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Os caminhos da sustentabilidade [da imprensa]

Opinião Ler mais tarde

Afonso Camões 

Jornalista

 

 

No Dia Nacional da Imprensa (18 de dezembro), propuseram-me que falasse sobre "Sustentabilidade", sustentabilidade do negócio que nos paga os salários. Sustentabilidade das nossas empresas.

Sustentabilidade é uma expressão que continua em alta. Em 2019, sustentabilidade ficou em segundo lugar na escolha da palavra do ano, tendo perdido por escassíssima margem para  "Violência [doméstica]".

Mas vamos ao tema.

• Nunca como hoje houve tanta produção noticiosa e informação disponível.

• Nunca como hoje houve tanta gente a consumir informação ou com capacidade para isso.

• Nunca como hoje houve tantos suportes disponíveis para difundir ou consumir informação.

Queixamo-nos então de quê?!

Temos, por vezes a sensação de estarmos no fim da linha quando se pensa na falência dos velhos modelos de negócio.

Vejamos:

Há 45 anos, o falecido jornal onde me profissionalizei tinha 430 trabalhadores. Jornalistas efetivos e colaboradores na redação, não chegavam a 20 por cento do total.

Grandes jornais portugueses como o Século, Diário de Notícias, O Primeiro de Janeiro ou o Comércio do Porto eram empresas verticais, que agregavam quase todas as valências da nossa indústria, da produção à distribuição própria incluídas.

Porteiros, telefonistas, contínuos, linotipistas, pessoal de laboratório de fotografia, zincogravadores, “desgravadores”, pessoal da produção de fotolitos e transporte às chapas - tudo profissões extintas ou que, pura e simplesmente desapareceram da nossa indústria, onde o computador só começou a chegar no final dos anos 80 do século passado, 10 anos antes da chegada dos telemóveis.

Deixem-me dar apenas dois ou três exemplos de como o digital matou várias profissões, reduziu a dimensão das nossas empresas e mandou para o desemprego alguns milhares de trabalhadores da nossa indústria.

Na maioria das redações escrevia-se à mão. E mesmo com a generalização das máquinas de escrever – muitas ainda com teclado nacional (hcesaropz  e não o qzerty) os textos iam depois para a tipografia, e daí para a impressão a chumbo. A tipografia, em caracteres móveis, gravava-se em máquinas de linotipia, com enormes teclados.

A passagem da impressão a chumbo fundido para a impressão em offset foi uma verdadeira revolução: acabaram as zincogravuras, acabaram os linotipistas, sendo que os alguns dos mais jovens foram reciclados na fotocomposição, já em computador.

Vi alguns desses homens chorar.

Lembram-se certamente de como era mudar de linha quando se trabalhava com máquina de escrever. Chegava-se ao fim da linha e acionava-se um pequeno braço que fazia mover o rolo e continuava o texto na linha de baixo. Ora, nas máquinas de linotipia, a mudança de linha era acionada com o pé, num pedal por baixo da máquina, como num piano.

Em reciclagem para fotocomposição, alguns dos antigos linotipistas ficavam com o que então chamávamos de “tique da paradinha”: Teclavam no computador e, chegados ao fim da linha, calcavam o pé direito como se ainda operassem nas antigas máquinas.

A revolução digital foi igualmente drástica na área da fotografia para a imprensa. Os fotojornalistas trabalhavam com máquinas de rolo fotográfico. Os rolos ervam depois trabalhados em laboratório, para a alquimia da revelação.

O digital acabou com o papel fotográfico e acabou com o trabalho e trabalhadores dos laboratórios.

No final de uma etapa da Volta a Portugal, no Interior do País, era uma correria. Dois batedores da GNR recolhiam os rolos de cada fotógrafo e partiam em velocidade a caminho de Lisboa e Porto, com os sacos de rolos que distribuíam pelos diferentes jornais. De contrário, não haveria fotos da etapa do dia nos jornais do dia seguinte. Hoje, com telemóveis, todo o noticiário, em texto ou em foto pode ser praticamente instantâneo.

Parece conversa sobre a pré-história, mas todas essas mudanças ocorrerem no decurso de uma geração.

Em 1982, quando da primeira visita de João Paulo II a Portugal, fui a pé do Porto a Fátima, ao serviço do Primeiro de Janeiro. O meu trabalho consistia em acompanhar grupos de peregrinos e contar histórias – crónicas peregrinas.

