Já não existe o sossego que encontrávamos no sótão, em que adormecíamos no sofá, junto aos catos, escutando o vento a raspar o barro alaranjado das telhas. Imaginávamos o forte sopro vindo de norte a varrer a ria, marulhando as águas, torturando os ramos das árvores no jardim da casa vizinha, nas traseiras da sua botica. Sabíamos, pela experiência de outras tardes, que a areia esvoaçaria na praia, no oceano, não muito distantes, onde a silhueta do navio parecia, vista do areal, uma sombra lenta, um barco fantasmagórico que se estivesse a consumir, tomado pela névoa da lonjura.
Na dolente tardada de verão, subidos os degraus de madeira, passado o corredor de taco encerado, havia uma porta de madeira escura antes de se entrar no salão. Na divisão, mais comprida do que larga, a cadeira debaixo da claraboia absorvia, todo o dia, a luz que o céu derramava para a terra. Líamos coisas que nos pareciam antigas, como se agora os miúdos lessem as revistas ou os almanaques que ficaram nas prateleiras das estantes nos anos 80 ou 90 do século passado. Nomes, histórias e façanhas que não reconheceriam, episódios velhos, datados, medicamentos fora do prazo de validade, utensílios obsoletos.
Morávamos na pacata Rua do Dr. Manuel Firmino, de sentido único para os passageiros dos automóveis ou para a padeira quando existia uma que trazia as carcaças farinhentas nos cestos de tamanho simétrico. Ainda te recordas do pregão da varina que poisava a canastra no chão e esperava que a avó decidisse escolher o robalo ou a dourada? Ou que as suas lentes graduadas inclinassem os olhos quase cegos para o carapau. Em frente ao nosso n.º 30, na alfaiataria, o Sr. Amadeu Pinho cosia as peças de tecido de acordo com as marcas riscadas pelo giz. Amadeu cantava as palavras, fosse pela influência dos canários engaiolados que o observavam, filiasse a pronúncia na tradição da oralidade da Beira-Mar, que possui uma teatralidade afetuosa, leva-nos a uma ópera suave como a que se ouvia nas colunas do gravador na Barbearia Miranda, enquanto os ferros da tesoura se cruzavam, no gemido metálico, para encurtar o cabelo e o Senhor Miranda fumava os cigarros com a ânsia da fome que nos fazia pensar que a mortalha branca do tabaco escondia um pequeno cilindro de chocolate.
Nos meses de verão, nas férias escolares, o sótão foi um ateliê sem tutoria. Sofremos todo o bem e o todo mal possíveis a quem descobre o poder de uma aparelhagem hi-fi da Technics. Aprendemos, quase por instinto, a colocar o disco no prato, a pegar no braço, a deixar cair a agulha sobre o vinil e rendemo-nos a essa magia que trazia a música. Além dos discos de 45 Rpm, que ouvimos até ao osso da gravação, as cassetes desenrolavam-se do leitor e, uma ou outra vez, mais vezes depois, passávamos para a rádio, para os programas de culto ou regressávamos, já com ironia crítica, aos discos pedidos. “A frase de hoje é” fazia a publicidade ao patrocinador das canções mais populares, temas a que só podia por esta de solicitação oracula.
Ouvíamos o que estava nos armários, sem referência ditada, sem tutoria paternal, mas afinal herdamos as suas escolhas. Por lá encontravam-se mundos em estágios diferentes: a música portuguesa de José Afonso, do Sérgio Godinho, da Brigada Victor Jara, o acordeão e a voz de Édith Piaf a sofrerem Paris, os Gatos Selvagens a competir no rock ligeiro que chegava de França no mesmo correio que entregava os livros de Albert Camus. Mas, havia também a rebeldia poética de Bob Dylan, os campos de morangos dos Beatles pisados pelos Led Zeppelin, as experiências sonoras dos Pink Floyd e David Bowie a domar a loucura que, a todo o tempo, o ameaçava com o triste destino do irmão.
Nós, os aveirenses deste tempo, sentimos que as nossas vivências locais, o apego a esta terra, hoje, pouco importam. Querem os forasteiros fazer acreditar que fizemos tudo mal e que não tínhamos razão para ser felizes. Todavia, éramos. Saíamos às ruas, aos largos, aos adros, às praças, éramos do bairro, da família, e essa pertença era muito forte. Por que razão não pode voltar a ser? Claro que pode.
Agora acinzentaram a paisagem até à dita moda a transformar na passadeira do féretro, vestiram-lhe a casaca escura de enterro e o buraco na terra foi aberto para cumprir a tendência sombria do coveiro.
Há mais tons de cemitério e menos cores da natureza. Existe mais a autoridade do exército de sinais de trânsito de ferro e da infantaria de pilaretes mal fardada, e menos mobilidade e circulação descontraídas. Conta-se mais os medonhos silos de lixo e menos o bom senso para ajuizar alternativas de volume e localização das sanitas colocadas na sala de visitas urbana.
Da estação de caminhos-de-ferro até ao Rossio, passando pelas “pontes”, o caminho parece escoado do rabo de um camião de cimento: um mar de chumbo com ondulações a testar as suspensões dos esqueletos humanos a cada meia dúzia de metros. As vias têm o encanto postiço de uma cidade da Playmobil de contrafação, o espaço desalmado que podia caber na topografia de qualquer povoação suburbana a que se chega à noite para colocar a sacada de ossos na cama e se desperta, umas horas depois, para pedir aos músculos para carregarem o corpo até ao arruamento em que o transporte público não espera pelo atraso do passageiro.
Passaram uma borracha sobre Aveiro, arrancaram as memórias pela raiz. Moribundos, mas não mortos, é obrigação dos aveirenses não cruzarem os braços.