AveiroMag AveiroMag

Magazine online generalista e de âmbito regional. A Aveiro Mag aposta em conteúdos relacionados com factos e figuras de Aveiro. Feita por, e para, aveirenses, esta é uma revista que está sempre atenta ao pulsar da região!

Aveiro Mag®

Faça parte deste projeto e anuncie aqui!

Pretendemos associar-nos a marcas que se revejam na nossa ambição e pretendam ser melhores, assim como nós. Anuncie connosco.

Como anunciar

Aveiro Mag®

Avenida Dr. Lourenço Peixinho, n.º 49, 1.º Direito, Fracção J.

3800-164 Aveiro

geral@aveiromag.pt
Aveiromag

Francisco Amarante: do pavilhão da Gafanha à elite do basquetebol nacional

Atletas

Foi nas tabelas do pavilhão da escola, ainda antes de fazer parte do GDG – Grupo Desportivo da Gafanha –, que Francisco Amarante terá feito os primeiros lançamentos e marcado os primeiros cestos. A partir daí, meia dúzia de anos foram suficientes para que se destacasse no clube e nas seleções distritais e chegasse à Seleção Nacional. O seu talento e força de vontade não passaram despercebidos à astúcia dos olheiros do FC Porto, emblema que, com apenas 15 anos, passou a representar e com o qual, entretanto, já venceu uma Taça da Liga e uma Supertaça de Portugal. Em 2019, ajudou a conquistar o primeiro título internacional do basquetebol português – o Europeu de Sub20 da Divisão B –, sobressaindo como MVP (jogador mais valioso) no jogo decisivo, contra a Chéquia. Em junho passado, no rescaldo da temporada 2021-22, foi ainda considerado o Melhor Jogador Jovem da Liga Betclic, distinção que encara como “um reconhecimento do trabalho que tenho tido para conquistar o meu lugar dentro de campo e o respeito de colegas, treinadores e adversários”.

Francisco Amarante ainda guarda memórias vivas desse “dia marcante” em que “o Gafanha foi à escola fazer uma espécie de treino de captação”. “Foi divertido e pudemos aprender muitas coisas novas sobre o basquetebol, uma modalidade que, até àquele momento, ainda só tínhamos experimentado nas aulas de Educação Física”. O jovem atleta lembra que, ainda hoje, “a popularidade do basquetebol não é comparável à de outras modalidades, como o futebol”, e, naquela altura, “não era um desporto que viesses para a rua jogar com os teus amigos”. Treze anos passaram e “o cenário, hoje, é bem diferente”, assegura. “Por um lado, a modalidade tornou-se mais conhecida em Portugal; por outro, há cada vez mais locais públicos para praticar basquetebol”. Excelente exemplo é o campo 3x3BasketArt, na Gafanha da Nazaré, onde a Aveiro Mag conversou com Francisco Amarante – um recinto ao ar livre, criado por iniciativa da Federação Portuguesa de Basquetebol e da câmara municipal de Ílhavo e inaugurado há cerca de um ano, que incentiva a população a ir para a rua jogar e ainda presta homenagem a dois atletas internacionais nascidos na Gafanha da Nazaré e formados na secção de basquetebol do GDG: Joana Soeiro, que alinha pelo Benfica e pela Seleção Nacional Feminina, e Francisco Amarante.

Quando o GDG fez a tal visita à escola, Francisco tinha apenas 9 anos, mas já se evidenciava pela sua estatura. O clube não terá demorado a enviar-lhe uma carta para casa, convidando-o a juntar-se aos seus escalões de formação, e Francisco que, até então, nunca ponderara jogar basquetebol, decidiu experimentar a modalidade. A princípio, os pais ainda terão hesitado, mas não só acabaram por permitir que o filho começasse a jogar basquetebol, como, rapidamente, motivados pela nova paixão de Francisco, lhe construíram uma tabela em madeira onde pudesse treinar todas as manobras, lançamentos ou habilidades que ia aprendendo.

