João Ribeiro
Membro do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Aveiro
A política, na sua essência mais pura, é o exercício da dignidade e da responsabilidade perante o bem comum, um espaço onde a palavra empenhada deve ser o reflexo fiel do carácter. Quando essa palavra se torna volúvel, moldando-se conforme o vento das conveniências, assistimos não a um acto de maturidade, mas ao desmoronamento da ética que sustenta a confiança entre eleitos e eleitores.
Há respostas que não merecem ser escritas, mas precisamente por isso têm de o ser. A resposta de Diogo Machado (AveiroMag, 13 de Abril), embora revestida de um sarcasmo que procura desviar o foco do essencial, apenas confirma a “volatilidade axiológica” anteriormente denunciada. É imperativo recordar que a história, mestre da memória longa, ensina-nos que a traição aos princípios nunca é verdadeiramente recompensada com a honra.
O Sr. Machado começa por se indignar com a invocação de Platão, achando-a desproporcionada. É uma crítica legítima, e até certo ponto compreensível, vinda de quem aparentemente prefere a política sem referências filosóficas. Mas há uma ironia que não deve passar em branco, ao responder a um artigo sobre ética e volatilidade axiológica, o Sr. Machado não se deteve nas palavras ética nem volatilidade. Deteve-se no autor. Atacou a pessoa. Ignorou, com a destreza do prestidigitador, aquilo que era incontornável: as suas próprias palavras de ontem, agora confrontadas com as suas posturas de hoje.
Não respondeu às citações. Não explicou como é que a “cobardia política” que imputou a Luís Souto Miranda se tornou, de repente, compatível com a colaboração que agora anuncia. Não esclareceu como o “estaleiro de desmandos e desvarios” se converteu num projecto de governo digno da sua participação. Não disse, em nenhuma linha, por que razão a linha “inegociável” tinha preço. Fez o que os que não têm argumentos invariavelmente fazem: virou o alvo.
Ao transitar do papel de fiscalizador implacável — que acusava o executivo de “cobardia política” e de “pactuar com comportamentos ilegais” — para o de aliado de conveniência, Diogo Machado não é o realismo político: é o sacrifício da transparência no altar do pragmatismo pessoal. Quem prometeu que não seria “manietado” e que lutaria contra um “estaleiro de desmandos” prepara-se agora para sustentar a factura dessa mesma gestão que jurou combater. A tentativa de justificar esta inversão de 180 graus através de episódios do passado de outros partidos é uma falácia que em nada atenua a traição directa aos seus próprios eleitores, que nele depositaram confiança para ser uma alternativa, e não uma muleta de sobrevivência.
Existe, na história antiga, uma máxima que os romanos aprenderam à custa de sangue, numa guerra que a Península Ibérica recorda com orgulho. Em 139 a.C., após anos de resistência indomável de Viriato contra as legiões romanas, Roma não o venceu no campo de batalha: comprou, com ouro e promessas, os seus próprios generais. Três homens da confiança de Viriato — Áudax, Ditalco e Minuro — assassinaram-no enquanto dormia. Foram a Roma reclamar recompensa. A resposta do Senado entrou para a história: Roma traditoribus non praemia. Roma não paga a traidores. Os eleitores de Aveiro que confiaram a sua voz ao Sr. Machado não são Roma, mas a máxima serve-lhes com igual perfeição. A traição de quem os representa não tem preço, e não tem recompensa: tem apenas o veredicto das urnas na hora certa.
A ética não é um discurso de campanha. Não é um adorno que se exibe na praça e se guarda na gaveta quando o poder bate à porta. É uma prática quotidiana, uma consistência entre o que se diz e o que se faz, entre as promessas dadas e as decisões tomadas. O que os eleitores do Sr. Machado esperavam, e tinham o direito de esperar, não era perfeição. Era coerência. Era que as palavras ditas em público sobrevivessem à solidão do gabinete.
Quando as palavras mudam de sentido consoante a conveniência, quando a indignante falta de transparência de ontem é a parceria estratégica de amanhã, quando a “coragem para mudar” revela ter, afinal, a plasticidade de quem encontrou uma forma de estar no poder sem o risco de transformar, é justo e necessário que alguém o diga. Não por gosto da polémica. Mas porque a democracia só funciona quando o controlo público dos eleitos é uma prática aceite e não uma ofensa a suportar.
Quanto ao registo que a resposta do Sr. Machado assume, há confrontos que se assemelham a descer à lama, à semelhança de um dócil animal doméstico célebre pela afinidade com a sujidade desse meio: o desfecho é previsível, ninguém sai limpo, com a particularidade de que há quem nele encontre genuíno deleite — e esse alguém, pode ter-se por certo, não será quem estas linhas assina. Não é descendo ao nível que a resposta sugere que este debate se trava. O debate que Aveiro merece não se trava com ataques fáceis e golpes pessoais; trava-se com argumentos, com consistência e com o respeito que os cidadãos, enquanto destinatários da governação, sempre merecem.
Os argumentos apresentados assentam nas palavras públicas do próprio Sr. Machado, devidamente citadas. A correspondência entre essas palavras e os factos entretanto conhecidos dispensa comentário adicional. Os aveirenses são inteligentes o suficiente para tirar as suas conclusões, e essas conclusões não precisam de ser impostas por ninguém.
O que está em causa em Aveiro não é uma questão de aritmética partidária, mas a preservação do sublime na política. Aveiro merece representantes que não enfiem a espada da indignação na bainha do compromisso fácil. A virtude que negoceia os seus fundamentos deixa de ser virtude para se tornar mercadoria. A soberania popular é um mandato de confiança, e quando essa confiança é transaccionada por um lugar no elenco camarário, o prejuízo não é apenas de um partido, mas de toda a saúde democrática da nossa polis.
Resta o que, verdadeiramente, importa: Aveiro merece políticos que façam da moralidade pública um hábito, e não um improviso de campanha. Que mantenham o mesmo fio condutor entre a oposição e o exercício do poder. Que lembrem que os eleitores não votam em projectos que afinal se rendem, nem confiam palavras que afinal se vendem. A moralidade não é um luxo da política: é o seu fundamento. Quando ela falta, o que resta é apenas a arte de administrar a decepção.
Ao Sr. Machado, desejo genuinamente que as suas escolhas provem os meus artigos errados. Aveiro beneficiaria imenso disso. E eu, de bom grado, seria o primeiro a reconhecê-lo.
* O autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico