Há uma pergunta que paira sobre cada sala de aula, embora raramente se formule em voz alta: para que serve, afinal, a educação?
Durante muito tempo, acreditámos que a resposta era simples: formar para o trabalho, preparar para o mercado, adaptar o jovem às necessidades da economia.
Mas quando o mercado muda todos os meses e os empregos desaparecem com um clique, essa resposta começa a soar curta, quase ingénua.
As escolas e universidades tornaram-se fábricas de competências.
Cada curso é avaliado pelo número de “saídas profissionais”, como se o valor do conhecimento dependesse do salário que ele promete.
Fala-se de “empregabilidade”, de “perfil do trabalhador do futuro”; expressões que soam mais a manual de instruções do que a projeto de humanidade.
Contudo, educar sempre foi mais do que formar mão-de-obra.
Educar é formar consciência, é dar aos jovens a capacidade de discernir, de cooperar, de duvidar e de cuidar.
O emprego pode sustentar a vida, mas é a cidadania que lhe dá sentido.
E sem cidadãos pensantes, o trabalho transforma-se em rotina sem alma; uma sucessão de tarefas feitas por quem já não se pergunta porquê.
Talvez o erro esteja na pergunta.
Não se trata de escolher entre formar para o emprego ou para a cidadania, mas de perceber que uma economia sem ética é tão frágil quanto uma democracia sem pão.
O conhecimento técnico é vital, mas precisa de ser habitado pela consciência moral.
A mão que constrói também deve compreender o que constrói, e para quem.
O mundo precisa de engenheiros que saibam pensar como filósofos, de enfermeiros que leiam poesia, de políticos que tenham aprendido história.
A especialização sem reflexão é uma forma elegante de cegueira.
Ensinar a trabalhar é necessário; ensinar a ser é urgente.
E talvez o futuro da educação dependa justamente dessa reconciliação: lembrar que, antes de sermos profissionais, somos pessoas.
E que nenhuma profissão vale a pena se nos roubar essa simples verdade.