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Viagens na nossa terra: Pela estrada fora

Roteiro

As grandes viagens por estrada gozam de uma reputação heróica e não é por acaso que vias como a Route 66 encontraram expressão na grande literatura, fotografia ou cinema. Há qualquer coisa nas grandes distâncias - uma promessa de aventura, evasão, descoberta e superação - que instiga à partida. É uma pulsão pela qual muitos se deixam arrebatar. Nos livros, “On the road” (“Pela estrada fora”, nas edições portuguesas) é talvez a mais mítica das obras sobre essas grandiosas jornadas. Mas os exemplos abundam. Num livro acabado de ler, Paul Theroux deambula pelo sul dos EUA em viagens de centenas ou milhares de quilómetros por estrada, encontrando pelo caminho miséria, armas, religião e tensões raciais.

Por cá a EN2 é a que mais se aproxima dessas estradas lendárias. É a mais extensa estrada portuguesa - os seus 739,26 quilómetros ligam Chaves a Faro, atravessando 35 concelhos. É a única estrada na Europa, diz a Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2, criada em 2026, que cruza um país em toda a sua longitude, havendo apenas outras duas no mundo com essa característica: a Route 66, nos EUA, e a Ruta 40, na Argentina.

Há outra estrada nacional com semelhantes potencialidades turísticas. Pelo menos é nisso que acreditam os municípios que são atravessados por ela, entre eles Aveiro, Albergaria e Sever do Vouga. No total são 11 concelhos que querem replicar na EN16 o que é já feito na EN2. Com uma extensão de 220 quilómetros, a rodovia une Aveiro à fronteira, em Vilar Formoso, atravessando três distritos (Aveiro, Viseu e Guarda).

Atraído pelo projeto, que está ainda em fase preparatória, fiz-me à estrada. Mas dos 220 quilómetros, percorri apenas os 30 do distrito de Aveiro, antes de a estrada penetrar em Viseu – afinal estas linhas são publicadas na AveiroMag e não na ViseuMag ou na GuardaMag.

Em Aveiro, encontro o primeiro vislumbre da EN16 na Avenida Europa, a antiga EN109. Uma placa em Cacia aponta: “Albergaria N16”. Atravesso o Rio Vouga, viro à direita e prossigo.

A primeira parte do trajeto, até Albergaria, desenrola-se quase sempre por uma sucessão incaracterística de casas e empresas e vêem-se um motel e uma discoteca pelo meio. É um cenário desinteressante. Mas logo à saída de Albergaria, passado o seu centro, a textura da estrada e da paisagem muda repentinamente, como se tivesse transposto uma dobra do espaço e outro mundo totalmente diferente emergisse diante de mim.

Deixada a cidade para trás, a EN16 adquire as características de uma maravilhosa estrada de montanha, serpenteando entre curvas e desníveis pouco acentuados. As povoações não passam agora de pequenos lugares, como Valmaior ou Mouquim. Estou no país rural, com o seu ritmo próprio. Nesta porção bucólica, verde e pouco povoada, a EN16 está quase por minha conta, parecendo que atingi o Portugal desertificado a 30 quilómetros do mar.

Quase sem dar por ele, o rio insinua-se à minha direita, fazendo-me companhia daqui em diante. A estrada, bordejada por muretes caiados de fresco, vai-se tornando cada vez mais bonita mas tudo não passa de um prelúdio para o melhor que está por vir, logo ao dobrar da próxima curva. Quando a antiga ponte ferroviária do Poço de Santiago entra no meu campo de visão, sinto que esse é o apogeu da viagem. Paro o carro aproveitando uma reentrância da estrada e contemplo esta estrutura e a paisagem que a enquadra. Valeria a pena pagar bilhete por este espectáculo deslumbrante.

A ponte é agora usada como pista ciclável, acompanhando o antigo traçado da Linha do Vouga, há muito desactivado. É uma bela maneira de conhecer a região, por isso levar uma bicicleta na bagageira do carro é uma boa opção. Um ponto de partida para um passeio a pedalar pode bem ser o antigo apeadeiro de Cedrim, ao qual se chega após um pequeno desvio a partir da EN16. Logo após passar pelo Santuário de Nossa Senhora dos Milagres, uma placa indica a antiga paragem ferroviária, à direita. É uma humilde mas bonita construção que está hoje ocupada por algum lixo e por duas cadeiras metálicas que ali parecem ter ficado estranhamente esquecidas, como se o Estado não quisesse aquela velha sucata em alguma das suas arrecadações. O corredor por onde os vagões do Vouguinha circulavam nos seus dias de glória, entretanto extirpado dos carris, estende-se em ambas as direcções, cabendo ao ciclista escolher a rota que pretende seguir.

Uma vez em Cedrim, decido ocupar algum tempo nesta bonita aldeia de Sever do Vouga. Do apeadeiro rumo a um largo onde duas mesas no passeio denunciam a existência de um café. Entro no Bastos em cujo interior se encontra apenas uma velha senhora ao balcão a cumprir algumas tarefas e à qual peço um café, que vou beber para a rua, ao sol ameno de Junho. No fim pago 70 cêntimos, um preço já em vias de extinção, e, observando uma fotografia com iguarias locais pendurada numa das paredes, pergunto-lhe se as servem ali. “Por encomenda”, responde de forma distraída e sem passar grande confiança.

