deu muito trabalho. Mas hoje, com a Viviane, como ontem, com a Elisa e a Cláudia, está quase adulta e continua a marcar a diferença”.

Do futebol à Amnistia

O futebol sempre foi importante ma vida de Pedro. Como todos os miúdos que crescem livres na rua, entre amigos, queria ser jogador. Não deu, como é fácil de perceber. Ainda assim, foi treinador de futsal, em Mira, tirou o curso, primeiro, o UEFA A, esteve no Beira-Mar, tirou o UEFA B e, já em Lisboa, estagiou no Estoril. Afastado, agora, consegue perceber, claramente, o que gosta na modalidade. E os ensinamentos que reteve e guarda para a vida. “O futebol sempre me encantou, sobretudo como desporto coletivo. É uma arte maior que tem dois objetivos principais: não sofrer golo e marcar golo. A metáfora do futebol é a vida, em sociedade. Depois, como treinador, espanta-me esse trabalho de liderança, o influenciar o que se passa lá dentro, sem entrar em campo”, explica, deixando, no entanto, uma ressalva. O que o motiva é o “lado do jogo”. Nunca o “dos mundiais do Catar e da Arábia Saudita”.

A ida para a Amnistia surgiu por acaso. O concurso para o lugar de Diretor Executivo foi aberto, e muitos amigos enviaram-lhe o anúncio. Pedro não concorreu de imediato. Mas uma sexta-feira, dia de folga, o tempo não estava bom para surfar e, então, decidiu começar a preencher o questionário, de catorze páginas.

“Submeti o processo e fui à vida”, admite, sem pensar que o telefone podia, realmente, vir a tocar. Mas tocou. Das cento e tal pessoas que concorreram, dez foram selecionados. O processo de recrutamento foi duro e frente a um júri constituído por sete pessoas, todas elas com um background e um currículo diferenciado.

Das dez, ficaram duas. O desafio foi lançado. Em 48 horas os candidatos finais tinham de apresentar algo que, agora, a equipa de Amnistia Internacional – Portugal demora dois meses a fazer. Um plano operacional e um orçamento para um ano. Pedro recorda esses momentos com saudade: “Foi um trabalho que contou com a ajuda de alguns amigos. E na apresentação, disse isso mesmo. Demonstrei, já aí, liderança e gestão de pessoas e expetativas. Correu bem”.

A chamada da escolha chegou. Mais um desafio de mudar de vida, de cidade. “Foi um passo de coragem”, assume. Os primeiros anos foram passados a resolver “problemas internos, próprios de organizações grandes, com pessoas diferentes e motivações distintas”. “Tive um professor em Aveiro, o Carlos Jalali, que dizia uma coisa simples, que é na faísca do choque entre duas pedras, que nasce a luz. Foi isso que aconteceu na Amnistia”.

De lá para cá, Pedro Neto diz que o crescimento da organização é evidente, tendo quintuplicado a sua dimensão e multiplicado o alcance do trabalho que a secção portuguesa faz em todo o mundo: “Está uma organização muito maior, conseguimos contribuir muito mais para o movimento internacional, para dar fundos a quem não consegue. Que tenhamos sempre capacidade financeira para fazer o nosso trabalho, e é um orgulho fazer parte de uma equipa que é cada vez mais relevante e uma voz da autoridade em termos de direitos humanos”.

Do que não esquece, ao que mudava num estalar de dedos

De todos estes anos, o responsável não esquece alguns momentos. Da angústia das inúmeras visitas às prisões portuguesas e as conversas com quem, às vezes por um erro isolado, viva a vida através das grades. Passando pela viagem à fronteira entre a Sérvia e a Hungria, e as histórias nuas e cruas de refugiados que tudo perderam (e fizeram a família perder) para chegarem à Europa e estarem, em pleno inverno, a viver em tendas, em condições miseráveis. Terminando, entre muitos outros exemplos, na viagem ao muro entre os Estados Unidos da América e o México, e os muitos episódios com crianças separadas dos pais.

O que é que, se conseguisse, com um estalar de dedos, mudava no mundo? Hoje, num segundo? A resposta é rápida e tem duas vertentes. A primeira mais local, em Portugal. “A questão da habitação é um direito humano fundamental. A falta de casa para tanta gente é o princípio para a falta de tantos outros direitos”. Depois, o que o tem levado várias vezes a intervir nos mais diversos órgãos de comunicação social. A guerra entre Israel e o Hamas. “É um conflito que dura há 70 anos. Ambos os povos, merecem ter paz. É urgente o cessar-fogo”.

O milagre da vida. O futuro

Deixou o seminário porque sempre quis ser pai. Agora, já o é. De um menino. Tudo valeu a pena, para Pedro Neto: “Ser pai é um milagre, quando geramos vida, aproxima-nos de Deus. É maravilhoso, avassalador e aterrador. Sentirmo-nos esmagados por tamanha responsabilidade. O meu filho teve um nascimento difícil e o arranque foi difícil, mas ele foi um lutador. E ter filhos, como um milagre de vida, aumenta também a responsabilidade. A minha, sim, mas a de todos. Que futuro queremos que os nossos tenham? Que mundo é que lhes vamos deixar? Há muito por e para fazer. Mas a mudança é possível. É sempre possível”.

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