É na Mizarela que encontro um jovem casal, na casa dos 30 anos, que se prepara para explorar o PR7 - Nas Escarpas da Mizarela, um percurso pedestre de oito quilómetros cujo itinerário os fará passar pelas aldeias da Ribeira e de Cabaços. São de Aveiro, como eu. Contam-me que ficaram hospedados em Arouca, onde, além do alojamento, deixaram alguns euros em cafés, um jantar e doces conventuais. Já percorreram outros trilhos da região e os Passadiços do Paiva. A famosa ponte suspensa, a 516 Arouca, 175 metros acima do Rio Paiva, está na sua lista de "coisas para fazer". Sendo a cidade o seu habitat comum, a natureza é um escape regular. “É bom para abrandar e fugir à confusão”, resume ela.
O PR7 pertence a uma rede concelhia de percursos pedestres: 14 de pequena rota (PR) e uma grande rota, o GR28, com 90 quilómetros. Porém, a principal atracção turística são os Passadiços do Paiva, que em 2025 assinalaram a sua primeira década de funcionamento com números impressionantes. Nesse período recebeu mais de 1,8 milhões de visitantes de vários países, facturando, graças às entradas pagas, quase dois milhões de euros.
Dados do município mostram que desde a inauguração, a 20 de junho de 2015, o percurso pela orla do Rio Paiva recebeu 1.896.915 visitantes, na sua maioria portugueses. Mas mais de 10% são estrangeiros, sobretudo de Espanha e França mas também da Alemanha, Reino Unido ou Estados Unidos da América.
O retorno financeiro para o concelho é medido pelos empregos e negócios gerados. Só no alojamento, os passadiços tiveram um impacto de oito milhões de euros. Em 2014, havia em Arouca 10 empreendimentos turísticos e apenas um alojamento local registado. Em meados de 2025, segundo a Câmara, existiam 28 empreendimentos turísticos e 140 unidades de alojamento local. Mas este número subiu até final do ano: de acordo com o Registo Nacional de Estabelecimentos de Alojamento Local, que consultei em Dezembro, estavam formalizados 143 alojamentos locais. No setor da animação turística os efeitos foram igualmente grandes – de um agente em 2014 para 23 em 2025, proporcionando atividades como caminhadas, canyoning, rafting ou passeios de jipe.
Uma dessas empresas é a Just Come. Com sede na capital do concelho, foi criada por Pedro Teixeira em 2015. “Desde jovem que pratico atividades de aventura”, diz, “o que me levou a perceber o potencial desta região”. Este operador nasceu numa altura em que, segundo Pedro, de 40 anos, quase não havia estruturas de apoio ao turismo. O seu conhecimento do território foi uma vantagem, assume. A Just Come, dedicada a atividades como canyoning, rafting ou passeios guiados, tem forte procura quer no mercado nacional quer no mercado exterior. Sessenta por cento dos clientes são estrangeiros, nota, de países como os Estados Unidos, Alemanha, França, Bélgica ou Países Baixos. A empresa atua especialmente no Verão. “Mas não só”, diz. Mesmo no pico da época baixa, de novembro a fevereiro, é procurado para atividades como o rafting, a descida um rio de águas bravas, neste caso o Rio Paiva, num barco insuflável. Pedro acredita que operadores como a Just Come desempenham um papel importante numa região crescentemente despovoada, sendo uma forma de manter uma réstia de vida na serra e de ajudar pequenos negócios locais. “Tentamos consumir tudo localmente, desde os produtos que oferecemos aos nossos clientes à reparação dos carros”, diz.
Meitriz é um pequeno aglomerado da freguesia de Covelo de Paivó e Janarde, a 20 quilómetros de Arouca. Acedo ao pequeno lugar través de uma estrada estreita. As poucas casas de xisto perfilam-se em socalcos. A aldeia foi esvaziada pela morte dos mais velhos e pela emigração. “Mas este ano regressaram sete pessoas, quatro delas menores, em idade de escola”, conta José Vinagre. Este homem de 59 anos é o proprietário de O Chouzal, um alojamento aberto no final de 2021 e que funciona numa casa recuperada. Apesar do isolamento - ou por causa dele -, o negócio sustenta-se. “Vem gente de meio mundo”, com portugueses e espanhóis à cabeça, mas também ingleses, norte-americanos ou canadianos, diz José, ele próprio de Meitriz. Julho e Agosto são os meses de maior procura, oferecendo um sopro de vida à aldeia.
