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“O deslumbre de Cecília Fluss”, de João Tordo

Opinião

A páginas tantas

Filipa Matias Magalhães

Já é tempo de aqui fazer o elogio de um dos melhores escritores da atualidade. João Tordo foi o justo vencedor do Prémio José Saramago em 2009 com o romance "As Três Vidas" editado no ano anterior e é, presentemente, um dos nomes mais aclamados do panorama literário em Portugal e noutros países onde os seus livros chegam.

Para além do Prémio José Saramago, João Tordo foi também finalista dos prémios Portugal Telecom, prémio Fernando Namora, Melhor Livro de Ficção Narrativa da SPA e do Prémio Literário Europeu e os seus livros encontram-se traduzidos em vários países, como França, Alemanha, Itália, Brasil, Espanha, Hungria, entre outros.

Destaco hoje aqui, como sugestão, um dos livros de que mais gostei do autor: “O deslumbre de Cecília Fluss”. Apesar de este ser o livro que encerra a trilogia composta por "O Luto de Elias Gro" e Paraíso Segundo Lars D.", a verdade é que pode perfeitamente ser lido de forma isolada pois a complexidade dos temas e das personagens são, por si só, bastante ricas. João Tordo é exímio na arte de descrever as suas personagens e na riqueza das contradições que estas encerram, bem como nas reviravoltas surpreendentes que protagonizam e, neste livro, essas características assumem particular interesse.

Este livro apresenta-nos um adolescente introvertido, de catorze anos, Matias Fluss, cujas grandes preocupações são: a descoberta do sexo, um tio enlouquecido com quem aprende muito sobre a vida e as fábulas budistas, onde vai buscar alguma paz para a melancolia em que mergulha depois do desaparecimento da irmã. Matias vive com a mãe – uma mulher cuja presença ausente nos revelam a importância que a presença e acompanhamento de uma mãe têm na vida de um filho - e a irmã mais velha, Cecília – que acaba por ser a sua confidente e objeto do seu afeto.

Cecília, ignorada pela mãe, vive uma vida completamente desregrada, ausentando-se permanentemente de casa, raramente indo à escola, fumando e bebendo e passando horas infinitas fora de casa, na companhia de um namorado desconhecido, muito mais velho que ela, e que será presumivelmente a causa do seu desaparecimento misterioso. “Ainda penso nela assim, como uma coisa selvagem “. É, desta forma, que Matias se refere à sua irmã Cecília que lhe deu a primeira oportunidade de sonhar com o amor e que, ao desaparecer, leva consigo toda a esperança e inocência que existiam em Matias.

A vida e a personalidade de Matias são ainda muito marcadas pela forte presença do seu tio Tio Elias (personagem central do primeiro livro da trilogia) - o único da família que é diagnosticado como demente, não obstante a mãe e a irmã revelarem alguns sinais de loucura. Uma das questões muito interessantes deste livro é a forma como explora a questão da loucura e a põe em confronto com a sanidade mental, estádio em que todos acreditamos que estamos, ainda que, por vezes, não passe de uma mera ilusão. “O mundo é uma loja de porcelana, insisti. Toda a gente se parte com facilidade, mas ninguém quer ser o primeiro. É como se estivéssemos todos nessa loja, em prateleiras, arrumadinhos, a fingir que somos inquebráveis. Mas, em segredo, estamos cheios de medo de que o elefante apareça.”

Elias tem pelo sobrinho um grande amor e dedica-se muito a ele, servindo-lhe, ele e a sua cabana, de refúgio nos momentos de maior turbulência.

Tal como todos os adolescentes, Matias vive num mundo muito particular, fechado nas suas emoções fortes e contraditórias e na descoberta do seu eu através dessas contradições, refugiando-se na cabana isolada do tio Elias – o protagonista de “O luto de Elias Gro” sempre que sente dificuldade em gerir as emoções.

Um acontecimento duro e inesperado faz com que Matias passe rapidamente deste estado de inocência e de descoberta próprios da adolescência para uma entrada solitária na vida adulta. Matias dá os primeiros passos na vida adulta, mergulhado numa melancolia, incerteza, dor e duvidas por causa do duro episódio que lhe levou a irmã, uma das duas maiores fontes de afeto. Com o estranho desaparecimento da sua irmã, a que Matias assiste quando a vê, pela última vez, a saltar de uma ponte, Matias envereda por uma vida ausente de emoções e torna-se um pacato professor universitário.

A última parte do livro acontece, mais uma vez, em resultado do page turner que é o momento em que Matias recebe uma estranha carta que semeia a suspeita sobre o que aconteceu realmente à sua irmã e o faz voltar ao passado, desenterrar o passado e, com isso, acaba por também se descobrir melhor a si próprio.

Como qualquer questão mal resolvida, ao tentar perceber o significado desta carta, Matias mergulha no passado sem perceber que essa é também a oportunidade de resgatar alguma da inocência que desapareceu juntamente com a irmã. "Com as incógnitas eu consigo viver, são os factos que eu não aguento."

Mais do que uma viagem à complexidade da vida, das relações e das emoções que caraterizam a adolescência, este livro é também uma viagem ao interior de cada um de nós, e uma tentativa de desconstrução das certezas e conceitos em que teimamos em alicerçar o nosso caminho e que usamos como “binóculos” para o mundo.

“As pessoas são diferentes do que parecem.

Sim.

Esquecemo-nos, muitas vezes, que atrás daquilo que vemos, está um homem ou uma mulher, tão fracassado como nós, em busca da perfeição.

O que é a perfeição?

É a crueldade que Deus nos meteu na cabeça”.

Com este livro, vamos crescendo com Matias, pois também nós já fomos adolescentes a tentar crescer no turbilhão de sentimentos e emoções que é a adolescência. Mais ou menos amparados – a adolescência de Matias foi um caminho de órfão de mãe viva – vamo-nos construindo através daqueles que nos servem de pilar e referencia. O estranho desaparecimento da irmã de Matias pode ser visto como uma metáfora da passagem da adolescência para a idade adulta e de tudo o que, com essa passagem, fica para trás, e da importância de resolver tudo antes de avançar, sob pena de, mais tarde, termos de voltar atras para nos conhecermos melhor.

Não deixem de se apaixonar pelo Matias Fluss e de enveredarem, com ele, nesta profunda reflexão sobre a vida e a morte, a solidão, o amor e a paixão, a loucura e a normalidade, o impacto que temos na vida dos que marcamos e a falta que nos fazem aqueles que nos são queridos, corresponder às expectativas ou assumir viver de acordo com os nossos princípios e vontades e, sobretudo, sobre a construção da nossa identidade e personalidade.

Matias ajuda-nos a desmontar as nossas certezas e a pôr em perspetiva as nossas convicções, introduzindo e aceitando o tema da loucura e a vida assente nos pilares da dúvida – e os tempos mais recentes têm sido uma lição nesta matéria.

Este é um convite a regressar à nossa adolescência, à permanente dúvida e conflito em que esta nos manteve e à importância de nos conhecermos para entrar na vida adulta.

Desejo-vos boas leituras no regresso ao trabalho!

Vemo-nos nas próximas páginas.

* Escreve, quinzenalmente, a crónica literária "A Páginas Tantas"
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