Nunca tivemos tanta capacidade de sentir ou, pelo menos, de mostrar que sentimos.
A dor acontece longe e chega-nos em segundos. Uma tragédia, um acidente, uma guerra, uma família desalojada, um rosto em lágrimas. Vemos, reagimos, partilhamos. Escrevemos palavras de solidariedade. Colocamos um emoji de tristeza. Acrescentamos um “que tristeza”, um “força”, um “é inadmissível”.
E seguimos.
Não há nada de errado em sentir. O problema começa quando sentir se transforma em exibição. Quando a empatia deixa de ser uma experiência interior e passa a ser um gesto público. Quando precisamos que os outros saibam que fomos tocados.
A dor alheia tornou-se conteúdo.
Fotografada. Filmada. Editada. Amplificada. Partilhada em ciclos sucessivos de indignação e comoção. Cada tragédia tem o seu pico de atenção, a sua curva emocional, o seu momento de viralidade. Depois, outra surge. E a anterior desvanece-se.
Talvez não sejamos mais frios. Talvez estejamos mais expostos.
Vivemos numa cultura em que quase tudo é comunicável. E, pouco a pouco, fomos aprendendo que também as emoções devem ser partilhadas. Que o silêncio parece indiferença. Que não reagir pode ser interpretado como falta de humanidade.
Mas será que sentir exige sempre mostrar?
Há uma diferença subtil entre empatia e performance.
A empatia aproxima.
A performance posiciona.
Quando publicamos uma imagem de sofrimento, perguntamo-nos se estamos a ajudar ou apenas a reforçar a nossa identidade moral? Quando comentamos uma tragédia, estamos a aliviar a dor de alguém ou a aliviar a nossa própria inquietação?
Não é uma acusação. É uma dúvida honesta.
Talvez partilhemos porque não sabemos o que mais fazer. Talvez precisemos de dar forma pública ao que nos dói. Talvez seja apenas a linguagem do nosso tempo.
Mas há um risco silencioso: o de transformar a dor num cenário onde cada um ocupa o seu lugar: uns sofrem, outros observam, alguns comentam.
A empatia verdadeira raramente é ruidosa. É discreta. É feita de gestos pequenos, muitas vezes invisíveis. De telefonemas privados. De apoio que não precisa de fotografia. De ajuda que não exige publicação.
Num mundo onde quase tudo se mede em visibilidade, talvez devêssemos recuperar o valor do que fica fora do ecrã.
Sentir não é mostrar.
E mostrar não é, necessariamente, sentir.
Talvez a pergunta mais honesta seja esta: quando partilhamos a dor dos outros, estamos realmente a aproximar-nos dela ou apenas a aproximar-nos uns dos outros?