Chega agosto e o cenário repete-se: o trânsito nas praias da Barra e da Costa Nova, no município de Ílhavo, torna-se num autêntico “inferno”. Filas intermináveis, carros estacionados em cima dos passeios, passadeiras e acessos às garagens. Durante estes dias de pico de verão, o postal destas que são das praias mais concorridas de toda a região Centro não se pinta só de azul e areias brancas. É certo que há duas condicionantes que ajudam a agudizar o cenário – a Barra e a Costa Nova estão localizadas numa estreita língua de areia e têm uma autoestrada que desemboca na ponte que lhes dá acesso -, mas também é verdade que têm faltado medidas para resolver o problema.
Em ano de eleições Autárquicas, a Aveiro Mag quis saber o que pensam os candidatos das forças partidárias com assento na Câmara Municipal de Ílhavo sobre esta situação. João Campolargo, Sónia Fernandes e Rui Dias já deram como certa a sua entrada na corrida à autarquia e são unânimes em reconhecer que existe um problema de trânsito que urge solucionar nas praias.
João Campolargo propõe novos parques de estacionamento
O atual presidente da autarquia, que volta a candidatar-se pelo movimento Unir para Fazer, reconhece que parte do problema reside na falta de locais para estacionamento em ambas as praias e dá nota da dificuldade em convencer os veraneantes a dar preferência aos transportes públicos, uma vez que os autocarros também acabam por não conseguir ter fluidez nas horas de ponta.
Entre as ideias equacionadas pelo candidato estão a criação de dois novos parques de estacionamento: um junto à rotunda (no terreno imediatamente antes da Biarritz) e outro a sul da Costa Nova, colocando, depois, “um veículo autónomo a fazer o transfer das pessoas”. Contudo, confessa o candidato, para tal será sempre necessário o aval da Agência Portuguesa do Ambiente, que não tem dado parecer favorável a estas soluções.
Outra medida – essa já quase pronta a ser ativada – reside no transporte fluvial entre as Gafanha da Encarnação e a Costa Nova, equacionando-se também a sua replicação a partir do Forte da Barra e em direção à praia da Barra. “Aqui, podíamos usar a zona de estacionamento junto ao Ecomare”, destaca o candidato, que estima ter a ligação entre a Gafanha da Encarnação e a Costa Nova em funcionamento dentro em breve.
João Campolargo também defende que deve ser incentivada a mobilidade ativa, lembrando que as obras que estão a ser feitas na Ponte da Barra, pela Ascendi, já permitirão “melhorar as condições de circulação e segurança” para os utilizadores das ciclovias. A esta intervenção, soma os investimentos já realizados pelo município na criação e manutenção das ciclovias das (e para) as praias e a vontade de vir a criar parques que alberguem mais bicicletas – e em melhores condições - nas praias. “É importante que as pessoas tenham confiança e saibam que não têm de levar a bicicleta com a toalha. Esse é outro dos grandes objetivos: criar estacionamento para os modos suaves”, sustenta.
Uma outra área que merecerá especial atenção passa por regular o espaço público. “Temos todos que assumir a nossa responsabilidade e aceitar as regras. Os automobilistas têm de deixar de ter os carros em cima do passeio, a vedar acessos, etc.”, adverte. “É importante organizar o espaço urbano e criar melhores condições para os peões e os ciclistas. Na Costa Nova, por exemplo, temos já o projeto para organizar o trajeto desde a parafarmácia até ao mercado. Esse projeto está já em fase terminal”, revela. Na Barra, a ideia passa por intervir na zona do Farol, “até ao Café Marito, e criar umas bolsas para a mobilidade ativa e para o bem-estar superior ao que temos atualmente, fazendo ali uma praça, que possa dar mais vida aquele local [...], salvaguardando o acesso dos moradores”.
Para João Campolargo é também importante atuar ao nível da regulação do caravanismo e autocaravanismo. “É uma matéria que continua muito desregulada”, repara, anunciando a criação de sinalética específica para proibir a permanência destes veículos nas zonas não permitidas.
Sónia Fernandes defende estacionamento periférico
Sónia Fernandes, candidata à presidência da autarquia pelo Partido Socialista, não hesita na hora de reconhecer que “o congestionamento automóvel e a escassez de estacionamento nas praias da Barra e da Costa Nova, durante o verão, são um problema sério que afeta a qualidade de vida dos residentes, compromete a experiência dos visitantes e coloca em causa a sustentabilidade ambiental do território”. “Para além de já ser uma preocupação antiga, pois já constava do nosso programa eleitoral de 2021, o Partido Socialista tem alertado para esta situação repetidamente em diversas Assembleias Municipais, exigindo uma intervenção planeada e urgente. No entanto, as nossas propostas e preocupações têm sido sistematicamente ignoradas pelo executivo municipal. O problema persiste ano após ano, sem resposta, sem estratégia e sem soluções estruturais à vista. É tempo de mudar esta forma de fazer política, que trata problemas reais com silêncio e inação”, adverte.