Em Cabreiros e em todas as aldeias da serra abundam as casas vazias. Apresentam-se em diferentes estados de conservação, das sólidas às decrépitas. Nos sites imobiliários encontram-se algumas habitações à venda. Uma delas é casa em pedra restaurada numa "encantadora aldeia da Serra da Freita", um "refúgio ideal para quem valoriza tranquilidade e a natureza"; são 98 m² de área bruta de construção num lote de 678 m²; o preço são 160 mil euros (eram 175 mil). Outra, à venda por 50 mil euros, é uma casa habitável "mas a necessitar de obras de melhoramento interiores e exteriores", incluindo cinco terrenos agrícolas.
Um agente do sector comenta que é difícil saber ao certo se existem muitas casas no mercado. Nem todas as transações acontecem com a intermediação das empresas imobiliárias. Outro agente, da Imohouse, nota que existem muitas casas no mercado rural. “Mas não tantas quanto poderiam existir, não fosse a dificuldade em contactar proprietários ou localizar herdeiros”.
A empresa, descreve, especializou-se na venda de “imóveis rurais com história e autenticidade”. “Conhecemos profundamente o território e as suas pessoas, e temos contribuído para o repovoamento e revitalização das aldeias portuguesas”, diz-me. Segundo ele, a procura por este tipo de propriedades tem vindo a crescer, tanto por quem sonha com uma segunda habitação ou refúgio no campo como por quem decide mudar de vida e viver permanentemente em contacto com a natureza, trabalhando remotamente ou desenvolvendo novas atividades ligadas à região.
Contudo, assinala, este é um negócio que obedece a “critérios muito específicos”. O preço continua a ser um fator determinante, sendo cada vez mais difícil encontrar casas ou ruínas para recuperar por valores até 30 a 50 mil euros. Também a localização e os acessos pesam na decisão, uma vez que os compradores não pretendem ficar a mais de uma hora e meia da cidade ou do aeroporto e valorizam a proximidade de serviços essenciais, como farmácia, centro de saúde, mercados e restaurantes.
“Os nossos clientes”, explica, “procuram sobretudo autenticidade: edificações em granito ou xisto, que mantenham o carácter original e a identidade do lugar. Aldeias descaracterizadas, com construções em cimento ou ampliações em tijolo perdem o encanto que atrai quem quer reencontrar as suas origens e viver de forma simples, saudável e em comunidade”.
Neste contexto, o maior desafio continua a ser a angariação de propriedades. “Muitas pertencem a pessoas idosas que não sentem necessidade de vender ou são heranças antigas, cujos herdeiros perderam o contacto com a aldeia há décadas”, diz o agente. Concluindo: “se a oferta fosse mais abundante, os preços mais justos e houvesse maior flexibilidade das autoridades locais e centrais, o interior de Portugal teria hoje uma realidade bem diferente: mais viva, habitada e sustentável”.
Conduzo para Arouca com a Rádio Regional de Arouca sintonizada. Vou ao encontro de Victor Brandão, o proprietário das casas de Emproa, um lugar abandonado da serra. Quando lhe telefonei uns dias antes e me mostrei curioso sobre a aldeia, ele disse: "O melhor é irmos lá". Era isso que queria ouvir. Quero muito conhecer Emproa - fascinam-me lugares abandonados. Mas Emproa é um lugar quase impenetrável. Analiso o Google Maps e não descortino uma maneira fácil de lá chegar. Preciso de um guia, alguém que me leve lá, e ninguém melhor do que Víctor Brandão. Oferece-se prontamente para me escoltar.
