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“Balada para Sophie”, uma novela gráfica sobre a vida

Opinião

A páginas tantas

Filipa Matias Magalhães*

Descobri o ano passado o gosto pelas novelas gráficas e pelas histórias que contam e, sobretudo, pelas histórias que nos permitem imaginar e acrescentar às primeiras.

“Balada para Sophie”, da autoria de Filipe Melo com ilustrações do argentino Juan Cavia, venceu muito justamente o prémio de melhor banda desenhada de autor português do festival Amadora BD 2021.

Este livro surge com o objetivo de homenagear Beatriz Lebre, uma jovem estudante universitária de Psicologia no ISCTE-IUL, que terá sido assassinada por um colega que alegadamente pretendia, sem sucesso, manter uma relação com ela. Beatriz era uma apaixonada por música e uma excelente pianista, mas também uma apaixonada por cinema e teatro e desapareceu com apenas 23 anos deixando uma história de talento por contar e tantas histórias para viver.

Esta história, contada através de diálogos e de memórias, mas também de ilustrações belíssimas, leva-nos a percorrer o turbilhão de emoções que é a vida dos dois protagonistas, mas que podia ser o turbilhão da nossa vida.

O ponto de partida desta história é um concurso de talentos para jovens pianistas que coloca em confronto o nosso protagonista e o seu rival. Esta rivalidade vai assentar não só no desejo comum pelo mesmo objetivo – nesse e noutros futuros concursos – mas sobretudo pela forma distinta como o percurso de ambos é traçado, numa referência irónica ao custo da fama. A história põe em confronto dois pianistas franceses – François Samson e Julien Dubois – e conta-nos o seu caminho distinto em direção à fama e ao sucesso: François Samson, um talentoso pianista, pobre, mas muito trabalhador e apaixonado pela música, trava uma luta contra a adversidade financeira e contra os obstáculos que a ausência de estatuto social e de dinheiro lhe colocam. Todavia, o seu talento é superior a tudo isso e acaba por alcançar a merecida e muito honesta fama. O autor aborda de forma leve e muito interessante a oposição entre o talento e a sorte como alicerces do sucesso, colocando em contradição a vida e o percurso de Francois Samson com a do protagonista principal da história, Julien Dubois, um herdeiro rico de uma família em decadência, que percorre um caminho na mesma direção, mas com diferente motivação. Pressionado pela mãe, que projeta as suas frustrações no filho, e obrigado a trabalhar para suportar os vícios e a aparência luxuosa da vida da mãe, Julien alcança a fama a todo o custo – desviando-se do seu caminho para tocar músicas mais comerciais -, mas uma fama um pouco desregrada e ondo os mais diversos vícios o acompanham. Dois caminhos distintos que permitem abordar duas formas distintas de alcançar a fama e tratar o talento e… também…. dois desfechos tão distintos.

Mais do que uma história sobre o talento, a fama e o sucesso, esta é também uma história sobre o amor, a paixão, o dinheiro, a fama e o talento e a importância de cada um tem na nossa felicidade.

O percurso de Julien que, sob o pseudónimo “Eric Bonjour” inicia um percurso na música “vendável” que lhe dá muito dinheiro a ganhar mas também o transforma num fantoche dos produtores e o empurra para uma vida de vícios e destituída de sentido, não deixa de ser uma forma interessante de nos colocar a questão sobre o preço da fama e uma referência bem humorada ao mundo da musica “plástica e comercial” e à forma como é construída e pensada para vender, desviando-se muito da “verdadeira música” e da arte na sua essência.

Julien Dubois vive toda a sua vida na sombra do pianista rival e na impossibilidade de alcançar os seus sucessos – que inveja – vai-se desviando da sua essência para o caminho da facilidade, da fama fácil e da destruição moral. A rivalidade entre ambos os pianistas estende-se também ao amor pela mesma bailarina, uma paixão arrebatadora que invade Julien e que deixa frutos mas que não o acompanha até ao fim dos seus dias.

