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O poder da palavra do Presidente

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Com a chegada de António José Seguro, o estilo de comunicação presidencial promete ser diferente do de Marcelo Rebelo de Sousa, mais ponderado e estratégico.

Depois de uma década marcada, em Belém, por um estilo e formato de comunicar singular do anterior Presidente, quase imprevisível na forma como se dirigia aos portugueses, Marcelo surpreendeu no início, foi útil em momentos dramáticos da vida do país, mas, em larga medida, o que fica da sua palavra, em grande parte dos 3.652 dias da sua presidência é uma nébula, que só o distanciamento e a história poderão clarificar.

No palco político a palavra é um dos mais importantes recursos para a boa execução dos mandatos. Mas esta, conjuga-se com outros dois vetores essenciais, que lhe dão forma e sentido: o tempo e o espaço.

Estes dois verticais da comunicação política são, em grande parte das vezes, mais importantes para o sucesso da mensagem, do que realmente o seu conteúdo.

Vamos então aos exemplos e às regras que mudam integralmente o poder da palavra presidencial:

  1. Marcelo falava quase todos os dias e muitas das vezes, falava várias vezes ao dia. António José Seguro, nestes primeiros dez dias de presidência, falou pouco e quando falou foi apenas uma vez no dia.

Enquanto o anterior Presidente era o responsável por banalizar e autoconsumir a sua própria mensagem, com novas declarações a cada hora, que extinguiam o efeito das anteriores, Seguro procura que as suas declarações tenham eco e repercussão na classe política e nos cidadãos.

E a melhor forma para o fazer é mesmo permitir que a mensagem perdure, antes de novas declarações. Este é um princípio fundamental para o sucesso do cargo e que o novo Presidente tem aplicado.

  1. O antigo PR, além de falar muitas vezes, prestava declarações em qualquer local, com microfones à volta da cara, no meio da confusão de acontecimentos que por vezes se sucediam no espaço onde se encontrava.

Agora veja-se o que já fez no novo PR? Quando falou com os jornalistas no seu segundo dia de presidência, na Mourísia, fê-lo de forma cuidada:

-       tinha um único microfone posicionado para recolha do seu discurso;

-       cuidou do tempo da declaração – feita ao final da manhã para garantir que tinha eco nos noticiários do resto do dia e para que a imprensa escrita pudesse tratar de escrever com previsibilidade sobres os temas abordados, nas edições que foram para as bancas no dia seguinte;

-       Seguro fez-se ladear pelos autarcas locais mostrando proximidade, respeito institucional e de Estado;

-       E um factor muito importante: escolheu como fundo a paisagem do território, fazendo coincidir as suas palavras sobre a importância de dar respostas (que ainda faltam) aos territórios assolados pelas chamas no verão do ano passado, com o cenário natural escolhido.

Tudo isto podem parecer pormenores, mas é a forma de comunicar que faz toda a diferença em política.

  1. Por último, a previsibilidade. Foi o que acabei de descrever neste segundo exemplo.

A agenda foi cumprida como previsto. Os órgãos de comunicação social sabiam onde, como, com quem e com que propósito estava o novo PR a cumprir a sua agenda. Sabiam também quando ia falar, evitando atropelos pelo soundbite e ainda mais importante, protegendo a intervenção do Presidente.

A previsibilidade é um valor fundamental da ação política presidencial.

Mais do que falar muito para manter o espaço mediático, é mais relevante saber como e quando falar, com um fim e um propósito bem definidos, diminuindo em larga escala a probabilidade de declarações descontextualizadas, sem profundidade ou com falta de preparação técnica e política. Aqui, mais uma enorme diferença entre Marcelo e Seguro.

Em conclusão, a eficácia da comunicação presidencial é definida por dois eixos de medição: a exposição mediática e a força da mensagem que queremos transmitir (ver gráfico).

 

Quanto maior é a exposição, maior é o risco da nossa mensagem perder o seu poder e a sua força influenciadora.

Ao inverso, quanto menor for a exposição mediática da mensagem de um Presidente da República, maior se torna a força das suas declarações e por conseguinte a força da sua magistratura de influência.

Obviamente que este princípio não pode ser levado ao extremo da falta de exposição, porque nesse caso enfrentamos um problema de ausência da expressão do PR, com consequências políticas agregadas.

É por isso que é tão importante que esta gestão seja feita de forma ponderada, atenta e permanente.

Este princípio não pode ser aplicado a outros cargos ou funções políticas da mesma forma. Até porque no caso de um Primeiro-Ministro, Ministro, Deputado ou Presidente de Câmara a natureza das funções é eminentemente diferente da do Presidente da República.

Mas este e outros assuntos que aqui abordei de forma lateral ficam para as próximas rubricas.

  

* Simão Santana é consultor de comunicação

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