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Magazine online generalista e de âmbito regional. A Aveiro Mag aposta em conteúdos relacionados com factos e figuras de Aveiro. Feita por, e para, aveirenses, esta é uma revista que está sempre atenta ao pulsar da região!

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Mais sentimentalismo, menos “cimentalismo”

Opinião Ler mais tarde

Já não existe o sossego que encontrávamos no sótão, em que adormecíamos no sofá, junto aos catos, escutando o vento a raspar o barro alaranjado das telhas. Imaginávamos o forte sopro vindo de norte a varrer a ria, marulhando as águas, torturando os ramos das árvores no jardim da casa vizinha, nas traseiras da sua botica. Sabíamos, pela experiência de outras tardes, que a areia esvoaçaria na praia, no oceano, não muito distantes, onde a silhueta do navio parecia, vista do areal, uma sombra lenta, um barco fantasmagórico que se estivesse a consumir, tomado pela névoa da lonjura.

Na dolente tardada de verão, subidos os degraus de madeira, passado o corredor de taco encerado, havia uma porta de madeira escura antes de se entrar no salão. Na divisão, mais comprida do que larga, a cadeira debaixo da claraboia absorvia, todo o dia, a luz que o céu derramava para a terra. Líamos coisas que nos pareciam antigas, como se agora os miúdos lessem as revistas ou os almanaques que ficaram nas prateleiras das estantes nos anos 80 ou 90 do século passado. Nomes, histórias e façanhas que não reconheceriam, episódios velhos, datados, medicamentos fora do prazo de validade, utensílios obsoletos.

Morávamos na pacata Rua do Dr. Manuel Firmino, de sentido único para os passageiros dos automóveis ou para a padeira quando existia uma que trazia as carcaças farinhentas nos cestos de tamanho simétrico. Ainda te recordas do pregão da varina que poisava a canastra no chão e esperava que a avó decidisse escolher o robalo ou a dourada? Ou que as suas lentes graduadas inclinassem os olhos quase cegos para o carapau. Em frente ao nosso n.º 30, na alfaiataria, o Sr. Amadeu Pinho cosia as peças de tecido de acordo com as marcas riscadas pelo giz. Amadeu cantava as palavras, fosse pela influência dos canários engaiolados que o observavam, filiasse a pronúncia na tradição da oralidade da Beira-Mar, que possui uma teatralidade afetuosa, leva-nos a uma ópera suave como a que se ouvia nas colunas do gravador na Barbearia Miranda, enquanto os ferros da tesoura se cruzavam, no gemido metálico, para encurtar o cabelo e o Senhor Miranda fumava os cigarros com a ânsia da fome que nos fazia pensar que a mortalha branca do tabaco escondia um pequeno cilindro de chocolate.   

Nos meses de verão, nas férias escolares, o sótão foi um ateliê sem tutoria. Sofremos todo o bem e o todo mal possíveis a quem descobre o poder de uma aparelhagem hi-fi da Technics. Aprendemos, quase por instinto, a colocar o disco no prato, a pegar no braço, a deixar cair a agulha sobre o vinil e rendemo-nos a essa magia que trazia a música. Além dos discos de 45 Rpm, que ouvimos até ao osso da gravação, as cassetes desenrolavam-se do leitor e, uma ou outra vez, mais vezes depois, passávamos para a rádio, para os programas de culto ou regressávamos, já com ironia crítica, aos discos pedidos. “A frase de hoje é” fazia a publicidade ao patrocinador das canções mais populares, temas a que só podia por esta de solicitação oracula.

Ouvíamos o que estava nos armários, sem referência ditada, sem tutoria paternal, mas afinal herdamos as suas escolhas. Por lá encontravam-se mundos em estágios diferentes: a música portuguesa de José Afonso, do Sérgio Godinho, da Brigada Victor Jara, o acordeão e a voz de Édith Piaf a sofrerem Paris, os Gatos Selvagens a competir no rock ligeiro que chegava de França no mesmo correio que entregava os livros de Albert Camus. Mas, havia também a rebeldia poética de Bob Dylan, os campos de morangos dos Beatles pisados pelos Led Zeppelin, as experiências sonoras dos Pink Floyd e David Bowie a domar a loucura que, a todo o tempo, o ameaçava com o triste destino do irmão.

Nós, os aveirenses deste tempo, sentimos que as nossas vivências locais, o apego a esta terra, hoje, pouco importam. Querem os forasteiros fazer acreditar que fizemos tudo mal e que não tínhamos razão para ser felizes. Todavia, éramos. Saíamos às ruas, aos largos, aos adros, às praças, éramos do bairro, da família, e essa pertença era muito forte. Por que razão não pode voltar a ser? Claro que pode.

