Há um traço curioso no nosso tempo: nunca se falou tanto das instituições e, ao mesmo tempo, raramente se falou delas com tão pouca confiança.
A justiça, a política, as autarquias, os serviços públicos, as forças de segurança, as instituições sociais, todas parecem viver permanentemente sob suspeita. Cada notícia, cada caso mediático, cada polémica transforma-se rapidamente em mais um argumento para confirmar uma ideia que muitos repetem quase como reflexo: “isto não funciona.”
É um sentimento que se espalha com facilidade. Talvez porque a desconfiança tem uma enorme capacidade de contágio. Basta um episódio, uma suspeita ou uma narrativa forte para que se generalize a ideia de que todo o sistema está comprometido.
Mas há um paradoxo silencioso nesta perceção coletiva.
Apesar de todas as críticas, algumas justas, outras precipitadas, o país continua a funcionar todos os dias. Os tribunais continuam a julgar processos, mesmo que mais devagar do que desejaríamos. As autarquias continuam a resolver problemas concretos das comunidades. As instituições sociais continuam a cuidar de quem mais precisa. Os bombeiros continuam a responder a emergências. Os serviços públicos continuam a atender milhões de pessoas.
Nada disto faz grandes manchetes.
Talvez porque o normal não seja notícia. O que funciona raramente gera destaque; o que falha, sim.
E, no entanto, é precisamente esse funcionamento silencioso que sustenta a vida coletiva. O Estado, e a comunidade que o compõe, vive muito mais do trabalho quotidiano de milhares de profissionais do que das polémicas que ocupam os espaços mediáticos.
Isto não significa, evidentemente, que tudo esteja bem. A crítica é necessária. A exigência pública é saudável. A transparência é indispensável. As instituições só se fortalecem quando aceitam ser escrutinadas.
O problema começa quando o escrutínio se transforma numa suspeita permanente e indistinta. Quando se passa da crítica concreta à desconfiança generalizada. Quando cada caso deixa de ser um caso para passar a ser prova de que “nada presta”.
Esse clima tem consequências.
A confiança é um dos recursos mais valiosos de qualquer sociedade. Não aparece nos orçamentos nem nas estatísticas económicas, mas sem ela tudo se torna mais difícil. As decisões públicas tornam-se mais contestadas, a autoridade das instituições fragiliza-se e a relação entre cidadãos e Estado entra num ciclo de permanente tensão.
Construir confiança leva anos. Perdê-la pode levar apenas um momento.
Talvez por isso valha a pena lembrar algo simples: as instituições não são abstrações distantes. São feitas de pessoas. De profissionais que, na esmagadora maioria dos casos, trabalham com seriedade, muitas vezes longe dos holofotes e quase sempre sem reconhecimento público.
Há juízes que estudam processos durante noites inteiras. Técnicos de segurança social que lidam diariamente com histórias difíceis. Autarcas que resolvem problemas concretos das suas comunidades. Funcionários públicos que fazem muito mais do que aquilo que aparece nas caricaturas fáceis do discurso político.
Esse país existe. E é muito maior do que imaginamos.
Talvez o desafio do nosso tempo seja precisamente este: encontrar um equilíbrio entre a crítica e a confiança. Entre a vigilância democrática e o reconhecimento do trabalho que sustenta a vida coletiva.
Uma democracia saudável não é aquela em que ninguém questiona as instituições. Mas também não é aquela em que ninguém acredita nelas.
Entre a ingenuidade e o cinismo existe um espaço mais exigente: o da confiança responsável.
É nesse espaço, frágil, mas essencial, que se constrói, todos os dias, a verdadeira República.