Ora bem, era preciso fazer chegar os textos à redação. Eram tempos sem telemóveis e, a pé, não dava para transportar qualquer tipo de maquinaria. No caminho, por vezes em percursos rurais, era preciso descobrir um telefone público, geralmente num café ou num restaurante, e imaginem-se em pleno café ou restaurante, diante da clientela, a ditar uma crónica para a redação.: vírgula, travessão, fecha aspas, ponto final parágrafo. 

Para receber esses textos e todo o noticiário dos correspondentes, havia nos grandes jornais a secção de “desgravadores”. Uns tipos que gravavam os textos ditados por telefone e depois os passavam ao papel. Tudo isso acabou…

Parece conversa sobre a pré-história, mas todas essas mudanças ocorrerem no decurso de uma geração.

Ao longo de muitas décadas, o dinheiro que nos pagava os salários entrava por duas portas: a da venda em banca (as receitas de circulação) e a da publicidade vendida (a receita comercial)

Os publicitários conheciam bem as quatro pernas da mesa que sustentava o mercado dos media. Era o BATI. B de banca, A de automóveis, T de telecomunicações, I de imobiliário. Ora, boa parte desta publicidade desapareceu dos media tradicionais.

Era com a publicidade nos jornais e revistas que se comprava, vendia ou escolhia carro novo, que se comprava, vendia ou arrendava casa. Era aí que se procuravam anúncios de emprego.

Hoje, bancos, marcas automóveis, empresas de telecomunicações e todo o negócio imobiliário abandonaram a publicidade em papel, nos media tradicionais. Hoje, online, no computador ou no telemóvel, encontramos todas aquelas alternativas.

Várias daquelas grandes empresas que nasceram e cresceram no velho modelo de negócio colapsaram antes mesmo de entrarmos no novo milénio.

No mercado nacional, o pico do negócio, juntando receitas da circulação e da publicidade, ocorreu em 2004. Desde aí foi sempre a descer, com a imprensa (jornais e revistas) a perderem quota de mercado, a venderem menos em banca e a venderem menos publicidade.

A televisão é ainda o meio de maior penetração popular, mas a internet é já o meio que que maior tempo médio ocupa aos portugueses, o meio em que consumimos mais tempo – e neste as redes sociais com maior preponderância entre os mais jovens.

Em geral, a economia de assinaturas, nos media, pagando novas audiências - impressa e digital - A economia de assinaturas, dizia, tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos, impulsionada principalmente pela estratégia e crescimento contínuos na obtenção de leitores convertidos em assinantes digitais.

Mas quando olhamos para a relação dos media com os gigantes da tecnologia, reparamos que a Google continua a ser a mais importante fonte de tráfego para as empresas de média em todo o mundo, respondendo por duas de cada três visualizações de página das principais empresas globais de tecnologia, de acordo com a análise de dados da Chartbeat.

Em todo o mundo, o Google representa, para os editores de notícias, 25 vezes o tráfego que o Twitter lhes traz, e quase duas vezes e meia o que lhe chega via Facebook.

O reverso da medalha é que estes gigantes tecnológicos cativam e abocanham dois terços da receita publicitária gerada pelos nossos conteúdos em meio digital.

Os meios tradicionais enfrentam, neste terreno, a sua maior ameaça. O modelo económico que nos sustentava foi confiscado pelos grandes motores de busca e pelas plataformas das redes sociais, sem que estes estejam submetidos a um ecossistema regulatório mínimo que os obrigue a pagar pelos conteúdos que não produzem.

Uma nota importante: o relatório da Associação Mundial de Editores invoca “evidências estatísticas robustas” para sublinhar que há uma relação forte e direta entre a existência de uma imprensa livre e independente e fatores que indicam a força das democracias, a saúde das sociedades, bem como a cultura e a riqueza das nações e a sorte de seu povo.

A tradição democrática imaginou a Imprensa, e mais tarde os meios audiovisuais, como instrumentos de liberdade de expressão, como contrapoderes aos poderes político e económico, e também como intermediários entre os agentes políticos e a sociedade civil.

Esta conceção clássica dos media está a ser rapidamente ultrapassada pelo crescimento brutal da internet e pela emergência e efeito tsunami das redes sociais, Facebook, Tik-Tok, Twitter, Instagram, Wechat, Snapshat.

