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“A gorda”, de Isabela Figueiredo

Opinião

A páginas tantas

 

Em agosto li “A gorda”, o primeiro livro de Isabela Figueiredo, e não pude deixar de sorrir com a premonição que a escolha deste livro, sobretudo pelo título, poderia significar! Mas casualidades e coincidências à parte, quando terminei a sua leitura não consegui deixar de pensar em como era possível só agora ter conhecido esta maravilhosa escritora. É tão fácil mergulhar na sua escrita simples e envolvente, mas tão intensa e cativante e com as figuras de estilo mais acertadas e inesperadas que esconde, onde menos se espera, o sentido de humor tão subtil e inteligente que caraterizam a protagonista Maria Luísa, ou será que caraterizam a própria escritora e nos desvelam a sua ferramenta para combater o bullying e a sua relação com o corpo?

É que, não obstante a autora tenha, desde o início do livro, feito questão de esclarecer que este livro é mera ficção, nada tendo de biografia, a verdade é que a descrição das personagens, das situações concretas e até a forma como encadeia os tempos do romance, associando-os aos espaços da sua casa, ficamos com a ideia que só pode ser obra de quem encontrou em Maria Luísa uma forma de reviver o seu passado e, de através dele, compreender melhor o seu presente.

Por outro lado, a naturalidade e o realismo de todas estas descrições colocam-nos no papel da Maria Luísa e convidam-nos a viajar à nossa infância e, sobretudo para aqueles que também foram alvo dos mais diversos tipos de gozo ou afastamento, por alguns dos seus aspetos físicos ou outros, este é um convite à reflexão do quão presente o nosso passado está na nossa vida e de como tantos episódios e acontecimentos nos marcaram e nos deram mais força ou nos enfraqueceram. É, ainda que não para todos da mesma forma, um voltar à nossa infância e juventude e perceber o que dela trouxemos para a vida adulta.

Peço aos mais sensíveis que ponham de parte qualquer crítica de gordificação ao livro e que se dêem a oportunidade de descobrir a vida da Maria Luísa, uma menina e mulher muito inteligente, culta e voluntariosa, cuja infância, adolescência, juventude e vida adulta contou sempre com uma presença forte.... pormenor de pouca importância perante todos estes atributos... mas que a fez sentir-se tantas vezes triste, desesperada e isolada - Maria Luísa é gorda! E o seu aspeto físico, a forma como os outros a tratam por causa disso, mas também a forma como ela se sente e se vê por causa do excesso de peso, acompanham-na desde a infância e não a abandonam mesmo em adulta.

Este é um livro sobre o bullying e os seus efeitos em todos aqueles que com eles sofrem, nas mais diferentes fases da sua vida, porque os seus efeitos e consequências não têm um prazo definido e por vezes deixam marcas que nem a idade nem a maturidade conseguem apagar. Mas, mais do que isso, este é um livro sobre a capacidade que algumas pessoas têm de se agarrarem às suas forças e as usarem para ultrapassar o afastamento e a tristeza. No caso da Maria Luísa, o que a salvou foi o gosto por ler e escrever. Estas foram as suas maiores ferramentas para superar as suas “fraquezas” e a solidão para que estas as remetem. “Sabia viver sem os que amava, mas sem escrita a vida não tinha por onde continuar.”

Maria Luísa é, de facto, apesar dos momentos em que a conseguimos visualizar triste e sozinha, como acontece no baile da escola, uma heroína e uma menina capaz de (quase) superar os seus complexos, ainda que por vezes estes tomem conta dela e a angustiem de forma muito difícil de ultrapassar.

Acompanhar a história da Maria Luísa desde criança é também conhecer a relação dela com os pais - foi enviada para o Internato na Lourinhã enquanto os pais trabalhavam os últimos anos no estrangeiro, antes de regressarem a Portugal como retornados. Também na sua relação com os pais, Maria Luísa não teve uma vida fácil, pois não tinha neles o seu porto de abrigo e a sua ausência durante grande parte do seu crescimento fez com que as diferenças entre eles se agudizassem.