Prossigo até outra praça onde contemplo a igreja e um bonito fontanário que a Junta de Freguesia mandou construir em 1956, num largo cuja placa toponímica está parcialmente coberta por uma hera que vai conquistando cada centímetro da parede, como um exército invasor num campo de batalha. Ir atento a estes pormenores, que passam despercebidos sem um olhar curioso, faz parte do encanto da viagem e é uma boa maneira de conhecer aquilo que o país ainda é. Outro bom mostruário de Portugal são os cartazes colados nas paragens dos autocarros ou nas montras dos cafés. Um deles anuncia as Festas em Honra de Santo António em Quintela, com actuações de Republika, Topsom e Joãozinho e suas bailarinas. Noutro a Junta de Freguesia de Talhadas divulga os cursos “Manobrador de máquinas” e “Conduzir e operar com tractor em segurança”. Noutro ainda é anunciado o 49º Ralicross de Sever do Vouga e ao lado um papel da Paróquia de São João Batista de Cedrim informa os fiéis dos horários da recitação do terço mariano. Mas há mais: ao longo do percurso encontro cartazes sobre a Festa em Honra da Senhora do Remédio em Sanfins, do 7º Festival de Concertinas em Mouquim e de uma caminhada solidária em Cedrim. E para quem não descortinar o potencial lírico da palavra “pistão”, eis uns versos gravados num azulejo que decora uma fonte de onde jorra um fino fio de água: “Esta biquinha que vedes, É de muita estimação, Se aqui quiser beber água, É carregar no pistão”.

Regresso à EN16 e rapidamente alcanço a fronteira do distrito. O limite está traçado por uma anacrónica placa da Direcção de Estradas do Distrito de Aveiro – e outra da Direcção de Estradas do Distrito de Viseu no sentido oposto - e por uma bomba de gasolina. Não encontrando maneira mais solene de celebrar este momento simbólico, paro para abastecer o carro. Ao contrário do que acontece na maioria dos postos, neste é um homem que faz o serviço por nós. Aproxima-se da janela, passo-lhe a chave para a mão e informo-o da quantia com que quero que encha o depósito. Aguardo pelo fim da operação sem abandonar o meu lugar ao volante e só saio para pagar, no interior de um pequeno casebre que ao mesmo tempo funciona como café e quiosque.

A um ritmo vagaroso, demorei uma hora a atingir o limiar do distrito. Dou meia volta e começo a percorrer o caminho inverso ao som das estações de rádio locais que, embora com intermitências, a antena do carro consegue captar. Oiço Tony Carreira, Ágata e Quim Barreiros e rio-me quando oiço “abriu a perna e Tomé tatua, pôs-se de costas e Tomé tatua” entoado pelo trovador de Vila Praia de Âncora. Os anúncios entre as canções promovem os rebuçados Bayard (“Com os rebuçados Bayard a tosse vai ao ar”), o Café Ferradura e Maria Piedosa, cartomante e vidente.

Em alguns troços a estrada é orlada por árvores frondosas e de grande majestade – carvalhos e plátanos, talvez, mas como mal distingo uma palmeira de um limoeiro o melhor é não arriscar nomes. O comércio nas margens da EN16 rareia. Passei por um ou dois cafés que pareciam abandonados, bombas de gasolina, uma companhia de seguros, uma farmácia. Defronte para o Rio Vouga, algures no concelho de Sever do Vouga, um singelo mas bonito edifício conserva placas e letreiros que revelam as suas antigas funções – num vê-se a insígnia do Banco Pinto & Sotto Mayor com a legenda “banco correspondente” e noutra, mais abaixo, lê-se Banco Totta e Açores. A placa dos Jogos Santa Casa é o que liga o edifício ao presente.

Vou-me cruzando com várias bonitas casas construídas na borda da estrada, nem todas em bom estado. A Vivenda Augusto Manuel é um exemplo. O nome com que a propriedade foi baptizada está inscrito num pequeno painel de azulejos bem conservado mas o edifício apresenta vários sinais de degradação, como as paredes da fachada a descascar. É uma bela casa de dois andares e águas-furtadas que bem merecia recuperação. Alguns velhos edifícios estão à venda e, se tudo correr bem, serão renovados, ao passo que outros parecem caminhar para uma ruína irreversível – uma chaga infelizmente comum em Portugal.

Agora com o rio à minha esquerda, reparo que algumas reentrâncias da estrada estão a ser usadas para aquilo que a Câmara de Sever designa por Mirantes do Vouga, pequenas varandas com vista para o curso de água que corre mais abaixo. Pelo caminho noto também nos antigos marcos que indicam o quilómetro da estrada em que estou e a distância que falta percorrer até às terras seguintes.

Num tempo de autoestradas e vias rápidas, a EN16 é, pelo menos em muitos dos seus troços, um convite à demora e à lentidão e uma forma de nos embrenharmos num maravilhoso Portugal que vai resistindo como pode fora das grandes cidades.

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