“Os primeiros tempos foram de diversão pura”, evoca o jovem, na certeza de que “foi o gosto por aprender coisas novas e superar-me a mim próprio que fez com que me apaixonasse pelo basket”. O quotidiano ganhara novo compasso: sair da escola, ir a casa trocar de roupa, voltar ao pavilhão e treinar com a equipa. Aos fins-de-semana, jogos. “Passávamos a vida no pavilhão, todos juntos. Gostávamos de chegar mais cedo para termos tempo de fazer uns lançamentos antes de o treino começar e ficávamos a jogar já depois de o treino ter terminado... Era até as nossas mães nos virem chamar”, relata.

No verão de 2014, tinha o GDG acabado de se sagrar campeão distrital de sub14 quando Francisco soube que tinha sido um dos dois atletas que a Federação Portuguesa de Basquetebol havia selecionado para representar Portugal no Campus de Basquetebol “FIBA Pass It On”, em Istambul, na Turquia. Francisco juntar-se-ia a Mariana Mendes (à data, atleta do GRIB – Grupo Recreativo Independente Brandoense – e, atualmente, jogadora do Olivais FC) e a uma comitiva nacional para uma semana inteira, no estrangeiro, a jogar basquetebol. “Foi uma semana incrível em que joguei com miúdos de todo o mundo. Ficámos no complexo desportivo do Darü??afaka SK - pavilhões enormes, campos ao ar livre, dormitórios que nunca mais acabavam...”, conta Francisco, que terá mesmo chegado à final de um torneio 3x3 em que foi derrotado pela equipa do canadiano RJ Barret, que hoje alinha pelos New York Knicks e, já na altura, “era fora de série”. “Nós éramos todos pequeninos e ele já era enorme!”. A experiência na Turquia viria a deixar marcas indeléveis no percurso do jovem da Gafanha que, não muito tempo depois, seria também chamado à Seleção Nacional pela primeira vez. “O meu treinador na altura – João Paulo – chamou-nos ao balneário para dar a notícia à equipa. Quando ele disse, eu nem sequer acreditava. Era uma possibilidade que eu julgava acima do que conseguia alcançar. Foi uma alegria muito grande e a festa que a minha equipa fez foi marcante”.

Marcante, também, foi a surpresa que seguiu. O FC Porto tinha tido conhecimento de um tal Francisco Amarante, jovem promissor, atleta do GDG, e queria convidá-lo a mudar-se para cidade invicta.

“Quando aos 15 anos, deixas a Gafanha para ir viver para o Porto, o teu dia-a-dia altera-se drasticamente. Estar longe da família não foi fácil”, reconhece Francisco, recordando o primeiro impacto daquela nova cidade, o barulho interminável dos carros e a solidão que passou a ter como companheira. “Não se pode dizer que a adaptação tenha sido fácil, mas consegui. E, sem dúvida, valeu a pena”, concede. É importante sublinhar a relevância do apoio dos pais nesta fase do percurso de Francisco. “Apesar de, na altura, não me ter apercebido disso – achava que o acompanhamento que os meus pais me davam era algo normal – agora, olhando para trás, percebo que o que eles fizeram por mim foi extraordinário. Foram muitas viagens Aveiro – Porto, um esforço muito grande que só posso agradecer. Sempre quiseram, acima de tudo, que eu estivesse feliz”.

Se, em termos práticos, este acompanhamento foi fundamental quando Francisco era mais novo e, por conseguinte, mais dependente, a verdade é que a presença familiar tem hoje um papel não menos importante para o profissional de basquetebol. “É muito raro os meus pais falharem um jogo meu. Fazem questão de estar presentes”, alegra-se Francisco, acrescentando: “Normalmente, não falo muito de basquetebol com eles. Mas dá para limpar a cabeça e aliviar a pressão”. Para Francisco Amarante, a família é suporte para as suas fragilidades e trampolim para os seus talentos; é a euforia das horas gloriosas e o alicerce inabalável que ajuda a aguentar os momentos menos bons. Se o basquetebol é um desporto para gente grande, com uma estrutura destas, não há gigante que nos derrube.