Mas apesar de diferentes, pelo facto de terem seguido rumos distintos, o amor de Maria Luísa pelos pais vai estando mais presente à medida em que cresce e a companhia dos seus pais passa a ser diária e a necessidade dos seus cuidados mais premente. A autora recorre a uma forma muito original para nos dar conta das diferenças entre a mãe e a Maria Luísa, partindo da ligação da historia à descrição dos espaços físicos da casa e da sua decoração, para evidenciar a diferença de gostos entre ambas e para a forma casta e obediente como a mãe sempre encarou o seu relacionamento com o marido, para mostrar como Maria Luísa se posiciona nos antípodas deste status quo tão característico na época. “Eu e a mamã não temos os mesmos gostos. Não somos da mesma fibra. Separam-nos tempo, educação, mundo. Que mulher tão desconforme de mim!”

Maria Luísa reconhece nos pais duas pessoas completamente diferentes mas que, ainda assim, mantiveram o casamento até o pai morrer. E reconhece em ambos caraterísticas com as quais aprendeu e que se refletem nela. “Com ele experimentei o atordoamento dos sentidos. Com a mamã aprendi que devemos controlar todos os excessos, de preferência evitando-os, resistindo-lhes árdua e vitoriosamente. Se sabe bem é vicio. Extermine-se. Entre o papá e a mamã a diferença entre o ‘faz, não faz, come, não come, vai, não vai’. O papá vivia, a mamã mantinha o barco à tona...”

Apesar das diferenças e da ausência durante a sua infância, é inquestionável o amor e a dedicação de Maria Luísa aos pais. “Só quero agradar aos papás, ter boas notas, emagrecer para ficar linda como a Olívia Newton John, arranjar um namorado quanto tiver dezoito anos, depois casar, ser amada para sempre sem sobressaltos, ter filhos e um trabalho no qual seja feliz.”

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Maria Luísa descreve a mãe como uma pessoa sempre distante e formal, representa tudo o que na época eram os requisitos para um bom matrimonio: “a mamã não era uma louca qualquer, mas uma senhora católica de província, prendada, trabalhadora e dedicada. Sem caprichos nem veleidades. Com os pés bem assentes na terra. Sentia-se feliz por ter conseguido encontrar um parceiro que parecia poder oferecer-lhe uma vida melhor.”

O pai, desde sempre um bon vivant ensinou a Maria Luísa o gosto pela vida e como retirar prazer de tudo na vida, até mesmo da comida. Ensinou-a a ver os seus dias com esperança de que a beleza estava em tudo e que era importante saber reconhecê-lo e viver a vida com intensidade. A mãe era ponderada, serena, temerosa e sempre o fiel da balança a manter o equilíbrio do casamento.

O livro e a história de Maria Luísa são marcados por momentos que a fazem pôr em causa o seu afeto e dedicação às pessoas ou a falta daqueles e isso acontece com a morte do pai que reconhece nunca ter valorizado devidamente enquanto vivo, encarando-o sempre como um “velhote antiquado, cheio de sentenças” e após a sua morte, lamenta tal facto. “As pessoas morrem e depois já não podemos dizer-lhes de viva voz que tinham razão, que aprendemos as suas lições, que compreendemos o quanto nos amaram e as amámos, ainda amamos, não tendo culpa de aqui andarmos tantos anos cegos, surdos e mudos.”

Outro momento que marca muito a Maria Luísa é a sua relação com o amor da sua vida, David, com quem tem um romance tórrido e um desgosto que a abala profundamente pelos motivos da separação – David, por muito apaixonado que estivesse por Maria Luísa, não consegue assumir perante os colegas de faculdade, que namora com uma “gorda”. Profundamente abalada com o fim desta relação, Maria Luísa prossegue a sua vida, com alguns affairs e romances de pouca importância pelo meio e, mais tarde volta a encontrar-se com David quando vai dar aulas para a escola onde este também é professor e aí, voltam os dois a envolver-se e.... novamente.... acabam por se separar pois como David lhe explica quando lhe diz que não consegue abandonar a mulher e as filhas: “Juntamo-nos porque há simpatia inicial, depois o enamoramento, mas também para que olhem por nós, nos tragam um chá e um cobertor. Sabe bem haver quem se preocupe connosco, nos toque no braço, nos cabelos e nas mãos. Juntamo-nos para que as vidas se justifiquem e legitimem, ao assemelharem-se a todas as outras.”

