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O imaginário das cerâmicas, numa peça que leva a palco a comunidade

Artes

Sobe hoje a palco, pela primeira vez, no Teatro Aveirense, o espetáculo “Como Boca-de-Barro Ganhou o Seu Apelido”. Esta peça de teatro, escrita e encenada por Jorge Louraço Figueira e desenvolvida por artistas profissionais em conjunto com a comunidade aveirense, faz parte do projeto de intervenção artística “As Sete Vidas da Argila” que também integra o documentário “Vozes e Retratos das Fábricas de Cerâmica da Ria” sobre as experiências de quem deu ou dá vida às fábricas de cerâmica da região.

Aveiro é uma das regiões cerâmicas mais antigas do país. As suas características geológicas – é uma zona rica em argilas –, bem como a rede de comunicações terrestre e marítima foram atributos fundamentais para o desenvolvimento desta indústria e para o aparecimento, ao longo do tempo e um pouco por todo território da região, de várias unidades industriais ligadas ao setor. Fábricas como a emblemática Vista Alegre, fundada em 1824, mas também a Jerónimo Pereira Campos, a Fonte Nova ou a Aleluia assumiram papéis de grande destaque na transformação da região, tocando as vidas de cada operário que nelas trabalhou e, mesmo nos dias de hoje, apesar de algumas já nem sequer existirem, estas unidades continuam a marcar a história, as memórias e o imaginário de comunidades inteiras.

O projeto “As Sete Vidas da Argila” inaugura o ciclo Slow Motion, a nova linha programática promovida pelo Teatro Aveirense cujo mote passa por, anualmente, convidar um artista a criar, em conjunto com a comunidade, produtos originais sobre os temas da memória e da identidade locais. Tendo esta premissa em consideração, não é de estranhar que a escolha tenha recaído sobre a indústria cerâmica e as dinâmicas vividas por várias gerações de aveirenses nas unidades fabris daquele setor.

Apesar de ter nascido com o nome “Fábrica” – era esta a designação do projeto aquando do seu arranque –, acabaria por ser rebatizado com o nome “As Sete Vidas da Argila”, uma alusão, segundo Jorge Louraço Figueira, às “muitas encarnações da argila” naquele que é o ciclo de vida da cerâmica. “ passa da terra às mãos de quem a trabalha, vai ao forno e depois às casas e depois às mesas e daí às bocas das pessoas. Além disso, a composição das pastas determina o tipo de cerâmica que se produz, as peças são diferentes conforme a temperatura e conforme a mistura”, explica.

Todavia, de acordo com o diretor artístico deste projeto, quando se fala n’As Sete Vidas da Argila, “estamos também a falar das sete vidas ou das sete fases da vida de uma pessoa, desde o tempo de gestação até à velhice”. “Desde o início, o nosso interesse estava na fábrica como lugar onde se fabricam coisas, mas também enquanto lugar onde se fabrica o fabricador, onde cada operário é mais uma das peças ali formadas, pelas experiências sociais que ali vive, pela experiência económica de quem depende da fábrica para sobreviver e pela própria participação da vida da comunidade fabril”, explica Jorge. “Esse paralelismo entre a vida das peças de cerâmica e a vida das pessoas foi o que mais nos interessou”, reconhece.

Em palco, vai estar Sara Henriques, atriz da Red Cloud Teatro de Marionetas, e cerca de duas dezenas de atrizes amadoras da comunidade aveirense que responderam ao desafio que Jorge e a sua equipa lançaram no início deste ano, para que participassem na criação de um espetáculo de teatro desenvolvido a partir das fábricas de cerâmica da região e dos testemunhos dos seus operários. “Muitas destas mulheres têm ligação direta – trabalharam ou ainda trabalham nestas fábricas – ou indireta – os pais trabalharam na indústria cerâmica e elas acompanharam de perto essas vivências – com este universo, pelo que acabaram por ser mediadoras entre as histórias das fábricas e a história da ficção”, afirma Jorge, que escreveu cada personagem a pensar na atriz que a vai interpretar.

Reconhecendo a generosidade e a entrega, mas também o talento destas mulheres, o encenador não tem dúvidas: “Algumas delas só não são atrizes profissionais porque a vida as levou por outro caminho. Porventura, se tivessem nascido uma geração mais tarde, já teriam seguido teatro, já teriam ido para uma escola artística. O verdadeiro espetáculo é ter este grupo de mulheres em palco. A energia delas enquanto coletivo é impressionante”.

Com a ação situada em meados dos anos de 1950 e “um toque de comédia musical” – com canções originais e música ao vivo – “Como Boca-de-Barro Ganhou o Seu Apelido” começa no dia de aniversário daquela que, nesta história, é a fábrica de cerâmica mais antiga da região. Sublinhe-se que “esta é uma obra de ficção, ainda que, não raras vezes, “a ficção cruza-se com a realidade. Jorge garante: “Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”. “A fábrica não é só a Aleluia, não é só a Jerónimo Campos, não é só a Fonte Nova, não é só a Vista Alegre... É uma mistura de todas elas, uma espécie de tipificação das fábricas de cerâmica da região da Ria”, esclarece. “E isso só foi possível porque, apesar de umas se dedicarem à louça utilitária, outras à louça artística, de umas produzirem tijolo, outras telha ou azulejo, as vivências sociais em cada uma dessas fábricas eram muito intensas e tinham vários pontos em comum”, assegura.

O dramaturgo e encenador admite que, à partida para esta jornada, nutria uma certa “curiosidade ingénua” relativamente à cerâmica, universo ao qual, desde pequeno, associa memóriasde afetos, conforto e das férias em família, e que, só com o desenvolvimento deste projeto, passa a conhecer melhor.

Apesar de ser natural da Nazaré, Jorge passou alguns verões da sua infância em Águeda, em casa de “um tio ceramista”. “Já o meu avô fazia figuras de barro, na Nazaré, e esse meu tio, além de professor de Belas Artes, em Lisboa, também se dedica à cerâmica”, partilha Jorge. “Lembro-me distintamente de visitarmos uma das fábricas ”, recorda, a propósito de uma dessas férias pela região.

Com o trabalho de pesquisa para preparação deste projeto e, principalmente, com os testemunhos, as histórias e as partilhas do elenco, Jorge pôde perceber, por exemplo, que “as cerâmicas em Aveiro eram uma espécie de grandes oficinas em que os operários eram trabalhadores especializados e as fábricas dependiam em grande medida do seu conhecimento, sensibilidade e formação cultural e artística”. Essa é, aliás, no entender de Jorge, “uma das razões para as fábricas terem sido como foram e também para Aveiro ser como é: uma cidade com uma pulsação cultural muito própria”.

O processo de criação deste espetáculo de teatro implicou uma cuidada pesquisa pelas unidades industriais da região, assim como pelas comunidades onde estas estão implantadas. Ao longo desse processo, foram gravados testemunhos e captadas imagens e sons, materiais que, associados ao espólio documental e fotográfico partilhado por antigos trabalhadores e pelas próprias empresas, deram origem a uma espécie de viagem no tempo em forma de documentário. A partir da ideia original de Jorge Louraço Figueira, e com realização e montagem de Sofia Saldanha e João Garcia Neto, “Vozes e Retratos das Fábricas de Cerâmica da Ria” será o segundo elemento deste projeto díptico que é “As Sete Vidas da Argila”. O documentário tem estreia prevista para o próximo mês de novembro.

Quanto à peça, estreia hoje, às 21h30, no Teatro Aveirense, e tem novas sessões marcadas para amanhã e sábado, à mesma hora. Os bilhetes podem ser adquiridos através da TicketLine.

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