Seja ao serviço do clube ou da Seleção Nacional, Francisco cumpre uma exigente rotina de treinos. Um dia-a-dia preenchido que o tem obrigado a “sacrificar alguns momentos próprios da vida de um jovem” da sua idade. Não há lugar para “noitadas” para quem tem as responsabilidades e compromissos de um atleta profissional. Ainda assim, e apesar de não lhe restarem muitas horas para atividades alheias ao universo do basquetebol, faz questão de arranjar tempo para visitar a família, passear com os amigos e estar com a namorada. Gosta de tocar guitarra, de ir ao cinema e de acompanhar algumas das séries do momento. Também é adepto de videojogos, ainda que, curiosamente, não seja o maior fã de jogos de simulação de basquetebol.

Com alguns dos mais emblemáticos clubes do país no seu território – a Ovarense, a Oliveirense ou o Illiabum, só para dar alguns exemplos –, a região de Aveiro pode orgulhar-se de ter uma já longa tradição desportiva no que ao basquetebol diz respeito. À parte disso, entende Francisco, “não há melhor terra para viver”. “Uma das melhores coisas que esta terra me pode dar é esta calma e serenidade. É um privilégio poder ir à praia da Barra, estar tão próximo do mar e da ria”. “Há ainda o carinho que sinto quando cá venho, com as pessoas a darem-me palavras de apreço. É como se, por sermos da mesma terra, me sentissem como sendo um bocadinho delas”, observa o atleta que já foi reconhecido publicamente pela junta de freguesia da Gafanha da Nazaré e pelo município de Ílhavo, este último, com a atribuição de uma medalha de Mérito Desportivo, em 2020. “É muito importante sentir este carinho da comunidade. Quando a malta da Gafanha me vê a jogar na televisão, sabe que está ali um gafanhão e isso é importante para eles”.

Ao conversar com Francisco, percebe-se que é uma pessoa calma, sóbria e discreta. Assim que entra em campo, contudo, “o caso muda de figura”. De súbito, a serenidade cessa e a energia daquele retângulo entre tabelas faz com que se transforme, entregando-se ao jogo com foco elevado, garra desmedida e espírito determinado. É um jogador aguerrido, mas que pensa na equipa, valoriza a importância de uma boa defesa e esforça-se por não cometer erros. Aos olhos do próprio, o base-extremo é “bom atirador”, tem “qualidade no passe” e “boa visão de jogo”, ainda que considere poder tornar-se “fisicamente mais forte” e “mais agressivo no momento de entrar para o cesto”. Criatividade e versatilidade são duas das características que Francisco mais admira num jogador de basquetebol. Talvez por isso tenha no esloveno Luka Don?i? e no espanhol Sergio Llull duas das suas grandes referências, sem esquecer, claro, o norte-americano LeBron James. Foi, aliás, em tributo a King James, estrela dos Los Angeles Lakers, da NBA, que Francisco escolheu o número com o qual mais gosta de se apresentar em campo. “Quando comecei a jogar, fiquei com o número que havia – acho que era o 59 –, mas depois o LeBron que, altura, estava nos Miami , começou a jogar com o 6... A partir daí tenho tentado jogar com o 6. Quando não consigo, viro-o ao contrário e fico-me pelo 9”, resolve Francisco, que também já vimos competir com o 16 nas costas.

Atento à modalidade, aos 22 anos, Francisco não esconde a aspiração de “tentar ir lá para fora e experimentar outra realidade”. “Gostava muito de jogar em Espanha, que tem uma das melhores ligas do mundo”, reconhece, confessando que a sua “maior ambição é chegar a uma equipa da EuroLiga”, a mais alta competição de basquetebol masculino na Europa. “É complicado, mas vou continuar a trabalhar para lá chegar”, promete.

Mercedes Publicidade

Apelo a contribuição dos leitores

O artigo que está a ler resulta de um trabalho desenvolvido pela redação da Aveiro Mag. Se puder, contribua para esta aposta no jornalismo regional (a Aveiro Mag mantém os seus conteúdos abertos a todos os leitores). A partir de 1 euro pode fazer toda a diferença.

IBAN: PT50 0033 0000 4555 2395 4290 5

MB Way: 913 851 503

Deixa um comentário

O teu endereço de e-mail não será publicado. Todos os campos são de preenchimento obrigatório.