A verdade é que a vida amorosa de Maria Luísa, teve tanto de preenchida como de mal sucedida, desde o marido da prima que tenta abusar de si até aos colegas que dela se aproximavam para depois se afastarem sem qualquer explicação. A verdade, e Maria Luísa acaba por reconhecer alguma verdade nos conselhos da mãe, mulher de um homem só ate morrer: “Os homens fartam-se depressa, dizem as mulheres mais velhas. Os homens são inconstantes, permanentemente insatisfeitos. Nunca confiar neles. Nunca acreditar e muito menos esperar, alimentar ilusões.”

Se há um campo da sua vida onde Maria Luísa parece tirar satisfação é na sua profissão, que não obstante mal remunerada, ao ponto de a fazer ter que abdicar da empregada por não ter capacidade de pagar as suas contas, a realiza por poder fazer uma das coisas que mais gosta: ensinar, ler e escrever.

Mas também aqui, enquanto professora, Maria Luísa reconhece que é, tantas vezes empurrada para tarefas burocráticas que a desviam da sua principal paixão e olha para o sistema – cada vez mais assim – como uma cadeia de hierarquia servil, na qual nos embrenhamos em tarefas mecanizadas e pouco estimulantes que retiram a novidade aos dias e o entusiasmo ao nosso trabalho. Esta crítica, na profissão dos professores acaba também por ser uma crítica transversal a todas as outras profissões. “Quando trabalhamos como escravos que dependem de segundos escravos que reclamam sobre terceiros, a vida passa e não damos por ela, entorpecidos pela engrenagem.” Creio não estar muito enganada se disser que todos, em dado momento das nossas vidas já tivemos este sentimento.

Não posso, também aqui, deixar de falar noutra reflexão tão pertinente e atual da autora: “Ninguém conhece a minha vida, mas espera-se que seja tão normal como a dos funcionários que apresentam qualquer outra combinação de algarismos, que me sinta satisfeita no cumprimento da normalidade lobotomizada, que me levante, lave, vista, penteie, saia e trabalhe. Há regras a cumprir.”

Referindo-se ainda ao ensino e à escola, a autora reconhece não ser um espaço para pessoas com espírito crítico, sensíveis e que ousam questionar. “Não há aqui lugar para abusadores, preguiçosos sentimentais nem mentes sensíveis e frágeis que questionam o inquestionável , que se fragmentam e desabam. Os sentimentos regulados por decreto-lei, despacho normativo e portaria. Cumprem-se prazos. Não cumpriu o prazo? Penalização. Não há desculpas.”

O amor da Maria Luísa pela leitura e pela escrita, e também a sua capacidade de apreciar e se deixar encantar pelo belo – caraterística que herdou do pai – são a sua maior força e fonte de resiliência. Maria Luísa encontra nelas as suas asas para voar e se afastar de todos e de tudo o que lhe causa desgosto.

“Tirando a arte, as rosas, o mar, o gato vadio que não tem uma pata, os ouriços-cacheiros clandestinos que aparecem à noite no baldio em frente, os pombos que pousam aos nossos pés pedindo restos de pão velho, que interesse tem a vida? Tirando a fantasia que nos arranca à escuridão parada dos dias sucedendo-se indistintamente, o que vale o tempo que nos foi dado ou que viemos procurar?”

Aceitem o convite da Maria Luísa para viajarem à vossa infância, através desta curta viagem que o livro nos convida a fazer, e perceberem que são tantas as nossas forças e que o belo estará sempre a ajudar-nos a superar as nossas fraquezas!

Boas leituras!

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