Em 2005 havia mil milhões de utilizadores a nível global. Em 2010 esse número subiu para 2 mil milhões. Este ano, já estão perto dos 5 mil milhões. Ou seja, mais de metade da população mundial tem acesso à internet. Em Portugal, a internet já serve perto de 90% da população.

A internet escancarou o acesso à informação, e à distância de um clique o nosso sentimento de ignorância vacila perante a abundância de informação ou desinformação.

A internet permite, de forma instantânea, que um pequeno meio de informação local se torne num meio global, porque vence os constrangimentos da distribuição.

Na internet, reinam as redes sociais, como uma ferramenta poderosíssima de comunicação, com grande capacidade de convocatória e mobilização.

Mas trazem consigo, também, novos riscos, o lado negro da comunicação virtual.

Qualquer pessoa pode criar um perfil na internet, e há milhões de (trolls) perfis falsos em atividade.

Se nunca houve tanta informação disponível, também nunca como hoje foi tão fácil vigiar, controlar, espiar, manipular.

Nunca, como hoje, tivemos ao nosso dispor tantas armas e tantas ferramentas para invadir a privacidade do cidadão comum.

Com a agravante de que nunca, como hoje, valorizámos tão pouco essa privacidade. Ora, a negação da privacidade é a negação suprema da liberdade.

Repito: A tradição democrática imaginou a Imprensa, e mais tarde os meios audiovisuais, como instrumentos de liberdade de expressão, como contrapoderes aos poderes político e económico. Ora, esta função fundamental de escrutínio e contrapeso está hoje ameaçada por razões de sustentabilidade dos meios convencionais, que obedecem a regras – as da concorrência e da deontologia profissional dos jornalistas.

O aumento da literacia digital e a valorização das melhores marcas de informação tradicionais são, certamente, a melhor forma de combater as falsas notícias e preservar a liberdade.

Da mesma forma que noutros setores de atividade se evidenciam com expressões como “a calçar o país desde 1864” ou “a vestir Portugal desde 1923”, etc. também na nossa indústria é preciso enfatizar o valor das marcas, como selos de garantia, principal ativo das nossas empresas.

O futuro, já hoje, há de demonstrar o verdadeiro valor das marcas, traduzido em credibilidade, isenção, rigor, confiança e competência.

“Sustentabilidade” continua a ser uma das expressões em alta.  

Ora, a sustentabilidade de um meio de comunicação é o primeiro pressuposto da sua independência. E só há verdadeira liberdade editorial onde os meios são auto-sustentáveis.

A morte dos jornais já foi anunciada no passado, por várias vezes, e sempre na sequência de inovações tecnológicas. Primeiro quando a rádio surgiu e se popularizou, depois quando apareceu a televisão e se tornou no meio de comunicação social de massas por excelência. E, sabemos isso hoje, esses anúncios da morte da imprensa foram manifestamente exagerados. Não só os jornais sobreviveram como se multiplicaram, aumentaram a sua influência e viveram a sua época dourada nas últimas décadas do século passado. Os três meios podiam concorrer em busca da notícia. Mas, sobretudo, complementavam-se.  Dizíamos então que “A rádio conta, a televisão mostra e os jornais explicam”.

O modelo de negócio dos media é o mesmo há séculos e, mesmo depois de todas as revoluções, continua intacto: atrair a atenção de leitores, ouvintes ou telespectadores com informação e entretenimento, e depois vender essa atenção para a publicidade dos anunciantes.

Com a emergência e generalização da internet, a lógica dos sobreviventes passou a ser esta: vamos construir uma audiência robusta online e depois rentabilizá-la com publicidade, recuperando aqui o que vamos perdendo nas edições impressas. Os leitores deixaram de pagar para ler as notícias, mas pagam os anunciantes pela audiência que lhes entregamos. É assim, aliás, que a rádio e os canais abertos de televisão funcionam há décadas: os consumidores não pagam para as ouvir ou ver e são suportados, genericamente, pelas receitas de publicidade.

Podia ter funcionado? Podia, se alguns novos protagonistas não tivessem aparecido e não tivessem sido tão bem-sucedidos. A partir do momento em que se tornaram plataformas eletrónicas de referência, com as maiores audiências globais, Google e o Facebook transformaram-se nos maiores veículos de distribuição de conteúdos e de publicidade.

