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Viagens na minha terra: Cheguei tarde à Loja da Preciosa

Roteiro

O Facebook às vezes parece uma arca do tesouro das coisas inúteis. É um pouco como a nossa casa ou, no fundo, como a nossa vida: há sempre algum lixo acumulado, mesmo que o tentemos expurgar. Em cinco minutos de navegação recolhi esta pequena amostra: alguém posa para uma câmara com um sorriso de orelha a orelha, tão falso que se topa a léguas; outra pessoa exibe a feijoada do almoço; um passeio matinal com o cão também está registado para a posteridade; um fanático destila ódio por causa de uma derrota num jogo de futebol; um homem oferece ao mundo devaneios sobre a vida.

Esta listagem é em parte uma caricatura, claro. Peneirando todo o conteúdo, pequenas preciosidades reluzem ao lado das mais variadas impurezas, à espera de serem encontradas. Há uns dias, ao acaso, o título de um texto despertou-me a atenção: “A mercearia centenária Loja da Preciosa”. Mordi o isco e fui indagar.

O texto foi publicado no site Ondas da Serra, que não conhecia. Na sua própria descrição, “é uma plataforma web que visa promover a identidade regional e o turismo através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitetónico, pessoas, animais e tradições dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro” – e noutros, como Estarreja, como adiante se verá.

Lá – em ondasdaserra.pt –encontram-se, numa vista de olhos rápida, “Os melhores percursos de bicicleta no distrito de Aveiro”, “As mais bonitas aldeias rurais do distrito de Aveiro” ou “O que comer em Arouca”. E por aí fora.

Foi pois graças ao Ondas da Serra que soube da Loja da Preciosa. A beleza da imprensa local é que de outro modo dificilmente saberíamos da couve gigante no quintal da dona Maria, do presépio no vão da escada ou do buraco na rua.

O texto fala de uma velha mercearia em Estarreja, que o Ondas da Serra descobriu casualmente durante um passeio de bicicleta. À frente da loja, do alto dos seus 96 anos, estava Ilda da Silva Ferreira. Eis o tema para o meu próximo texto, pensei. E una dias mais tarde fiz-me ao caminho, no encalço deste espaço centenário.

“A mercearia centenária Loja da Preciosa” diz que a loja fica na Rua Dionísio de Mouro, à entrada de Estarreja, a sul, e foi para lá que me dirigi num sábado de manhã. Acontece que, ao chegar, me deparei com as portas fechadas. Os sinais não eram encorajadores e tudo parecia indicar que o estabelecimento já não funcionava. Peguei no telemóvel e procurei mais informações sobre a mercearia e sobre Ilda da Silva Ferreira. Percebi então que a notícia do Ondas da Serra não era recente. A mulher já morrera e a loja já fechara. Cheguei tarde à Loja da Preciosa.

O edifício é simples e bonito, com uma fachada com três portas de madeira e cinco janelas de guilhotina no andar de cima. Fica numa daquelas porções de cidade onde o pulsar da vida urbana quase não se sente. As ruas estão adormecidas e não se vê ninguém. A Linha do Norte passa quase ao lado e na rua que liga à estação vê-se um grande mural de Vilhs na parede de uma casa.

Apesar de não morar ali, eu próprio sinto que alguma coisa de essencial se perdeu. A Loja da Preciosa fazia parte da essência do bairro e as comunidades ficam mais pobres sem estes velhos vínculos. Não deixo de sentir que há qualquer coisa de lúgubre naquele lugar.

Mesmo em frente ficam as ruínas da Serração Ideal. Já nada mais resta de pé do que uma ou duas paredes precárias, com um grande descampado por trás. Numa delas, o 1 e o 5 de 1957 já caíram, restando apenas as marcas na pintura. Ao lado, um portão de madeira está agora ornamentado com o desenho de um peixe verde com cara de humano e uma placa de pedra, já com um canto desfeito, anuncia nove quilómetros para Angeja e 21 para Aveiro pela EN109. Recuperado está um edifício da antiga empresa de descasque de arroz, onde a Câmara de Estarreja instalou a Fábrica da História.

Ilda da Silva Ferreira já não está entre nós e a Loja da Preciosa também sucumbiu. Olhando para as fotografias que ilustram o texto do Ondas da Serra vêem-se velhos armários de madeira, os pesos da balança, mercearias nas prateleiras. Há ainda outra maneira de ‘entrar’ na loja sem nunca lá ter estado. O projecto Avivar Memórias, do município, fez uma série de entrevistas a figuras históricas ou populares do concelho e um dos episódios foi dedicado a Ilda da Silva Ferreira. Sabemos pelo texto introdutório que a mulher nasceu em 1921 e morreu em 2019. A 13 de Fevereiro de 2019, quando foi entrevistada, tinha 97 anos – e estava surda que nem uma porta.

Toda vestida de preto e um lenço na cabeça que não esconde na totalidade o seu cabelo branco, a dona Ilda está sentada ao balcão, com a balança por atrás e em fundo as paredes ainda cheias de produtos. A cara enrugada é a marca da vida longa que teve.

A loja deve o nome à sogra, Preciosa. O sogro veio de Ul, em Oliveira de Azeméis, para trabalhar na serração. Quando a mãe do marido morreu, foi ela que assumiu a gestão da mercearia – e ali se manteve durante mais de meio século.

Na conversa para o projecto Avivar Memórias, diz que “vendia de tudo”. “Tinha muita mercearia” numa altura em que “não havia supermercados”. Ao almoço também cozinhava para a sua clientela - chispe com feijão, feijoada, rissóis, bolos de bacalhau, sopa. “Era o que calhava. Ainda tenho aí umas panelas grandes de fazer a sopa”.

Ganhou “muito dinheiro” mas os calotes também eram “muitos” – tinha, por isso, um livro para apontar as dívidas. “Apontava todas as vezes que o freguês vinha, na frente do freguês. Depois quando era para pagar é que era o diabo”.

Trabalhava sozinha e só quando o marido chegava do emprego lhe dava alguma ajuda. Horário não havia. “Quando queria fechava e abria”. “Gostei muito de trabalhar nesta profissão, sempre foi a minha profissão desde pequena”, conta a dona Ilda, que ali passou “bons tempos”. Alguém lhe pergunta se foi feliz. “Fui assim-assim”, responde.

Pouco tempo depois daria o seu último suspiro e com ela finou-se uma loja histórica de Estarreja, numa zona escondida da cidade. Aos poucos as coisas vão sendo substituídas por outras – é a lei da vida. Mas é também assim que as cidades vão perdendo as suas velhas almas. Outras emergirão, melhores ou piores – cada um que deci

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