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É uma pena Portugal não conhecer Maria Ribeiro!

Opinião

A páginas tantas

Filipa Matias Magalhães*

O primeiro livro do ano que vos trago foi uma das melhores descobertas que fiz o ano passado: a atriz, cronista e realizadora Maria Ribeiro, e o seu livro de crónicas tão divertidas quanto atuais “Trinta e oito e meio”.

Acho que não será preciso dizer muito mais do que aquilo que diz Gregório Duvivier quando, ao falar de Maria Ribeiro, confessa que o entristece que “Portugal ainda não conheça Maria Ribeiro. Maria faz o Brasil rir alto – semanalmente – daquele jeito que a gente só ri com amigo de infância. Ler a Maria é ganhar uma amiga de infância. Maria escreve como quem conversa, e conversa como ninguém.” E se este merecido elogio ainda não vos aguçou o apetite, posso acrescentar que ao lerem estas crónicas estão a adquirir uma passagem direta para horas de gargalhadas acompanhadas daquela sensação de estarmos a tomar café com um amigo que vê o mundo de uma maneira parecida com a nossa e tem um sentido de humor único, e nos ajuda a descomplicar e desdramatizar os nossos problemas.

“Trinta e oito e meio” tem o bom dos livros de crónicas - que é o facto de se ler sem vontade de parar e com muita leveza - e o bom dos grandes livros - que é a sensação que fica no final de “e agora?? Queria estar mais tempo nesta boa companhia….”

Maria Ribeiro é uma mulher e escritora invulgar que concilia uma enorme cultura literária, com um sentido de humor muito perspicaz e inteligente e com uma vontade de viver intensamente a sua vida e estar atenta ao que a rodeia. Ler as suas cronicas dá-nos uma sensação de proximidade e de realidade: são os nossos temas, as nossas vidas, as nossas preocupações e o nosso tempo os assuntos das crónicas da Maria, que olha para eles com uma curiosidade e atenção tão próprias de quem vive intensamente a vida e, como dizia Roberto Shinyashiki, de alguém que “se lambuza com a vida”. Esta expressão é maravilhosa e aplica-se tão bem à Maria Ribeiro!

Encontrei na Maria Ribeirao muito da Clarice Lispector - uma autora de quem gosto muito -, pela naturalidade com que escreve a vida que podia ser de qualquer um de nós. Também Maria é uma mulher como nós, com os mesmos problemas, dificuldades e alegrias, que vive e passa para a sua escrita de uma forma despretensiosa e com um grande sentido de humor. A forma como fala de si, do modo como encara o envelhecer, os casamentos e divórcios e a sua maternidade e relação com os pais, torna-a simultaneamente igual a nós e diferente pela descontração e humor com que encara alguns dos “nossos dramas.” “Porque assim como o tempo de dar a mão aos filhos passa rápido (em público, então, só até aos nove anos), a chance de ser filha também entrou na prorrogação.” O papel de Maria Ribeiro enquanto mãe e enquanto filha, são dois dos temas que mais ocupam estas páginas, e a autora consegue olhar para os dois papéis na beleza que encerram, mas também desdramatizar as dificuldades que trazem. “A maternidade foi uma lente que redesenhou a minha vida para trás e para a frente, e pensei que a vida pode até não ser justa, como dizia a Clarice. Mas é funda e bonita.”

Maria Ribeiro é uma feminista, sem fundamentalismos e com um lado coquete e descontraído que nos apaixona, que elogia e realça a extraordinária capacidade das mulheres desempenharem vários papéis e de se completarem nesse puzzle im(perfeito). Citando Clarice Lispector, Maria Ribeiro também acha que “se o mundo fosse justo, as mulheres teriam direito a três vidas: uma para se dedicarem ao amor, outra à profissão e uma última à maternidade. Eu incluiria ainda uma existência inteira para ir ao cinema e outra para conhecer o mundo, mas preciso de admitir que a derradeira opção da escritora tem a vantagem de ser a única a contemplar de uma só vez dois momentos sublimes do cromossoma X: o nascimento de um filho e também o de uma mãe. Procriar é ter a infância de volta e poder dormir tarde ao mesmo tempo; o melhor dos mundos ao alcance das mãos.”

Percebe-se, ao ler estas crónicas, que Maria Ribeiro é uma mãe apaixonada pelos seus dois filhos de quem fala de forma descontraída e nada lamechas, percebendo que o amor de mãe está em aceitar e partilhar todos os momentos, mesmo que estejam longe da perfeição. “Porque uma das coisas mais bonitas e difíceis de ser mãe é olhar para os rebentos como outros, e não como extensão de si, e respeitar as diferenças ao ponto de amá-las.”

