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“Uma paixão simples”, a encantadora escrita de Annie Ernaux

Opinião

A páginas tantas

Filipa Matias Magalhães*

Aos 82 anos, Annie Ernaux recebeu o Prémio Nobel da Literatura 2022. A justa vencedora deste galardão soma já vários prémios literários, vendo agora a sua carreira homenageada com este honroso prémio. Annie Ernaux é exímia na habilidade de fazer da prosa poesia, entrelaçando as palavras de uma forma brilhantemente harmoniosa e permitindo-nos sentir parte das suas histórias e viver os seus desabafos, angustias, mas também as suas alegrias e aprender com elas.

“Uma paixão simples” é o exemplo perfeito de que a qualidade de um livro não se mede pelo número de páginas e que uma história não precisa de um grande elenco para nos “agarrar”, nem de histórias impossíveis e fantásticas. A verdade é que, nestas pouco mais de 70 páginas, a autora conta-nos, de forma simples (o título não podia ser mais verdadeiro!), mas muito profunda, o que prende duas pessoas ao ponto de viverem uma para a outra, dependendo dos encontros a dois e deixando a sua marca no outro, transformando-o e obrigando-o a descobrir-se melhor. Sem nos deixar perceber onde começa a autobiografia e termina a ficção, é evidente que a profundidade com que esta relação nos é contada, sem medo de expor as fragilidades e entrelaçando os momentos de arrependimento com os de dependência e euforia, só nos podiam ser contados por quem viveu uma paixão arrebatadora, que a deslocou do seu porto seguro e perceber que a intensidade de uma paixão não tem nada de complexo: duas pessoas que sentem identidade em aspetos que só elas percebem, que desafiam as regras da lógica e que vivem de e à espera uma da outra. "Para mim não havia cronologia nessa relação, só conhecia a presença ou a ausência".

Uma mulher divorciada e com filhos adultos, independente e muito culta decide “curar” as marcas de um casamento frustrado dando-se a oportunidade de viver uma paixão que a transporta para um mundo onde só existe ela e o seu amante. O seu amante, um homem casado, estrangeiro, mais jovem, representa um desafio constante de identidade, de desafio perante tudo aquilo em que sempre acreditou e de vontade de querer pertencer a alguém sem abdicar da preciosa independência. A paixão une de forma irracional e incompreensível estes dois amantes com origens e vidas tão distintas, mas que, para quem está a viver uma paixão, não são importantes, pois como a história e o titulo nos mostram, a paixão é bem mais simples do que temos tendência a racionalizar.

Heléne descreve-nos a forma como a sua paixão e a espera ansiosa pelos momentos a dois se encaixa na rotina do seu dia-a-dia, quebrando-a de forma intensa e fantástica e transformando os dias do seu calendário. Os encontros a dois passam a ser os acontecimentos mais importantes do seu calendário e a espera e dependência destes momentos passam a ser uma constante, sendo a ausência do seu amante demasiado dolorosa para alguém que tanto preza a sua independência.

Será que escolhemos sempre a pessoa por quem nos apaixonamos? Serão as nossas escolhas racionais e lógicas? Esta é a história que nos mostra que não, que o outro pode ser tudo aquilo com que não nos identificamos e despertar em nós sentimentos e atitudes que julgávamos incapazes de ter porque a paixão tem o poder de nos arrancar do chão e transportar para um outro plano e une o que parecia impossível de unir. A história desta paixão é também uma história de tabus que são quebrados, vergonhas que não existem e de uma ausência total de julgamentos, bem como uma história de sentimentos profundamente contraditórios: uma paixão arrebatadora e uma dependência permanente da qual deseja de forma contraditória escapar, com a certeza de ser uma privilegiada por viver uma história assim e não quer perder um segundo deste turbilhão de emoções em que esta paixão a mergulha. “Tinha o privilégio de viver, desde o princípio, constantemente, e em plena consciência, aquilo que acabamos por descobrir sempre, com um grande espanto e uma profunda deceção, que o homem que amamos é um estranho.”

Tão, mas tão verdadeira, esta história coloca-nos a todos no lugar das personagens e desafia-nos a permitirmo-nos descobrirmos a nossa essência através da oportunidade única que uma paixão nos dá. “Descobri do que podemos ser capazes, ou seja, de tudo. Desejos sublimes ou mortais, ausência de dignidade, crenças e comportamentos que achava insensatos nos outros porque nunca me tinha acontecido recorrer a eles. Sem querer, ele ligou-me mais ao mundo.” Achei maravilhosa a forma como a autora nos permitiu conhecê-la através desta historia onde se vai revelando de forma despudoradamente vulnerável, dando sentido à expressão “paixão arrebatadora” porque, de facto, só quando outra pessoa nos faz sair do chão e nos revela a nossa essência, no que temos de mais profundo e camuflado, é que percebemos que a paixão tomou conta de nós e esse é um privilégio que, por muito contraditória que possa ser esta paixão, Heléne não quer abdicar de viver.

Obrigada, Annie Ernaux, por nos deixar viver as suas histórias e emocionarmo-nos com a riqueza de sentimentos com que as embrulha.

Reparo agora que nunca escrevi a palavra paixão tantas vezes em tão poucas páginas e que isso é, também, um privilégio porque numa época em que as palavras e sentimentos negativos enchem as páginas de tudo o que lemos e vemos, reforçar um sentimento forte como a paixão é muito inspirador.

Vemo-nos nas próximas páginas!

* Escreve, quinzenalmente, a crónica literária “A Páginas Tantas”
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