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A solidão de decidir

Opinião Ler mais tarde

Vivemos num tempo em que todos opinam.

Mas poucos decidem.

A diferença parece pequena. Não é.

Opinar é imediato. Decide-se em segundos o que está certo, o que falhou, quem devia ter feito melhor. A realidade surge no ecrã já editada, já explicada, já acompanhada de especialistas improvisados que garantem que teriam prevenido, antecipado, resolvido.

Decidir é outra coisa.

Decidir é fazê-lo quando a informação é incompleta.

Quando os dados ainda estão a chegar.

Quando os meios são limitados.

Quando o telefone não para de tocar.

Quando cada minuto conta.

Nos últimos dias, perante cenários de crise e pressão, voltámos a assistir ao mesmo fenómeno: uma sucessão de análises rápidas, muitas vezes assertivas, quase sempre seguras de si. É humano. Queremos compreender. Queremos encontrar causas. Queremos responsabilizar.

Mas há um lado menos visível da equação: a solidão de quem tem de decidir.

Nas autarquias, nos serviços públicos, nas forças de proteção e socorro, nas empresas que garantem serviços essenciais, há homens e mulheres que sabem que qualquer decisão terá consequências. Sabem que, mesmo fazendo o melhor possível com o que têm, haverá sempre quem considere insuficiente. Sabem que a perfeição é impossível e que o tempo raramente joga a favor.

E, ainda assim, têm de decidir.

A ilusão do nosso tempo é esta: confundimos participação com comentário. Acreditamos que estar atentos equivale a estar implicados. Que ter opinião equivale a assumir responsabilidade.

Não equivale.

Responsabilidade é carregar o peso da escolha. É assinar por baixo. É saber que, se correr mal, haverá um nome associado. É lidar com a consciência inquieta depois de um dia de decisões difíceis. É suportar a crítica, justa ou injusta, e continuar no dia seguinte.

Quem decide sabe uma coisa que raramente se escreve: em situações de crise, não há soluções perfeitas. Há soluções possíveis. E, muitas vezes, apenas a menos má.

Talvez nos falte esta humildade coletiva. A consciência de que fazer é sempre mais complexo do que comentar. De que agir é mais exigente do que prever depois de tudo acontecer. De que a responsabilidade não é um exercício teórico, é um peso real.

Num mundo de certezas instantâneas, a decisão continua a ser um ato solitário.

E talvez devêssemos respeitar mais quem, mesmo sabendo disso, não se esconde atrás do ecrã e assume o risco de escolher.

Porque, no fim, participar é fácil.

Difícil é decidir e, mesmo assim, dormir pouco e voltar a escolher no dia seguinte.

 

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1 Comentário(s)

f.maris
14 fev, 2026

como sempre justo,imparcial e profundo

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