Agora acinzentaram a paisagem até à dita moda a transformar na passadeira do féretro, vestiram-lhe a casaca escura de enterro e o buraco na terra foi aberto para cumprir a tendência sombria do coveiro.

Há mais tons de cemitério e menos cores da natureza. Existe mais a autoridade do exército de sinais de trânsito de ferro e da infantaria de pilaretes mal fardada, e menos mobilidade e circulação descontraídas. Conta-se mais os medonhos silos de lixo e menos o bom senso para ajuizar alternativas de volume e localização das sanitas colocadas na sala de visitas urbana.

Da estação de caminhos-de-ferro até ao Rossio, passando pelas “pontes”, o caminho parece escoado do rabo de um camião de cimento: um mar de chumbo com ondulações a testar as suspensões dos esqueletos humanos a cada meia dúzia de metros. As vias têm o encanto postiço de uma cidade da Playmobil de contrafação, o espaço desalmado que podia caber na topografia de qualquer povoação suburbana a que se chega à noite para colocar a sacada de ossos na cama e se desperta, umas horas depois, para pedir aos músculos para carregarem o corpo até ao arruamento em que o transporte público não espera pelo atraso do passageiro.

Passaram uma borracha sobre Aveiro, arrancaram as memórias pela raiz. Moribundos, mas não mortos, é obrigação dos aveirenses não cruzarem os braços.

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O Dr. Alberto Souto de Miranda já os descruzou e do arregaço de mangas surgiu o livro “Um Futuro para Aveiro – 101 Ideias”, talvez o mais completo imaginário para o que pode ser Aveiro. Não creio que uma obra assim pudesse ser concebida por um visitante. O livro, parto de um aveirense sistematiza uma série de oportunidades, conjuga-as. Leitura muito aconselhada.

Espera-se que estejamos no fim de um tempo de amadorismo inglório, de uma manta de retalhos urbanística, de impulsos vaidosos e de realizações avulsas e precipitadas. É preciso que sintamos que estamos no princípio de uma cidade que se vai reconhecer a si mesma. A que desfralde as palmeiras no Rossio, as “sentinelas” que Amadeu de Sousa descreveu nos seus versos. Que a nova ponte ligue o Alboi e a lota aos jardins da Urbanização de Santiago e assim se complete o corredor verde para o usufruto em contínuo da frente de ria e dos parques intermediários do Alboi, Infante D. Pedro e o dos Amores. Que o telhado do parque subterrâneo tenha mais vida do que a que o amarelo sahariano induz e, no fim, todo o Rossio ganhe utilidade social diária.

Aveiro avançará sem receio de restabelecer o tabuleiro central da avenida, de o arborizar, durante décadas a fio vivemos a Lourenço Peixinho assim, verde. Que se introduzam os veículos autónomos nos seus circuitos. Que a cidade volte a prosseguir o caminho da Aveiro Digital. Que o Green Deal europeu tenha em Aveiro forte compromisso. Que as políticas publicas de habitação renasçam para que os aveirenses não precisem de migrar ou de habitar em asilos.

Duas notas finais em pré-época eleitoral autárquica.

Primeira. A necessidade premente de ajudar o Sport Clube Beira-Mar a ter o pavilhão/sede do clube. Enfatizo, como sócio da agremiação de utilidade pública, o que se tem dito e é cada vez mais justo, lembrando que recentemente a autarquia adquiriu o pavilhão do São Bernardo e colocou-o, e bem, ao serviço da coletividade. Se o Beira-Mar não merece mais, também não merece menos.

Segunda. As histórias dos Cagaréus e Ceboleiros que nos precederam merecem respeito e divulgação. Temos de ter orgulho nos nossos antepassados, homens rijos e mulheres de pêlo na venta. Devemos reconhecer as tradições e expressões muito daqui do nosso chão. O livro Cagaréus e Ceboleiros. Aveiro – Usos e Costumes do nosso querido João Sarabando, personalidade que tive o privilégio de conhecer, seria de leitura altamente sugerida na nossa comunidade. Cada criança das escolas do concelho de Aveiro deverá receber, no momento pedagogicamente adequado, este compêndio, sendo facultativa a aceitação. Seria um manual para ilustrar a nossa História e, subsidiariamente, para proteger Aveiro de oportunistas, carreiristas e paraquedistas e da sua ação deficiente ou malfazeja. Cuidado redobrado nestas temporadas, eles andam aí.

1 Comentário(s)

joão senos da fonseca
22 fev, 2025

gostei de ler e claro ,não sendo cagaréu,faço votos para que alberto souto dê a volta ao texto.abrc sf

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