É potencialmente muito mais proveitoso mostrar um anúncio de um novo modelo automóvel a quem fez nas últimas semanas pesquisas de testes ou marcas de automóveis do que a um jovem de 15 anos que passa horas a ver vídeos de youtubers engraçados. O Google e o Facebook (entre muitos outros) sabem quem é um e quem é o outro, e a segmentação das campanhas faz o resto.

Estas duas empresas americanas e as chinesas Alibaba e Tik tok atingem já uma quota de mercado conjunta de quase 70% no mercado global da publicidade online, mercado que vale já mais do que toda a publicidade na televisão.

A faturação conjunta da Google – que é dona do Youtube, outra grande plataforma de conteúdos – e do Facebook ultrapassa já os 200 mil milhões de euros por ano. É certo que uma parte desta receita é partilhada com os produtores de conteúdos a partir de um determinado volume de tráfego, mas a receita que daí resulta é claramente insuficiente para as empresas de media compensarem as perdas que sofrem nos canais de distribuição tradicionais.

A resistir, conhecemos entre nós alguns casos de sucesso. Na generalidade destes casos, as fontes de receitas que resultam de estratégias de “branded content” (nome chic para publi-reportagens) sólidas e criativas começam a ser fundamentais, até na promoção de eventos.  E em todos estes casos, o papel do suporte vídeo é central, uma vez que mais de metade do tráfego de dados é gasto para ver vídeos online, o que faz deste o suporte mais promissor para garantir audiências e receitas publicitárias. É apenas uma das pistas para a transformação dos jornais tradicionais em operações rentáveis nas plataformas eletrónicas.

revista Publicidade

Dir-me-ão que não basta, sobretudo num tempo em que a distribuição de publicações impressas, hoje na mão do monopólio da VASP, ameaça deixar a metade interior do país sem jornais e revistas.

Neste quadro,

Pode o Estado ajudar, no atual estado das coisas, quando muitos de nós advogam que melhor que se pede ao Estado é que não atrapalhe? Pode. O Estado pode ajudar, mesmo sem meter a mão. E desde logo por via fiscal.

É essencial que o montante gasto em compras de notícias a meios de comunicação social portugueses passe a ser abatido aos impostos. Sim! Como se faz com as causas solidárias. E há alguma causa mais solidária do que esta?

Todos percebemos que as pessoas gastem dinheiro na internet em comida, transportes e até em sexo, mas são muito menos os gastam cêntimos com notícias. Porque nem ubers, nem hamburgers, nem massagens existem de borla em lado nenhum e, ao contrário, as notícias são grátis em quase toda a parte.

Esse foi o pecado original das empresas de comunicação social. Não cuidaram do negócio e partilharam gratuitamente na internet o que só vendiam no papel. Ora, como acontece em qualquer indústria, quando se perde o canal, perde-se o negócio. E aí está, em boa medida, o que explica a grande dificuldade presente dos meios tradicionais.

Como resultado deste erro estratégico muitas as empresas de comunicação social empobreceram tanto que algumas já capitularam e outras correm mesmo o risco de fechar.

Entre nós, o estado de emergência nesta indústria chegou a ser declarado, faz agora 5 anos, pelo Presidente da República, reclamando uma ação protetora do Estado, inscrita no próprio Orçamento. Não aconteceu nada, verdadeiramente nada.

Algumas das nossas principais marcas de informação não são apenas negócios de notícias – elas são património cultural e pilares da democracia. Por isso o Estado deve intervir.

Estas marcas, primeiro nas edições em papel e, a partir do final do século XX, trabalhando em suportes digitais, em texto som e vídeo, foram a fonte de informação noticiosa primordial na vida de, literalmente, milhões de portugueses, somados ao longo de muitas e muitas gerações. Por isso o Estado deve intervir.

Hão de gritar alguns que o que melhor que se pede ao Estado é que não atrapalhe.

Ora, há uma forma muito fácil de o Estado defender a liberdade de imprensa sem se intrometer no jornalismo. Trata-se de financiar os leitores em vez de financiar as empresas.

Como? É essencial que o montante gasto em compras de notícias a empresas de comunicação social portugueses passe a ser abatido aos impostos. Sim! Como se faz com as causas solidárias. E há alguma causa mais solidária do que esta?