Mais do que uma história sobre a fama e o sucesso, esta é uma história de amor, de dois amores: o amor à música e a uma mulher e a incapacidade de se manter fiel aos dois e, por isso, todos os arrependimentos e remorsos que corroem o nosso protagonista quando, na fase final da sua vida, sozinho e muito doente, toma consciência que morrerá em breve fruto da doença. E se, à partida, a história contada por uma pessoa que conta os últimos dias da sua vida podia ser um tema demasiado deprimente, pelos arrependimentos e lamentos que encerra Filipe Melo consegue transformá-la numa história de esperança e reflexão. “Em que consiste a felicidade?” e o que nos impele a lutar por ela para não cairmos no arrependimento de Julien Dubois. Este livro é também um elogio à música e às artes e uma homenagem à importância da música nas nossas vidas e também um elogio às outras formas de arte que têm a capacidade de embelezar até os momentos mais escuros e soturnos porque, afinal, se os pianos podem voar, o impossível pode concretizar-se e a arte salva. Basta sonhar e mantermo-nos fiéis aos nossos princípios, objetivos e talento!

“Quando duas pessoas destruídas estão à beira de um abismo... A tentação de saltar torna-se ainda mais irresistível.”

Estas duas vidas contrastantes são contadas através das memorias de Julien Dubois contadas a uma jornalista que aparece na sua velha mansão, na qual este vive, muito doente e desencantado com a vida e o amor, juntamente com a sua governanta e um gato ao qual acaba por se afeiçoar.

É nesta mansão, enterrado num cadeirão, vestindo um roupão, envolvido no fumo do cigarro e com o gato ao colo que, Julien Dubois acaba por contar a Adeline, uma jovem jornalista que o visita com o falso pretexto de querer conhecer a sua verdadeira história, a sua verdadeira história e as suas memorias. A difícil relação com a mãe e uma infância sem pai, a pressão para alcançar o sucesso e tudo o que o desvia do seu sonho para alcançar o sucesso a todo o custo, mas, sobretudo, a sua história de amor e a sua incapacidade e impotência para lutar pelo verdadeiro amor.

Destas conversas íntimas com a jovem jornalista, surge uma relação de amizade e de partilha que culmina, no fim do livro com um desenho lindo de uma partitura, com uma composição inédita de Filipe Melo que nos é apresentada como se tivesse sido escrita por Julien Dubois, "um tipo que ouviu muito Chopin, passou muito anos a tocar músicas de 'azeite', está muito cansado, mas quer deixar uma mensagem, um abraço". A revelação final deste livro. embora não seja totalmente surpreendente, é a chave de ouro para esta história em que o amor é realçado e nada melhor do que a revelação da verdadeira identidade de Adeline que depois de se ter mostrado digna da confiança e do afeto de Julien, revela ser o fruto do seu grande amor.

A mensagem final é um abanão à vida. “É curioso, com o passar dos anos, os dias duram menos. Passa tudo a correr. Aprendemos a aproveitar melhor cada bocadinho. Aliás, o único conselho que posso dar ao mundo é… vivam cada dia como se tivessem cancro! Ficava toda a gente com as prioridades no sítio.”

Tão ou mais impressionante que a história contada são as histórias que as imagens nos permitem imaginar e criar. A forma perfeita e realista como cada personagem é desenhada e os sentimentos e caraterísticas que os seus traços transmitem e personificam, como a maldade, a beleza e a ternura e também a utilização de cores e contrastes de cores utilizadas para nos transmitir a intensidade e os sentimentos de cada momento são, para além da história contada, um desafio à nossa criatividade e à imaginação. Estou certa de que cada um de nos criará diferentes histórias a partir desta novela e essa é uma riqueza que este livro encerra.

Um apelo divertido à reflexão sobre a essência da vida, reflexão que, neste caso, só acontece no final da vida, mas que este livro nos dá a possibilidade de fazer agora. Estou certa que, como eu, vão ter vontade de o voltar a ler porque são muitas as historias escondidas nestes desenhos e diálogos fabulosos.

Vemo-nos nas próximas páginas e com mais histórias para contar!

* Escreve, quinzenalmente, a crónica literária “A páginas tantas”
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