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Reescrever grandes obras para defender sensibilidades?

Opinião

A páginas tantas

Filipa Matias Magalhães*

Esta semana não partilho convosco nenhum livro que tenha gostado, antes partilho uma preocupação com os livros que teremos no futuro para ler e com o futuro dos livros tal como os conhecemos. Tenho assistido com muita preocupação a este movimento de algumas editoras terem querido reescrever obras literárias icónicas, de autores fantásticos, como Agatha Christie, Roald Dahl, Enid Blyton e Ian Fleming por considerarem que, à face das recentes sensibilidades, essas obras continham descrições físicas, referências étnicas, insultos, bem como referências a género, aparência ou peso dos personagens.

E embora, aparentemente, uma parte significativa da opinião publica fique contente com esta “limpeza” das obras que, supostamente, e de acordo com os editores mais puritanos, poderiam chocar as mentes mais sensíveis e permeáveis a expressões não neutras, mais causticas e acintosas, a verdade é que já vão sendo algumas as opiniões de individualidades conceituadas que se fazem ouvir para criticar este ataque injustificado e ilegítimo dos direitos de autores.

Salman Rushdie, Alice Vieira Mafalda Veiga, são apenas alguns dos autores que já se manifestaram publicamente contra esta atitude incompreensível.

Ao tentar perceber o que de tão grave poderia estar a justificar esta ousadia e arrogância intelectual daqueles que, não sendo os autores das obras, se atrevem a adulterar esses livros, percebi que o que estava verdadeiramente em causa era a utilização de palavras como “feio” ou “gordo”, utilizadas no livroCharlie e a Fábrica de Chocolate, que foram substituídas pela expressão "enorme", ou então a referância à palavra “negro” no livro de Ian Fleming, 007,Casino Royale, e a sua substituição pela expressão “pessoa negra” ou “homem negro”.

No caso dos livros infantis deEnid Blyton foi ainda mais grave, tendo estas sido retiradas das prateleiras das bibliotecas públicas de Devon por se considerar que tinham uma“linguagem desatualizada e ofensiva”, por utilizarem palavras como “queer”, “gay” ou “castanho”.

Sempre considerei que os livros nos ajudam a desenvolver o sentido crítico e que um leitor atento e conhecedor tem capacidade para perceber que o contexto, o tempo e o espaço em que os livros foram escritos explicam que algumas expressões que, à luz do momento que vivemos, possam ter uma interpretação menos correta, foram escritos sem qualquer intensão ofensiva. É preciso enquadrar os livros e as suas expressões no contexto em que foram escritos e essa é, justamente, uma das grandes capacidades da literatura e da arte.

Além disso, os livros têm ainda a capacidade de nos tornar mais empáticos, quando nos emprestam vidas e histórias que, não sendo a nossa, nos permitem vestir a pele de outras personagens, sofrer com os seus problemas e alegrarmo-nos com as suas alegrias. Essa empatia faz-nos compreender, sofrer e alegrarmo-nos com a vida dos outros, percebendo sempre que apesar de nos emprestar a sua pele, aquela história tem um propósito literário e um contexto e não pode ser mudada hoje à luz do tempo atual, sob pena de perder todo o sentido.

Por outro lado, a literatura é, de forma mais ou menos direta, o reflexo de um tempo e dos seus autores. Os livros são um espelho dos seus autores, das suas vivencias, das suas historias, frustrações, traumas e contexto em que viveram e escreveram e que, por isso, adulterar ou omitir uma palavra que seja dos seus livros é, não só uma arrogância intelectual dos editores atuais, como também um ultraje para com todos aqueles que deixaram a sua marca nas paginas dos seus livros e que se vêm agora sujeitos a ver a sua marca adulterada com base em hipersensibilidades atuais e que nada têm que ver com o contexto em que os livros foram escritos.

