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Obrigada, Javier Marías, pelos livros que nos deixaste!

Opinião

A Páginas tantas

Filipa Matias Magalhães*

Olho para a obra de Javier Marías e nem consigo acreditar que um autor com uma obra tão eclética e profunda, e que certamente ainda teria tanto com que nos deliciar, nos tenha deixado no passado dia 11 de setembro. Deixa-nos mais de dezasseis romances, vários livros de contos e de ensaio, publicando em 46 idiomas e 59 países, tendo sido destacado com vários prémios de enorme prestígio, não só na Europa como também nos Estados Unidos.

Qualquer um dos seus livros seria tema para esta conversa sobre palavras que nos fazem sonhar e por isso a escolha não foi fácil. Optei por trazer um dos seus últimos livros, em que nos revela um estilo diferente, revelando uma enorme versatilidade e uma opção por misturar personagens históricas, com outras fictícias e algumas em que mistura a realidade com a ficção. Em “Todas as almas” o autor revela-se mais do que nos outros livros em que se escuda nas personagens inventadas, levanta um bocadinho o véu para nos mostrar uma personagem que podia ter sido ele, mas fá-lo de uma forma subtil, misturando a ficção com o que se aproxima de uma autobiografia, através de uma tela em que entrelaça o vivido e conhecido com o imaginado e inventado, deixando-nos sempre na dúvida sobre o que é realidade e ficção. Esta mestria de manter a dúvida desde o início ao fim do livro coloca-nos no centro da história, a tentar adivinhar e distinguir o imaginado da realidade.

Para nos lançar nesta dúvida, o autor recorre a um narrador, cujo nome nunca nos é revelado, mas a quem as personagens se referem como “O Espanhol”. Esta alusão à sua origem leva-nos a acreditar que o narrador é Javier Marías, também ele espanhol que viveu dois anos em Oxford como professor de tradução. Mas estes serão, possivelmente, os únicos aspetos autobiográficos, pois em relação a todos os outros pormenores da história ficamos sempre na dúvida sobre a sua natureza autobiográfica, porquanto, nem os relatos da vida anterior a este período nem os relatos da vida posterior a este período, coincidem com a vida de Javier Marías. Todavia, os relatos da vida em Oxford – onde descreve a forma como vivem os ingleses e, em especial, o ambiente académico, assim como a forma como se sente alguém a trabalhar e a viver fora do seu país e num país com tradições e culturas tão diferentes, se não são autobiográficos têm uma forte inspiração na sua experiência destes dois anos de docência.

Quem poderia afirmar que “Em Inglaterra, como se sabe, as pessoas mal olham, ou olham tão velada e desinteressadamente que ficamos sempre na dúvida se alguém está mesmo a olhar para aquilo que parece, tão opacos sabem tornar-se os olhos na sua atividade natural. Por isso, um olhar continental (por exemplo, o meu) pode provocar perturbação na pessoa olhada….”, se não tivesse sentido esta indiferença no olhar daqueles com quem se cruzou.

As palavras usadas para descrever o sentimento de alguém que está fora do seu país são claramente sentidas “.... quem passa demasiado tempo noutro sítio que não o da sua origem acaba por não ser de nenhum, acaba com cara de chinês e olhos azuis, como Marco Polo naquela estátua.”

O sentimento com que tudo é descrito torna verosímil a ideia de que o livro terá sido escrito com base nas cartas que o autor escreveu aos seus amigos em Espanha durante o tempo que viveu em Oxford.

Mas o mais importante neste livro não é saber o que foi real e o que é ficção - e talvez a ficção seja apenas a forma delicada que encontrou de proteger a identidade daqueles de quem fala no livro. O que importa mesmo neste livro é a sua capacidade singular de descrever e entrar nas personagens e nas vidas e sentimentos que escondem, para além da superficialidade e do visível a olho nu.

É o olhar atento de um escritor com um enorme interesse em perceber as relações interpessoais, para nos revelar o quanto aqueles com quem nos relacionamos nos moldam e nos condicionam, o quanto os ambientes sociais se refletem na nossa forma de estar e ser e ate mesmo como a própria geografia e a cultura de um país podem ser fatores condicionantes. Somos o reflexo e o anverso, o produto e os condicionantes daquilo que vivemos, onde vivemos e com quem nos cruzamos.

Destaquei neste livro três temas essenciais: o amor e a fidelidade; a infância e o seu reflexo na vida adulta; e a doença e a forma como convivemos (melhor ou pior) com ela.

O interessante deste livro é a forma como o autor cruza, e faz interagir entre si, personagens próximas daquelas que pode ter conhecido, personagens inventadas (como acontece em todos os seus romances) e uma personagem histórica John Gawsworth.