Para resolver o problema, defende “soluções equilibradas, sustentáveis e pensadas a médio e longo prazo, com base em três princípios: planear, investir e proteger”. Uma das sugestões passa pela “criação de parques de estacionamento periféricos, devidamente sinalizados, ligados a um serviço gratuito de shuttle elétrico até às praias. Esta medida retira pressão das zonas balneares e facilita o acesso com conforto e segurança”. A candidata propõe ainda “organizar áreas de estacionamento nas praias da Barra e da Costa Nova, atendendo à sazonalidade da utilização, com alocação de estacionamento aos residentes”, juntamente com “o reforço da oferta de transporte público sazonal e regular, promovendo alternativas reais ao automóvel particular” e a “implementação de zonas de acesso condicionado ao trânsito automóvel em períodos de maior afluência, protegendo os moradores e os espaços públicos”.
Sónia Fernandes nota que o desincentivo do uso do automóvel particular e o incentivo à mobilidade ativa e suave “são e sempre foram uma bandeira” do PS, recordando “propostas que sistematicamente” têm vindo a colocar na discussão: “o reforçar as rotas do sistema de transporte público de Ílhavo/Aveiro – Praias”, “criar uma rede de corredores verdes urbanos de interligação entre freguesias e os centros cívicos de cada uma”, “criar percursos pedonais e cicláveis iluminados, adjuntos à rede viária da Colónia Agrícola, conferindo segurança a quem circula”, “requalificar a Avenida José Estevão da Gafanha da Nazaré, de forma a compatibilizar os usos pedonal e ciclável, hierarquizando a rede viária e conferindo uma centralidade na cidade” e “hierarquizar a rede viária na cidade de Ílhavo, com enfoque na zona da estrada nacional 109, retirando deste troço o trânsito automóvel entre Aveiro e Vagos, cuja rotina é nociva para a vivência da cidade”.
Rui Dias com propostas diferentes para cada uma das praias
O candidato da coligação PSD-CDS, Rui Dias, também reconhece que existe um problema. “Embora não estejamos na posse do concreto número de viaturas que demanda as nossas praias no verão, o acréscimo em relação ao resto do ano é público e notório. E se isso pode ter, e certamente terá, uma expressão direta na rentabilidade e dinâmica do comércio e da restauração local, tem um manifesto efeito perverso sobre a qualidade de vida dos cidadãos residentes e a sustentabilidade do ecossistema natural e social de ambas as localidades”. Lograr o equilíbrio “entre o fraterno acolhimento a todos os que procuram as nossas praias e a rentabilidade dos operadores económicos locais e a qualidade de vida de quem reside em permanência nas zonas balneares e turísticas por excelência, como são a Barra e a Costa Nova constitui um dos grandes desafios do planeamento urbano dos próximos tempos”, nota.
Quanto a medidas concretas, Rui Dias começa por referir que “as soluções têm de ser diferentes” para cada uma das praias. Enquanto a Barra é uma península e, portanto, geográfica e territorialmente contida, a Costa Nova é (também) um corredor de passagem para sul que não podemos impedir ou prejudicar. Embora as soluções a adotar passem necessariamente por acordos a celebrar com entidades terceiras (nomeadamente a Secretaria de Estado do Ambiente, a Ascendi, a Agência Portuguesa do Ambiente e a CCDR-C que tutela atualmente a generalidade das matérias da competência da extinta Direção Regional de Agricultura) todas elas passam, a nosso ver, pela recolha e estacionamento de veículos a nascente da ponte da Barra, algures entre a zona do Porto Comercial, a Norte e/ou a Mata da Gafanha, a Sul, e pela deslocação dos passageiros em viaturas (leia-se minibus) elétricas especialmente adequadas a essa finalidade e que circulem rapidamente num corredor dedicado entre o parque de estacionamento e a praia da Barra e vice-versa. O parque de estacionamento pode, numa segunda fase, ser coberto com painéis fotovoltaicos que forneçam a energia dos minibus. Quanto ao acesso e passagem pela Costa Nova terá de ser equacionado noutra perspetiva, favorecendo o uso transporte coletivo, nomeadamente por via dos lugares de estacionamento pagos a preços dissuasores da sua utilização”.
Rui Dias defende ainda que que deve ser equacionada “a desclassificação do troço final da A25 como auto estrada, por forma a viabilizar e promover o acesso às praias nessa plataforma de circulação mas em meios suaves como as scooters, bicicletas e trotinetes elétricas ou não”, adverte, garantindo que irá apresentar, no seu programa, medidas que incentivem a mobilidade suave e ativa. Sem levantar totalmente a ponta do véu, refere a intenção de “concluir a rede de pistas ciciáveis municipal criando a possibilidade de deslocação em bicicleta em vias dedicadas em todo o território municipal” e a vontade de “estender o conceito da BUGA a Ílhavo, adquirindo as bicicletas necessárias e estabelecendo os adequados mecanismos de acesso e parqueamento”, entre outras propostas.