Há perguntas que regressam ciclicamente à vida democrática e que, talvez por desconforto, raramente são feitas de frente. Uma delas impõe-se quando se aproxima uma eleição presidencial: não tanto por que razão se candidatam alguns, mas porque razão tantos outros não o fazem.
Portugal não é um país pobre em pessoas capazes. Há experiência, pensamento crítico, sentido de Estado, conhecimento do país e do mundo. Há mulheres e homens com preparação, densidade e equilíbrio para exercer a magistratura suprema. Ainda assim, muitos optam por não avançar.
Essa escolha não nasce da indiferença cívica, acredito, mas de uma avaliação lúcida dos custos.
Candidatar-se à Presidência da República tornou-se um exercício de exposição total. Não apenas das ideias, mas da biografia inteira; não apenas do percurso público, mas também da esfera privada. O escrutínio, tantas vezes necessário, deixou em muitos casos de ser esclarecedor para se tornar punitivo. Para quem leva a função a sério, essa erosão constante não é um preço menor e nem sempre é um preço aceitável.
A isto junta-se um segundo fator: o empobrecimento do debate público. A Presidência exige ponderação, sentido institucional, palavra medida e visão de longo prazo. Mas o espaço mediático tende a premiar a simplificação excessiva, a indignação permanente, a resposta rápida. Quem pensa com nuance é confundido com hesitação; quem recusa o ruído é acusado de distância.
Os mais preparados sabem que cargos de Estado não se exercem em modo de campanha contínua. E, por isso mesmo, afastam-se.
Há, contudo, uma consequência mais grave deste afastamento. Quando os melhores não estão, o espaço não fica vazio. É ocupado. E muitas vezes por quem confunde proximidade com demagogia, frontalidade com agressividade, e simplificação com verdade. O populismo prospera menos pela sua qualidade do que pela ausência de alternativas credíveis, sólidas e exigentes.
É neste contexto que muitas eleições acabam reduzidas a escolhas defensivas. Não se vota no melhor, vota-se no que parece menos arriscado para a estabilidade democrática. Isso explica que um candidato com percurso institucional, mesmo sem entusiasmar, seja visto como “o menos mau”. E explica também porque figuras sem preparação adequada para o cargo conseguem, ainda assim, ocupar o centro do debate político.
Não se trata de equivalência. Trata-se de assimetria. Entre a insuficiência e a impreparação vai uma distância que importa não relativizar.
Forma-se, assim, um círculo vicioso: os mais capazes afastam-se porque sentem que o sistema não os chama; o sistema empobrece porque eles não avançam. A democracia mantém-se funcional, mas perde densidade. Continua legítima, mas resigna-se à gestão do possível.
Talvez devêssemos inverter a pergunta. Em vez de discutirmos apenas quem chega à segunda volta, deveríamos questionar porque deixámos que a escolha se tornasse tão estreita. Enquanto não exigirmos mais, não apenas aos candidatos, mas a nós próprios, continuaremos a eleger por exclusão. E a abrir espaço para que o ruído substitua o pensamento.