Mais do que de acontecimentos, este livro é feito de personagens, personagens muito bem construídas e cuja vida é, em si, um conjunto de histórias que nos vai contando no cenário ritualizado de Oxford, em que as cerimónias e a sumptuosidade dos momentos são descritos com os pormenores e detalhes que só podem ser conhecidos de quem os viveu na primeira pessoa.

Nesse ambiente solene e cheio de rituais, Espanhol, professor em Oxford por um curto período, conhece Clare Bayes, casada com um também professor em Oxford, e têm uma relação amorosa com encontros que nos são relatados com a discrição, mas também sensualidade, de um cavalheiro. O que une os dois, neste contexto, revela-nos um pouco da natureza das relações amorosas, revelando também, sem tecer juízos de valor, o quão anódina pode ser uma traição. “A fidelidade (aquilo a que assim chamamos para referirmos a constância e exclusividade com que um determinado sexo penetra ou é penetrado por outro igualmente determinado, ou se abstém de ser penetrado ou penetrar noutros) é principalmente produto do hábito, como o é também a chamada – contrariamente – infidelidade.”

Mas não se pense que esta relação amorosa não teve importância para o narrador, pois sem cair nas loucuras amorosas dos jovens, o narrador viveu intensamente esta paixão, apesar de a saber com prazo. “Quando estamos habituados a uma só boca há muito tempo, as outras bocas parecem incongruentes e apresentam dificuldades: os dentes são demasiado grandes ou demasiado pequenos, os lábios são avaros ou excessivamente abundantes, a língua move-se a destempo e permanece hirta, como se não fosse músculo mas carne e osso.”

Mas o livro não fala só de encontros amorosos, e quando fala é com beleza e descrição, poupando-nos a detalhes ardentes, fala-nos muito pouco das suas ocupações académicas e do que fazia o narrador nas muitas horas vagas entre uns e outra: procurava incessantemente livros – e vem a conhecer um autor desconhecido (a única personagem real no livro) e passeava pelas ruas de Oxford, olhando com uma atenção que busca a alma mais do que a aparência, todos aqueles com quem se cruza, desde os mais pomposos e importantes no mundo académico até aos que mendigam pela cidade, misturando-se com a multidão. E, a verdade, é que esta, como todas as cidades é feita de contrastes, de uma tradição opulenta e ritualizada que parece conviver bem com este mundo de almas perdidas. “Todas as almas” é, assim, o fantástico produto e reflexo da enorme capacidade de análise, reflexão e crítica deste magnífico autor, que em todas as personagens destaca os seus pontos mais marcantes, fugindo sempre à tendência de o fazer recorrendo a juízos de valor.

Disse-vos que destaquei no livro a amizade, a verdadeira e a amizade circunstancial e o autor revela um grande apreço pelos amigos… pelos verdadeiros. “Não há maiores inimigos do que os que também são amigos”.

E é esta amizade com os seus colegas mais próximos que o coloca perante o dilema de como lidar com a doença e, mais tarde, com a morte de um deles. A impotência de quem assiste à doença dos que lhe são próximos sem nada poder fazer e a forma como cada um decide viver a sua doença revela-nos que podemos olhar para a doença com olhos muito distintos.

“A quem pertence a vontade de um doente? Ao doente ou à doença? Quando estamos doentes, como quando somos velhos ou estamos perturbados, fazemos as coisas em partes iguais por vontade própria e por vontade alheia. O que nem sempre se sabe é a quem pertence a parte da vontade que já não é nossa.”

E porque falamos num cenário académico onde a alegria e o álcool marcam pontos, a verdade marcam pontos, o autor deixa-nos com uma dica bem-humorada, mas com muita verdade: “…. Aproveitando o facto de estarmos bêbados e de as perguntas dos bêbados receberem sempre resposta…”

Desta profunda análise do que somos e do que isso reflete as nossas vivências e a forma como encaramos o mundo, o autor deixa uma visão otimista – as minhas preferidas!!! – que me parece uma boa forma de terminar em bom, com esperança e a abrir portas para a fantasia porque é ela que alimenta as palavras. “…. E o que me faz levantar de manhã continua a ser a expectativa do que está por vir e não se anuncia, é a espera do inesperado, e não paro de fantasiar com o que há de vir…”

Javier Marías, obrigada por tantos momentos em que sonhei acordada a ler os teus livros e em que fiz de ti a minha melhor companhia silenciosa.

Vemo-nos nas próximas páginas!

* Escreve, quinzenalmente, a crónica literária "A páginas tantas"
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