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Viagens na nossa terra: Quem anda à chuva molha-se

Roteiro

Toda a gente sabe que, a par com as vacinas, as viagens espaciais ou as frigideiras antiaderentes, os trilhos pedonais são das mais extraordinárias invenções que a humanidade já engendrou. Hoje em dia, felizmente, o cardápio é abundante e não falta por onde escolher - não há terra que se preze que não coloque os percursos de natureza na sua lista de atrações lado a lado com igrejas, museus e coisas para comer.

Para quem gosta de estar em comunhão com a natureza e quer fugir do passeio de domingo no centro comercial e dos filmes da Fox Life, ir caminhar é uma alternativa sempre apelativa.

Por outro lado, para quem pratica atividade física com alguma regularidade, é o próprio corpo que pede exercício. Ao fim de algum tempo de ociosidade, uma voz sussurra-nos ao ouvido “mexe-te, mandrião”, tornando o sentimento de culpa quase intolerável. Por outro lado ainda, acabámos de atravessar mais um Natal e doses maciças de rabanadas fizeram mossa na silhueta.

Tudo bons pretextos para largar o sofá e dar corda aos sapatos. Acontece que é um sábado chuvoso, daqueles com direito a alerta amarelo emitido pelos serviços meteorológicos. A hesitação é grande mas uma aberta ao início da tarde precipita-me para a rua – dissipou-se a chuva e dissiparam-se as dúvidas.

Tenho a vantagem de morar a dez minutos a pé dos chamados Passadiços de Esgueira, onde vou com frequência para caminhar ou andar de bicicleta. É para lá que me dirijo novamente, munido com um casaco de inverno com capuz e uns auriculares para ouvir Ramones, a banda sonora escolhida para este passeio.

Claro que um simples vislumbre do céu permite perceber facilmente que a ameaça de recomeçar a chover é grande – não há brechas no cinzento carregado e o temporal pode desabar a qualquer momento. Ainda assim resolvo arriscar. Sigo pela Rua dos Queimados e pela Rua do Vale Ratinhas até esta entroncar com os passadiços. À esquerda divisa-se a silhueta de Aveiro, ao fundo, mas na bifurcação opto por seguir pela direita, rumo a norte.

Mal ponho os pés nos passadiços o inevitável acontece. O desastre anunciado materializa-se primeiro em forma de chuvisco ligeiro mas depois sob a forma de uma descarga de água que, por orgulho, decido suportar com estoicismo. Aqui vem-me à memória um livro recentemente lido, “Cinco travessias do inferno”, em que a autora, a jornalista Martha Gelhorn, descreve as suas cinco “melhores viagens de terror”, isto é, viagens em que o que podia correr mal correu pior. Claro que esta minha pequena aventura não tem nada de comparável, até porque o pior que me aconteceu foi ficar ensopado até aos ossos. Um ligeiro deslizamento de pés numa zona mais traiçoeira do percurso podia ter acabado mal, comigo a chafurdar na lama, mas um exercício de equilibrismo bem-sucedido poupou-me a uma humilhação que eu, de qualquer maneira, suportaria sem testemunhas.

Apesar da chuva forte que cai há horas praticamente sem intervalos, o caminho está transitável, também graças a uma maré que, não estando cheia, não transbordara para o trilho. Tirando uma ou outra poça de maior dimensão que obriga a desvios ligeiros, é possível percorrer o trilho pelo seu corredor original, seguindo os contornos da ria.

Que me recorde, é a primeira vez – por que será? – que tenho os passadiços por minha conta. Não vejo vivalma desde que saio de casa até que reentro, umas duas horas mais tarde, ninguém a quem desejar “boa tarde” ao cruzar-se comigo. A meio do percurso calo os Ramones para poder absorver os sons da natureza – o som da chuva forte a bater no meu kispo abafa tudo o resto. Descubro, a este propósito, que o meu casacão impermeável de inverno é um casacão, sim senhor, mas não é impermeável, porque começo a sentir-me molhado mesmo onde não era suposto.

O trilho vai, sempre que possível, seguindo pela orla da ria, formando um percurso com vários ziguezagues – mas sempre plano, tornando-o acessível a todos. O que significa que, graças às mudanças de direcção, a chuva ora me atinge pelas costas ora pelos flancos. No caminho de regresso, porém, a chuva fustiga-me pela frente, fazendo da minha cara um alvo apetecível. A superfície das lentes dos óculos fica preenchida por inúmeras pérolas de chuva, dificultando a visão. Na verdade, também não há muito que ver, pelo menos à distância, uma vez que o horizonte mais não é do que uma mancha de cinza uniforme.

