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“A Anomalia”, uma leitura que não deixa ninguém indiferente!

Opinião

A páginas tantas

Filipa Matias Magalhães*

Imaginem uma mistura da série “Lost” com o filme “Matrix” e adicionem uma análise descomplicada e divertida da filosofia da Gottfried Leibniz: somos o produto ou o reflexo da sociedade? Será que somos nós que determinamos a nossa vida, ou fazemos parte de um plano ou experiência superior, em que já está tudo decidido? Agora, adicionem várias histórias de personagens, muito diferentes entre si, mas com características atuais e algo complexas, e ainda com uma crítica muito mordaz e cheia de humor aos grandes pilares da sociedade atual: política, religião, ciência e o quarto poder. Estes são os ingredientes-chave de "A Anomalia", livro que, considero, um dos melhores que li em 2021.

Este romance, que é também um thriller, ganhou um dos mais prestigiados prémios da literatura em França e recorre a um puzzle de várias pequenas – embora complexas – histórias de vida, para nos colocar algumas das perguntas às quais a filosofia, desde sempre, se tem dedicado: “E se??”; “E se aquilo que julgamos ser realidade não passar de uma ilusão?”; “E se tudo o que vivemos não passar de uma fantasia e uma ilusão e nós formos meros fantoches numa orquestra perfeitamente afinada?”. Estas, são apenas algumas das perguntas que o livro nos vai colocando, recorrendo para isso a histórias contadas com grande perspicácia e sentido de humor e pontuadas por uma crítica social – em particular da sociedade norte americana - muito interessante e atual.

Achei a escrita muito envolvente e de fácil leitura – a tradutora fez um excelente trabalho! – mas o que mais me cativou neste livro foi a forma subtil e inesperada como surgem os comentários e críticas mais mordazes e divertidas às personagens e a tudo o que elas representam, bem como à sociedade atual e aos seus grandes pilares. Foram muitas as vezes em que me ri com as pérolas de ironia com que o autor, sem que nada o fizesse prever, me ia surpreendendo, dando quase a ideia de estar atrás de cada página a piscar-me um olho para ver se estava atenta à mensagem que queria passar.

“A Anomalia” reúne algumas das características que mais aprecio num bom livro: é uma manta de retalhos de várias histórias, muito realistas e contadas com grande sentido de humor e mordacidade e que recorre à ironia na construção das personagens e à crítica da sociedade, para nos desafiar à reflexão sobre questões importantes da vida, como o amor, o sucesso, a família, a morte, a política, a religião, entre tantas outras.

Embora nos últimos anos nos tenhamos habituado a considerar real, tudo aquilo que há dois anos não passaria de uma ficção, este livro vai mais longe do que esta análise distópica, e coloca-nos um outro desafio: imaginar se a nossa existência não passará de uma ficção, ilusão ou até mesmo de uma experiência levada a cabo por uma ordem superior. E para nos arrancar da letargia, o autor recorre a pequenas histórias realistas e divertidas e lança, propositadamente, a confusão para deixar no ar a ideia da Teoria da Conspiração, que vai construindo e desconstruindo ao longo da história.

A história parte de um evento que vem mudar a vida dos passageiros que seguiam a bordo do voo Paris-Nova Iorque que, em junho de 2021, é apanhado numa tempestade. Este fenómeno que, em si, nada tem de transcendente, é o gatilho para criar uma realidade paralela, ficcionando duas aterragens do mesmo voo nos EUA: uma vez em março de 2021 e outra em junho de 2021. Estes três meses que separam as duas aterragens catapultam-nos para esta máquina do tempo em que os passageiros têm a oportunidade de questionar sobre sua existência, a realidade da sua vida e colocar a si próprios – e nós seguimos também a bordo dessa reflexão – grandes questões da filosofia e da vida: “E se tudo não passar de uma ilusão?”. “Podemos ter uma segunda oportunidade?”

A história centra-se nos dois momentos que sucedem às suas aterragens: dois momentos distintos, separados entre si por 3 meses, e os mesmos passageiros e não necessariamente a mesma história. Qual a cópia e o original?

É aqui, que entra a análise critica sobre a forma como a sociedade americana reage às situações que fogem ao seu controlo e entendimento. Para responder a esta insólita situação, são convocados vários especialistas, desde os especialistas em segurança, aos representantes políticos, grupos religiosos e o quarto poder e é muito interessante acompanhar a forma como cada um, nas suas áreas do conhecimento, vai respondendo às grandes questões colocadas e que ultrapassam muito a insólita situação do voo. Chegamos mesmo a pensar de o pretexto destas duas aterragens não será a oportunidade para analisar a sociedade e as suas instituições.