Em condições normais de mercado, podemos afirmar que o que de melhor que se pede ao Estado é que não atrapalhe.

Mas o mínimo que se lhe pode exigir é que faça cumprir as leis e que, por ação ou omissão, não faça o jogo dos infratores.

Um exemplo claro de como o Estado atua e pactua com o mais escandaloso roubo tem a ver com a compra de clipping, essa atividade que vive da venda agregada de conteúdos informativos que não são seus - conteúdos informativos que são propriedade dos jornalistas e das empresas jornalísticas que os produzem.  

Como sabem, os tribunais condenaram, há poucos anos, as três maiores empresas de clipping que atuam em Portugal a indemnizarem em centenas de milhares de euros a Visapress, que é a entidade gestora dos direitos de autor dos proprietários nacionais de mais de 100 jornais e revistas.

Ora, apesar desta condenação ter transitado em julgado, obrigando as empresas de clipping e também os seus clientes a obter e pagar licenças, a Visapress estima que os conteúdos da Imprensa ainda são utilizados ilegalmente por centenas de entidades, oficiais e afins, dos serviços a empresas públicas e dos grupos parlamentares ao próprio Governo.

Um outro apoio indireto que o Estado pode e deve prestar, está na manutenção e/ou reforço dos serviços da agência noticiosa, a Lusa.  

O maior valor da Agência está nos conteúdos noticiosos (texto, foto e vídeo) gerados a partir do seu dispositivo de redes:

•          rede nacional e

•          rede internacional

A filosofia do atual contrato com o Estado assenta no entendimento de que a manutenção destas redes de prestação de serviços noticiosos é de interesse público, por razões de coesão nacional e de natureza estratégica, na projeção dos interesses, da cultura e da língua portugueses no estrangeiro. Daí o financiamento público.

Considero essencial a manutenção desta filosofia.

Ou seja, precisamos muito dos conteúdos gerados por uma rede de proximidade que é insubstituível nas atuais condições de mercado.

Nos termos do atual contrato, a Lusa cobre uniformemente o território nacional (a partir de várias dezenas de localidades, com presença efetiva em cada um dos distritos do Continente e Ilhas), e assegura noticiário permanente a partir de mais de 20 países, para além de múltiplos acordos bilaterais com outras agências, para permuta de serviços.

Admitir a redução do financiamento público e, por consequência, admitir a redução da cobertura de rede da agência seria desastroso - para a Agência, naturalmente, e em geral para os grupos de comunicação social servidos pela Lusa.

Em síntese, precisamos de uma Lusa estável e robusta, em condições de sustentar aquela rede de cobertura.

Precisamos de uma Lusa que não aliene (na cobertura noticiosa) nenhuma parcela do território nacional, nem nenhum dos países de língua portuguesa, para além da manutenção dos serviços de noticiário internacional protocolados com outras agências.

A montante da generalidade dos media, como fonte profissional privilegiada na produção e distribuição de conteúdos de informação, a agência Lusa tem sido, tem de ser um dos principais parceiros dos grupos de comunicação social, como fornecedor.

Em tempos de enorme incerteza, com a decadência da galáxia de Guttenberg que nos trouxe a informação impressa, fala-se agora da crise do jornalismo e da grande ameaça das notícias falsas, as fake-news. Ora bem, se são falsas, não são notícias, e nem sequer são novidade. Bem vistas as coisas, somos de um país onde um governo legítimo e os mais prestigiados jornais nos convenceram um dia de que havia no Iraque armas de destruição em massa, e que por isso era preciso invadi-lo. E, no entanto, essas armas nem sequer existiam...

Por mais crises que tenhamos passado e por outras que porventura viveremos, Guttenberg continua o Papa da imprensa. E há um traço comum a todas as épocas que não podemos alienar:

Jornalismo é buscar a notícia, avaliar e decidir da sua relevância, confrontá-la com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade. Repito: Jornalismo é buscar a notícia, avaliar e decidir da sua relevância, confrontá-la com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade. É essa a nossa vocação, e é esse o nosso destino.

 

* Intervenção proferida em Pombal, a 18 Dez. 2025, no Dia Nacional da Imprensa (API – Associação Portuguesa de Imprensa)

 

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