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Livros em trânsito

Opinião

Rui Cunha

O pacote repousa na caixa de correio, misturado com folhetos do Lidl e do Continente anunciando mirtilos e entremeada, com o papel pardo envolvido por um cordel que dá duas voltas em forma de sinal mais e seguro por um laço numa das faces da encomenda. Transporto o embrulho para dentro de casa e inicio a operação de desembalamento. Sei que é um livro – estava à espera dele e o formato da embalagem não engana. E, reparo também, o remetente escreveu “contém livro”, como que para prevenir os senhores dos CTT de que lhes foi confiada uma carga sensível e preciosa.

Desfaço o laço, desenrolo o cordel e abro o papel em que o livro vem embrulhado, um papel maleável mas com uma consistência protetora ao mesmo tempo. Ei-lo, o livro, jazendo imóvel ao fim de uma viagem de 300 quilómetros desde Lisboa. Mas, já o sabemos, a carga é delicada e valiosa e por isso o volume foi acondicionado com o mesmo zelo de uma peça de cristal ou vidro frágil, passível de quebrar ao mínimo toque.

A película aderente tem várias utilizações – na cozinha ou em salões de beleza, por exemplo. Mas o nosso cuidadoso remetente deu-lhe outro uso. Pegou num rolo e, garanto-vos, não foi poupado. A quantidade que usou para envolver o meu livro daria para embrulhar as sandes de queijo e fiambre de uma turma inteira em excursão ao Mosteiro da Batalha. Não quero mentir, mas estive dois minutos só a desenrolar – foi um bom exercício para o braço e o pulso. Imagino-o, ao meu parceiro de leituras, na sala lá de casa algures na capital com uma ânsia febril de proteger o melhor possível aquele seu património de papel de que estava prestes a libertar-se, certamente a custo, porque quem gosta de livros não se desfaz de um como quem deita fora uma camisa velha.

Os livros são um assunto sério e os nossos cúmplices nesta coisa da troca de livros merecem-nos um respeito infinito. Até hoje não recebi um único volume em casa que não estivesse preparado para os mais violentos acidentes e eventualidades. Se uma grua de duas toneladas caísse em cima da sacola do carteiro, o livro escaparia incólume quase sem um vinco numa página.

É verdade que nenhum outro comparsa gastou dez metros de película aderente mas todos os invólucros que me chegaram a casa foram arquitetados com materiais resistentes, capazes de sobreviver a sismos, furacões e outras calamidades. Película aderente, envelopes acolchoados, folhas de plástico com bolhas – é só dizer.

Esta não é só uma comunidade de frias transações, como se fôssemos um bando de agiotas sem coração. Respeita-se a pessoa com quem se faz uma troca enviando-lhe o livro em perfeitas condições. Mas vamos além disso – há amor. Alguns de nós fazem acompanhar os livros de pequenos bilhetes escritos à mão, alguns com uma caligrafia cuidada de escola primária, como se pertencêssemos a uma fraternidade onde cada acontecimento tivesse de obedecer a um ritual de reforço da comunhão entre todos. Num post-it amarelo colado a um livro leio: “Olá Rui. Obrigado pela sua compra. Desejo que tenha uma leitura mágica. Boas leituras, Sofia”. Também nas mensagens trocadas no site há emojis sorridentes, agradecimentos e votos de boas leituras, com pontos de exclamação no final de muitas frases.

Não são só os livros que andam em trânsito – também nós. Uma das modalidades disponíveis é a entrega de livros em mãos, o que uma vez me levou a Albergaria ao encontro de alguém que tinha para mim uma obra que eu desejava.

Qualquer que seja a modalidade, tem sido para mim uma experiência útil no processo de depuração da minha biblioteca. A verdade é que desde que sou um adquirente de livros, já lá vão uns anos, fui acumulando sem critério – ou com algum critério que fez sentido um dia mas que deixou de fazer. Ou seja, heresia talvez, tenho livros que não me interessa ter. Vou à pilha dos livros que retirei das estantes para lhes dar novo destino e um deles é sobre a queda da ponte de Entre-os-Rios. Alguém que lhe dê o valor que eu agora não lhe consigo dar - do armazém de frases-feitas retiro “o lixo de uns é o tesouro de outros”. Prometo, a quem o cobiçar, embrulhá-lo em papel aderente e escrever um bilhete carimbado com o selo da nossa irmandade. Outro fenómeno é o dos livros repetidos. Houve mesmo um caso de gémeos siameses: o mesmo título de Julian Barnes, da mesma editora e da mesma edição. Parece uma novela da TVI, mas estes irmãos foram separados.

Neste mergulho nas águas estagnadas da minha biblioteca pesquei então uma rede cheia de livros que, assim o desejo, serão enviados para outras prateleiras. Há uma regra sagrada: não deito livros fora. Vendo, troco, ofereço, mas o lixo não é o lugar dos livros. A vantagem destes grupos e sites de troca é que permitem escoar as nossas sobras ao mesmo tempo que recebemos material fresco, mesmo que, em muitos casos, os livros sejam velhos e gastos. Por um euro ou dois – um pouco mais quando os livros vão em peregrinações maiores ou quando são calhamaços pesados – deixamos a nossa encomenda no correio após uma subtil homenagem pelos bons serviços prestados e esperamos que a paga chegue na volta do correio.

E é uma dessas pagas que acabo de receber agora mesmo. Desta vez é um envelope branco vindo de Queluz, com um cordão em forma de sinal mais. Lá dentro mais um livro nómada, embrulhado – adivinharam – em papel aderente.

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