Nem o Presidente escapa a esta crítica e mais uma vez o autor brinca com as palavras e a ideia de sermos o reflexo ou o anverso da sociedade: “O Presidente americano mantém-se imóvel, como que aturdido. O matemático observa aquele homem primário e confirma a ideia desesperante de que a soma das obscuridades individuais raramente se traduz numa luz coletiva.”

É muito interessante a densidade das personagens, construída de forma que sintamos pontos de conexão e de afastamento com cada uma delas. Todas elas têm em comum, não só o facto de seguirem a bordo do mesmo voo mas, sobretudo, o facto de todas sentirem que vivem uma vida secreta, que tentam a todo o custo esconder, o que faz delas personagens densas. Das doze personagens principais, cuja vida, história e angustias vamos conhecendo através de entrevistas e relatos feitos pelas próprias e por aqueles que lhes são próximos, cartas e emails, destacam-se quatro que têm a capacidade de reunir características completamente antagónicas e com as quais é inevitável que nos identifiquemos, não obstante também tenham características que tendemos a recusar, como a ganância desmedida e sem escrúpulos, o sentimento de frustração permanente, a luta para corresponder ao que os outros esperam de nós e o viver num mundo de aparências.

Deixo-vos apenas o appetizer para conhecerem algumas das personagens mais interessantes do livro. Blake, conjuga duas realidades: assassino a soldo para ganhar a vida e dedicado pai de família, por vocação; Slimboy, a personificação perfeita do popstar, que está cansado de viver na mentira, da qual não se consegue libertar, e incapaz de lidar com a realidade; Joanna, uma advogada de sucesso, cujos erros e escolhas a levam para um caminho do qual quer sair; e Victor Miesel, um tradutor e autor frustrado e desconhecido que no voo tem uma epifania e escreve o grande e ultimo sucesso da sua vida – A Anomalia.

O autor serve-se das personagens e do relato das suas vidas e das pequenas histórias que nos vai contando, para abordar de forma simples e descontraída grandes questões, como acontece com a ética e a moral e os seus limites e a história do diabo e do advogado:

“«Como é a história? Ah, sim. O diabo entra no gabinete de um advogado e diz-lhe: «Bom dia, sou o diabo. Tenho um negócio a propor-lhe.» «Diga, estou a ouvir.» «Vou fazer de si o advogado mais rico do mundo. Em troca, dá-me a sua alma, a alma dos seus pais, a dos seus filhos e a dos seus cinco melhores amigos.» O advogado olha para ele com ar espantado e responde: «Está bem, qual é o senão?»”

O livro é salpicado por pequenas histórias como esta que têm a capacidade de nos fazer rir e nos interpelam a pensar. O autor dá-nos a oportunidade e legitimidade para questionarmos e filosofarmos sem nunca ter a pretensão de fazer juízos de valor ou de adotar uma postura mais moralista.

Hervé le Tellier tem uma enorme habilidade para brincar com as palavras, as ideias e a vida das pessoas, recorrendo ao humor e ironia para descrever, de forma densa mas, simultaneamente, divertida, as suas personagens e as mensagens que estas nos querem passar. O autor diverte-se a lançar a confusão de forma a deixar no ar várias hipóteses para nos fazer pensar e alternando momentos em que deixa no ar a ideia de que somos o produto e o reflexo da sociedade, quase de forma determinística. “Mas, quando as pilhas do telecomando morrem, carregamos sempre com mais força nos botões. É humano.” Outras vezes, porém, neste jogo de contradições, permite-nos a ousadia de pensar que podemos ter uma segunda oportunidade e construir a nossa história. “Até porque, como bem sabem, quando temos um martelo, tudo acaba por nos parecer um prego.”

Esta dança entre a ideia de que somos o produto e o reflexo da sociedade ou que esta é o nosso produto, vai alternando para nos fazer pensar…. e nenhuma das respostas está necessariamente errada.

Para os mais pessimistas, ficará no ar a ideia da teoria da conspiração, de que a vida pode não passar de um jogo e de uma ilusão e que nada podemos fazer para alterar essa situação. Os mais otimistas, poderão ficar animados com a ideia de uma segunda oportunidade e que estará sempre ao nosso alcance mudar de rumo e reescrever a nossa história.

Garanto-vos uma leitura que vos vai interpelar com muitas questões e que vos vai agarrar com as suas muitas histórias divertidas e um sentido de humor muito peculiar. Boas leituras!

* Escreve, quinzenalmente, a crónica literária “A páginas tantas”
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