Indica-me a morada da sua casa, no centro de Arouca, nas traseiras do antigo convento. Estaciono o carro na sua rua e ele vem ao meu encontro. O melhor, diz, é irmos na sua carrinha todo-o-terreno – daqui a meia hora perceberei porquê. Depois de um sábado de chuva ininterrupta, o domingo apresenta-se ameno e transparente. À medida que nos afastamos da vila as estradas tornam-se mais estreitas e mais desertas. Leva-me primeiro a Covelo de Paivó, outra pequena aldeia de montanha. Depois , a caminho de Emproa, imobiliza a carrinha na berma da estrada, dizendo-me para sair. Aponta, na parede de pedra do lado direito da estrada, para uma galeria cuja entrada está semi-obstruída pela vegetação. Mune-se de um pequeno cutelo que retira do interior do carro e corta as plantas pelos caules, tornando mais fácil a nossa passagem para o interior do túnel. “Cuidado com a cabeça”, avisa, e penetramos naquele corredor irregular de costas curvada, à luz das lanternas dos telemóveis. O túnel tem alguns metros de comprimento e Victor Brandão vai fazendo incidir o foco da luz nas suas paredes rochosas. O objetivo é encontrar volfrâmio, explica. Mas não tem sucesso.
Esta região era rica neste minério escuro e brilhante usado no fabrico de armamento durante a Segunda Guerra Mundial. Existiram duas grandes explorações: em Regoufe pelos ingleses e em Rio de Frades pelos alemães. No auge da atividade, as explorações mineiras eram autênticas cidades com milhares de pessoas. Em Rio de Frades, por exemplo, chegaram a laborar mais de três mil trabalhadores; e havia ainda, a somar a esses, os que faziam extrações ilegais. Ingleses e alemães foram introduzindo melhoramentos naquelas terras, criando estradas, estações elétricas, postos de socorro, consultórios médico, cantinas ou barbearias.
Victor Brandão vai contando a história destes locais enquanto conduz em direção a Emproa. Tenho um primeiro vislumbre da aldeia por entre as copas dos eucaliptos, num ponto alto da estrada. De repente, o condutor dá uma guinada para a esquerda, fazendo a carrinha abandonar o asfalto e entrar num estradão de terra batida, pedras e raízes por onde parece improvável circular. Mas não se detém, mesmo quando o percurso se parece tornar numa aventura perigosa por um caminho aos ziguezagues ladeado por precipícios de alguns metros. “Você não tem medo, pois não?”, pergunta o homem de 71 anos. “Parece um safari”, diz. Emproa fica aninhada no fundo de um vale, como se estivesse no ventre de uma mãe. Ao fim de muitos solavancos e com a ajuda da tracção às quatro rodas, finalmente chegamos a este paraíso incógnito.
O casario é pequeno, 11 casas. Pertencem todas à família de Victor Brandão, que ao longo dos anos as foi comprando uma a uma aos herdeiros dos donos originais, agora com as vidas organizadas em Lisboa e noutros locais distantes. O homem, que é médico, chegou a ir a Emproa de táxi para atender uma velha moradora. O interesse pela aldeia terá nascido aí. Quando comprou a primeira casa, juntamente com um irmão, a aldeia era habitada por um único casal. Ficou totalmente desabitada há 15 ou 20 anos, com a saída dos habitantes para o estrangeiro ou para lugares com empregos na indústria e noutros sectores florescentes. No seu pico chegaram a viver 14 famílias no lugar, dedicadas à agricultura, ao vinho e ao gado.
Os edifícios receberam obras de estabilização e estão seguros. “Não caem”, garante Victor Brandão enquanto roda uma chave que nos dá acesso ao interior de uma das habitações, ainda com algum do seu antigo mobiliário. Explica que a morte do irmão o desmotivou e fez travar o projecto de recuperação da aldeia. O objetivo agora é vender as casas. “Emproa é um diamante por lapidar”, assume, “mas é preciso poder económico”.
Deambulamos uns minutos pela aldeia, atravessada por um ribeiro e rodeada por sobreiros, pinheiros, amieiros, carvalhos, castanheiros, figueiras ou eucaliptos. “Ali era a capela”, aponta. A parafernália religiosa foi entretanto transferida para a igreja de Covelo de Paivó.
Voltamos à carrinha, uma máquina robusta capaz de atravessar os terrenos mais traiçoeiros. Outra vez aos abanões, percorremos o estradão sinuoso que torna quase impraticável até o ato de conversar. Mostra-me, antes de nos devolver à estrada alcatroada, um antigo apiário de pedra com a arquitetura de um ovo. O homem, que é o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Arouca, conduz-nos de volta à vila. Recebe um telefonema. É alguém que precisa dos seus cuidados. Agradece o meu interesse por Emproa e despede-se de mim.