Não deixa, contudo, de ser estranho que numa época como a nossa, em que a ofensa escrita, verbal e visual é diária e está em todo o lado, nos sintamos nos ou, mais precisamente, os editores literários, se arroguem no direito de alterar e omitir o que julgam ser ofensivo, sem ter a capacidade de perceber o contexto em que determinadas expressões foram escritas, ou sequer de permitir que as obras em causa fiquem no contexto em que foram escritas e que os leitores as interpretem nesse contexto e, se as considerarem ofensivas, possam decidir por si se as querem ler ou não. Mas, por favor, não nos retirem a nós, leitores, o direito de tomarmos essa decisão.

Não só não temos o direito de alterar aquilo que não escrevemos, como não é legítimo assumirmos o papel dos autores e ousarmos reescrever ou pedir desculpas pelo que escreveram. Que arrogância esta de todos aqueles que se sentem no direito de pedir desculpa em nome dos outros!

Se formos capazes de assumir, corrigir e pedir perdão pelas nossas ofensas, já estamos a dar um contributo para uma sociedade mais respeitadora da sensibilidade dos outros. Mas não creio que fazê-lo em nome dos outros e relativamente a textos que não são da nossa autoria, nos seja legítimo.

Desperta em mim muito interesse assistir a esta preocupação excessiva em polir as palavras, omitir algum sarcasmo e sentido de humor ou medir o recurso às figuras de estilo e analogias, e adotar um estilo literário temerário e receoso de ferir sensibilidades. Estamos a caminhar para um mundo de livros insípidos, destituídos de espírito crítico e sem capacidade de nos desafiar o pensamento crítico. Tenho pena que isso aconteça, mesmo muita pena!

As redes sociais inundam-nos com mensagens estandardizadas, sem capacidade de nos desafiar a pensar de forma diferente e que potenciam um pensamento comum e uniformizado, e se não tiverem os livros a ousadia de romper com esta visão, estamos a dar um contributo grande para contribuir para o fim do conhecimento e do espírito crítico.

Ao longo da história, os livros foram censurados, odiados, temidos, queimados, escondidos, amados, venerados e assumiram sempre um importante papel junto daqueles que se serviram deles para dar início a revoluções, inspirarem multidões, iniciarem uma religião ou ideologia, provocar mudanças e permitirem a compreensão do mundo e dos outros, mas esse papel só foi possível porque nos transmitiram mensagens fortes e verdadeiras, e permitimos que os seus autores o fizessem de forma livre e não censurada e que, por causa disso, chegassem ate nos as suas mensagens não depuradas e desenxabidas.

Deixemos, pois, aos livros este papel de nos desafiarem o pensamento crítico, de nos ensinarem, de nos transformarem e nos lembrarem que há um imenso mundo de coisas para aprender e que esse mundo não está na mensagem pouco profunda, por vezes propositadamente falsa e destituída de espírito crítico que encontramos nas redes sociais. Essa é a beleza da literatura, não lhe retirem esse grandioso papel pois, como diz Ray Bradbury, “os livros servem para nos lembrar quanto somos estúpidos e tolo.”, e todos precisamos de nos lembrarmos disso sempre que lemos, para termos vontade de querer ser mais, pensar melhor e não nos deixarmos mergulhar nesta massa de pensamento mainstream e acrítico em que os outros pensam por nós.

Deixem que sejamos nós, leitores, a decidir o que nos ofende! Não queiram depurar os livros que lemos como se não fossemos capazes de perceber que o que verdadeiramente nos ofende é que nos tratem como “flores de estufa” que não têm a capacidade de rir das críticas, sem achar que estas lhes são dirigidas e se ofenderem.

Por uma literatura mais livre, crítica e ousada, deixemos aos autores o direito de se expressarem e aos leitores a capacidade de decidirem por si o que os ofende.

Com a promessa de vos trazer, da próxima vez, um livro não censurado...

* Escreve, regularmente, a crónica literária "A páginas tantas"

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