Maria Ribeiro fala também do seu divórcio e do seu segundo casamento que a preencheu e realizou, mas não deixa de ser critica da forma como a sociedade tende a estereotipar as relações e as catalogar e brinca falando no manifesto anti-família de Jean-Paul Sartre: “Nós, que dormimos tarde, bebemos muito, trocamos nossas mulheres e não conseguimos cumprir nossos compromissos, nós somos loucos. Vocês, que respeitam a rotina, obedecem as leis, mantêm seus casamentos e protegem seus bens, vocês são nojentos.”

Para além de falar de si e das suas relações, Maria Ribeiro é também uma cidadã ativa e atenta ao que a rodeia… e olha com especial preocupação para o fenómeno das redes sociais e para os efeitos deste fenómeno nas pessoas, na forma como se relacionam umas com as outras e no que isso implica para a sociedade.

“Um mundo tolo, o do Instagram. Tolo, raso e violento. Fui feliz, mas não sem regras. Procurei seguir o estatuto que eu mesma criei, como nunca postar pratos de comida ou passagem de avião, jamais ser seguidamente auto-referente (vou dar esse toque pro Papa Francisco, novo no pedaço), e em hipótese alguma desdenhar do passado.”

Ler as suas crónicas não pode ser mais parecido com uma conversa com um amigo, aquele amigo perspicaz e atento e com um apurado sentido crítico. “Nunca alcancei o porquê de se postar uma foto com o novo namorado com a legenda “nunca tão feliz”. Ser feliz não é felicidade suficiente?” Quantas vezes já fizemos, a nós e com os outros, esta questão?

“Uma pesquisa do departamento de psicologia da Universidade de York, em Toronto, mostrou que internautas narcisistas com baixa autoestima tendem a ser mais ativos nas redes sociais.”

Maria Ribeiro assume-se, antes de mais como uma mulher com ambição e desejo de ser melhor, mas também como alguém que tem uma curiosidade pela vida que quer viver intensamente e, nesse aspeto, acaba por descer do pedestal da elite intelectual, e se tornar próxima das nossas vidas. Maria Ribeiro tem aquela característica invulgar, mas tão interessante, de se pôr em causa e gozar consigo própria e, talvez por isso, escreve de forma despretensiosa e usa o humor e a ironia para se referir aos temas que a preocupam e que são os temas dela mas também podiam ser os nossos!

“É que, assim como qualquer pessoa com um mínimo de angústia, não sou quem gostaria de ser. Meu “eu ideal” conheceria Machu Picchu e as savanas africanas, teria lido toda a obra do Tolstói (em vez da coleção do Tintim) e pediria, com água na boca, salada com grelhado e, todos os restaurantes.”

Profundamente envolvida e preocupada com o seu país – as crónicas foram escritas durante o período de Bolsonaro – Maria Ribeiro lança um alerta para o que o Governo de Bolsonaro está a fazer ao Brasil e aos brasileiros: “Temos uma responsabilidade muito grande, cara X. Porque a gente vive nesse país onde o Bolsonaro diz o que bem entende sobre estupro e tortura e não vai preso. Onde o secretário executivo do governo do Rio de Janeiro relativiza o episódio de agressão no qual esteve envolvido sete anos atrás perguntando “quem nunca perdeu o controle numa discussão?”

Crónicas escritas de forma leve sobre temas tao profundos e importantes, é impossível não rirmos da forma como se descreve e descreve a sociedade, mas também não ficamos indiferentes ao humanismo e à beleza com que descreve as relações entre as pessoas e a importância de tudo o que fazemos com e para os outros. “Pessoas são salvas por pessoas. Parece óbvio. Mas às vezes a gente esquece. Esquece que teve uma professora de literatura que um dia escreveu no quadro negro um poema do Manuel Bandeira que terminava com “te amo como se ama um passarinho morto”, e que aquelas palavras deram sentido e entendimento pra garota de oito anos que agora tinha duas casas – só que isso não era bom.”

Assim, se quiserem começar bem o ano, com a leveza e o sentido de humor, mas também com o otimismo e humanismo de uma autora tão completa quanto surpreendente, sugiro-vos que “descubram” a Maria Ribeira, “riam e conversem” com ela e verão como o Gregório Duvivier tinha razão quando se lamentava por Portugal ainda não conhecer Maria Ribeiro.

Boas leituras!

* Escreve, regularmente, a crónica literária "A Páginas Tantas"
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