A um certo ponto do passeio decido fazer um teste à memória, aproveitando não ter ninguém por perto. Recito em voz alta um poema que decorei há uns anos – “Invictus”, de William Hanley. Consigo do princípio ao fim. Insuflado de orgulho, aventuro-me noutro – “The new colossus”, de Emma Lazarus – mas encalho a meio como um barco num banco de areia, o que me deixa vagamente zangado comigo próprio.

Apesar da beleza geral deste território de horizontes largos, nem tudo é idílico. Garrafas, embalagens e até um pequeno frigorífico jazem nas margens, ora atirados pelos caminhantes ora empurrados pelas marés, prova de que o homem é um incontrolável produtor de lixo. Também se veem velhas carcaças de barcos, deixadas a apodrecer nos muitos braços da laguna. Passo ainda por uma construção abandonada e em ruínas, em cujas paredes alguém desenhou um flamingo e um peixe de grandes dimensões e muito coloridos.

Já com a roupa colada ao corpo, passo pelo pequeno bar de madeira criado junto ao trilho, onde é habitualmente possível tomar bebidas frescas para retemperar forças. Está fechado, claro, e prossigo caminho até Vilarinho, sem estugar o passo. Decido que é o sítio certo para dar meia-volta e encetar o caminho de regresso à casa de partida. Nesse ponto deixo para trás quatro ou cinco mesas e bancos de merenda, para piqueniques com vista para a ria.

A chuva continua inclemente e a minha roupa já atingiu o limite da sua capacidade de absorção. Mas é, mesmo assim, um passeio revigorante e nem por um momento me arrependo da decisão. Ainda assim, opto, na ponta final do trajecto, por um desvio que encurta ligeiramente a distância, seguindo por uma zona urbanizada. Em vários postes foram afixados cartazes onde se lê “Procura-se o Mike”, com a fotografia de um bonito cão malhado e um número de telefone. Entre outros edifícios, cruzo a Capela de Nossa Senhora da Memória, em cuja fachada se lê a inscrição “1883”, o que significa que o pequeno templo é pouco mais velho do que eu. Em algumas casas ainda é Natal porque continuam adornadas com luzes e enfeites coloridos e reparo também nas típicas casas rurais que ainda sobrevivem e que o camartelo ainda não abalroou. Várias, no entanto, estão devolutas e parecem ter os dias contados.

Não é o caso, felizmente, de uma magnífica casa na Rua Manuel Fernandes da Silva, com o seu grande portão ocre, janelas trabalhadas e frisos de azulejos muito bem conservados que alguém comprou e está a restaurar. A minha casa quase se avista daqui e portanto a viagem está a chegar ao fim.

Não se costuma empregar a expressão “quem anda à chuva molha-se” no seu significado literal, mas no sentido de que quem empreende uma determinada ação tem de se sujeitar às suas consequências nefastas. Neste caso, porém, o sentido é exactamente esse: andei à chuva; molhei-me.

Mas não dei a experiência por mal empregue, pese embora algum desconforto devido à roupa molhada. A mensagem é: aproveitem os trilhos e passeiem pelo meio de bosques, pelas margens de rios ou pelas encostas de montanhas. Qualquer época do ano é boa, mesmo no inverno, desde que partam com a disposição certa.

Na verdade, muitas destas vias para pedestrianistas e ciclistas já existiam. A zona do Baixo Vouga Lagunar, por exemplo, sempre teve caminhos que era possível calcorrear. Mas eram um segredo bem guardado. Nos últimos anos, porém, saíram do relativo anonimato em que se escondiam graças a uma febre que eclodiu no país por percursos na natureza. Uma febre benigna mas que requer cuidados da parte de quem cria estes percursos e de quem os utiliza. Afinal, a natureza é frágil.

Desta vez optei por um percurso que tinha mesmo à mão – e que se prolonga por muitos quilómetros para norte e para sul, não se limitando, longe disso, à curta distância que percorri desta vez. Mas há muito por onde escolher e muitas vezes a dificuldade está aí. O importante é mesmo ir e usufruir das nossas belezas naturais – faça chuva ou faça sol.

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